Por trás do jogador-empresa

*por Irlan Simões

Um dos vieses no qual o futebol pode ser estudado é a realidade do trabalhador do esporte, enquadrado numa especificação oficial de esportista de alto rendimento. Obviamente não se trata de uma discussão simples. Afinal, o esportista, ou mais precisamente o futebolista, vive uma realidade completamente distinta dos outros trabalhadores.

A começar pelo seu status de estrela. O futebol tornou-se nos últimos anos um verdadeiro show business, que vai muito além da concepção de esporte na qual surgiu. Antes uma prática de lazer amadora, com a sua profissionalização vira uma atividade assalariada. Com o passar dos anos, devido à inserção de outros atores na vida dos futebolistas, como os agentes, o poder de barganha de alguns desses trabalhadores possibilitou conquistas materiais inimagináveis para qualquer outra categoria da classe.

No Brasil, esse novo modelo de relação com os clubes instaurou-se nos últimos dez anos – e mais nitidamente após a passagem de Ronaldo no Corinthians. Podemos chamar esse tipo de atleta de jogador-empresa, já que seus interesses e seu poder de negociação são superiores aos dos próprios dirigentes.

Também, pudera. Endividados e não-democráticos, os clubes brasileiros buscam a qualquer custo alguma saída para seus rombos anuais consecutivos. O modelo de contrato que Ronaldo praticamente inaugurou no Brasil reproduziu-se em outros casos como a vinda de Ronaldinho Gaúcho para o Flamengo e a de Juninho Pernambucano para o Vasco, em 2011. É também o modelo ao qual recorreu o Santos para segurar o jovem Neymar (na foto).

Trata-se de uma relação quase igualitária entre o jogador e o clube na venda de direitos sobre publicidade, televisivos e da renda dos jogos, estendendo-se a outras benesses. Tal relação acaba reverberando nas relações políticas internas do clube, uma vez que os interesses privados dos empresários ligados aos craques passam a interferir no dia-a-dia das agremiações. Entre eles, a demissão de treinadores, a não escalação de jogadores por antigas desavenças e aumento do preço dos ingressos.

Engana-se, no entanto, quem acredita que salários astronômicos, prêmios por produtividade e alto poder de consumo são realidades presentes na vida de todos os atletas, ou uma possibilidade em futuro próximo. Dados recentes apontam que 96% dos profissionais do futebol no Brasil – aqueles que fazem com que a bola não pare de rolar – recebem entre dois e três salários mínimos. Apenas 3% recebem mais do que 10 mil reais mensais.

Fazer com que a bola não pare de rolar, eis um grande problema. No futebol, pouco se discute a raiz da sua funcionalidade. Suas engrenagens, complexas e focadas nos grandes clubes, escondem que o jogo não existiria sem as pequenas ligas e as agremiações desconhecidas dos longínquos rincões do país.

Sem os pequenos clubes, o futebol definharia. Nessas entidades básicas de prática do desporto, forma-se o grande exército de futebolistas que compõem os plantéis dos médios e grandes clubes do Brasil e do mundo. Por mais que os mais famosos tenham lançado, nos últimos anos, um grande esforço para estruturar suas “divisões de base” — nome dado às escolas de formação de atletas profissionais –, os que são formados não suprem a rápida e violenta dinâmica do futebol.

Não é a toa que os interesses privados e mercadológicos que hoje rondam o futebol passaram a visar à formação de jogadores. As conhecidas “granjas”, escolinhas de futebol que pinçam os futuros craques através dos seus sistemas de peneiras, tornaram-se um dos grandes problemas de quem estuda criticamente o jogo. Já são diversos os casos de “clubes” que nascem apenas para a formação de atletas para a comercialização dos “direitos federativos” dos atletas, muitas vezes numa lógica cruel.

São clubes-empresa como o Olé Brasil, o Desportivo Brasil e o Pão de Açúcar E.C. Financiados por grandes empresários, estruturam tais escolas, mesmo que não tenham esquadrões de jogadores profissionais para disputar as principais competições. Na verdade, nem se prestam a isso, já que não se trata um negócio compensatório. Uma extrema contradição que não termina apenas aí, já que compromete inclusive a vida pessoal dos jovens atletas aliciados a assinar contratos com tais agentes.

Não seria um esforço teórico caracterizar tais instituições como promotoras do trabalho infantil. Jovens de 15 anos são levados a uma cidade desconhecida, por conta de um agrado financeiro dado aos pais, irrecusável dado os rendimentos familiares da grande maioria da população brasileira. Vivem em regimes fechados de concentração, treinando em dois turnos. Caso sofram uma lesão grave, são automaticamente descartados do grupo e abandonados. De fato, menos de 1% dos jovens que se envolvem com esse tipo de prática de formação tornam-se profissionais. E embora reúnam adolescentes e jovens em idade escolar, e os afastem de suas atividades normais, raras são as “granjas” que oferecem escolas – menos, ainda, uma formação humanística.

Uma realidade tão costumeira que não causa pudor em ser expressada. Quando Ronaldo, o Fenômeno, revelou seu interesse em agenciar jovens atletas, justificou sua nova aventura dizendo que se trata de um “negócio atraente” no qual “você compra dez jogadores e, se um der certo, já paga os outros nove”.

É dentro dessa lógica, inclusive, que muitos são “auxiliados” a adulterar seus documentos de identidade para fazer o famoso “gato”, reduzindo a sua idade real para, mais novos, conquistarem espaços em clubes. Vários foram os casos de jogadores que, descobertos após anos, sofreram sérias conseqüências. Entre os famosos já estiveram Sandro Hiroshi, ex-jogador do São Paulo e Carlos Alberto, ex-Corinthians.

Outros atletas, espelhados em casos raros como o dos jogadores-empresa, são forçados a jogar em países distantes, na sede de salários maiores. Muitas vezes, são esquecidos pela grande mídia, além de sofrerem com a falta de adaptação. Foi o caso de Elano, atualmente no Santos, quando jogava no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia.

Inseridos numa lógica meritocrática, os profissionais também têm se tornado um grande problema para os clubes e o futebol como um todo. São frequentes no Brasil os casos de jogadores que abandonam os times, assim como fecham contratos irregulares com outras agremiações, fazem “corpo-mole” para conseguir uma dispensa, entre outras técnicas reprováveis. Na maior parte das vezes, auxiliados financeira e juridicamente pelos próprios empresários, cada vez mais fortalecidos pelas leis de direitos federativos.

A nova realidade anula uma conquista anterior. Com o fim do “passe”, os jogadores haviam conseguido, após anos, livrar-se da tutela paternalista dos cartolas dos clubes, relação de fato muito cruel. Mas acabaram caindo no poder privado e mesquinho dos agentes: o que era direito deturpou-se em nova servidão, agravada pelo baixo grau de escolaridade da maioria dos atletas.

Foi como descreveu certa vez o sociólogo Emir Sader: “Os jogadores se livraram da despótica lei do passe para se transformar mercadorias nas mãos dos empresários. Como se tivessem sido abolidos os grilhões da servidão medieval para que os jogadores se tornassem ‘livres’ – com são ‘livres’ os trabalhadores no capitalismo: têm que vender sua força de trabalho a quem consigam, por não ter meios próprios de sobrevivência. A liberdade passou a ser a do empresário e a do capital, para comprar e vender suas mercadorias, não a dos jogadores”

Casos como esses forçaram clubes com longo histórico de formação de jogadores, como Cruzeiro e Vitória, a fechar algumas categorias de suas divisões de base. Alegaram que de nada adiantava formar atletas que posteriormente seriam “roubados” por tais empresários.

Ainda sobre a formação de jogadores, é preciso lembrar que o futebol não existe apenas para o resultado. Envolve uma enorme carga de relações subjetivas entre o clube, os torcedores e principalmente os atletas, grandes heróis que fazem o jogo acontecer. Quando sua formação se dá fora dos clubes de torcida, cria-se um novo tipo de atleta, que nunca passou por um processo de identificação com as cores de uma camisa ou uma nação de torcedores. Esvaziam-se, desse modo, as relações afetivas que fizeram do futebol um promotor de paixões. Surgem homens tratados como máquinas para chutar bolas e beijar um escudo pelo qual não tem o menor sentimento.

Felizmente, existe vida crítica e pensante, formulando novas saídas para o que está errado. Em recente e interessantíssimo artigo em seu blog, o jornalista Lucio de Castro narrou uma passagem pelo Uruguai e o novo modelo de formação de atletas que tem sido estimulado no pequeno país.

Lúcio descreve como o trabalho do psicólogo Gabriel Gutierrez abriu uma nova dimensão, com resultados concretos, na formação de jogadores que sejam acima de tudo “gente”. Questionando o tratamento que esses recebem no seu dia-a-dia dentro de um clube, desde um confinamento desumano até a exigência de que se comportem como máquinas dentro de campo, os uruguaios refutam tal modelo, mostrando que jogadores não são “bichos”.

É um método de simples aplicação e não seria novidade na mente de qualquer ser pensante. Mente e corpo não funcional isolados. Um super atleta de músculos potentes e avantajados pouco alcança, se não tiver oportunidades para desenvolver suas capacidades intelectuais.

Porém, como aplicar ideias inovadores em clubes de futebol cuja estrutura deliberativa é fechada e autoritária? Se não há, nem por parte de cartolas, nem de empresários, responsabilidade social? O único caminho é a democratização dos clubes para os torcedores. Aí, sim, se abrirão espaços para aplicação de boas e novas idéias.

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