O incrível submundo dos fast-foods aracajuanos

Sanduíches calóricos: quem se importa?

*por Irlan Simões 

Laricão, caga-mole, hamburgão da morte, pinga-óleo. Gorduroso, ignorância, podrão, monstroburguer, exagerança… São diversas as alcunhas, mas uma coisa é certa: ninguém recusa às 3h da manhã um Alasanhado transbordando o ‘molho especial’ à base de uma série de ingredientes desaconselháveis. Já virou tradição na cidade de Aracaju, Sergipe.

Todos os fins-de-semana os quiosques da capital sergipana recebem visitas religiosas para muito além da meia-noite. Seja saindo de uma balada, seja depois de um show, ou até mesmo de um programa mais leve, os jovens aracajuanos invadem as lanchonetes mais famosas da cidade. E não se trata de uma cadeia multinacional de lanches que anuncia no horário nobre de uma rede nacional de televisão.

Diferentemente de muitas cidades no Brasil, moças e rapazes de Aracaju preferem se arriscar em sanduiches mais baratos, menos prestigiosos, mas com um alto grau de popularidade – “Nunca trocaria um Egg’s Calabresa por um BurgerKing”, me conta Roger Simões, 22, publicitário e cliente assíduo da lanchonete há quase dez anos.

Devido à sua fama, e especialmente por ser o grande precursor dos fast-foods undergrounds da cidade, visitei o Galego’s Lanches, um quiosque localizado no bairro São José. Pedi um “alasanhado com coca”, expressão que se tornou quase um mantra nesses mais de 5 anos de fidelidade, enquanto chamei um funcionário para me conceder algumas perguntas. Infelizmente não cheguei a tempo de encontrar o famoso Galego, dono do estabelecimento.

Lá encontrei Paulo Sérgio trabalhando no Galego’s numa segunda-feira à noite, dia que escolhi imaginando encontrar a lanchonete mais tranqüila. Engano meu: a cada pergunta que fazia ao funcionário novos clientes chegavam, recusavam o cardápio e de prontidão já faziam o pedido, como se já estivesse na ponta da língua.

O certo é que seja pelo preço, seja apenas pelo sabor, os sanduiches nunca saem de moda. Pelo contrário, proliferam na cidade a cada dia novos estabelecimentos oferecendo o mesmo cardápio, mas se diferenciando entre si por um fator em especial: o molho. “A receita? Não, não pode dar não” me explica Paulo Sérgio. “É o que nos diferencia dos outros”, completa.

Paulo ainda me explicou que essa tradição de molho especial nasceu exatamente ali, quando o tal do Galego (típico apelido sergipano a qualquer pessoa que tenha olhos claros) saiu da Firmo’s, lanchonete na qual foi funcionário na Praça da Bandeira. Para se diferenciar dos outros concorrentes criou essa mistura cativante e praticamente fundou esse movimento de fast-foods undergrounds de Aracaju.

“A partir de quinta-feira é que o bicho pega aqui”, me conta Paulo Sérgio quando pergunto sobre a movimentação de jovens. “Geralmente começa a encher a partir das 18h, mas fica sem parar até umas 3h”, completa. O movimento na lanchonete é tão intenso que o seu proprietário precisou abrir um novo estabelecimento exclusivo para entrega em domicílio. Segundo o próprio Paulo Sérgio eles chegam a servir cerca trezentos sanduíches numa única noite.

Até que chega o meu pedido e peço licença ao entrevistado para comer. Enquanto saboreava o sanduiche e me sujava de molho especial, lavando a garganta com a Coca-Cola, observava o curioso movimento de clientes que não paravam de chegar. Casais de namorados, pais solteiros com seus filhos, grupo de amigos, crianças sozinhas, policiais militares, mulheres supostamente vaidosas, gordinhos, magrinhos e todo tipo de gente possível aparecia no que parecia um dia habitual numa cidade de médio porte como Aracaju.

Aprofundei um pouco mais a minha reflexão quando lembrei que há poucos metros dali, na Avenida Hermes Fontes, um gigante “M” amarelo corta a paisagem plana da cidade. Um símbolo que se encontra em todos os lugares do mundo, um estandarte de ostentação de um poder econômico que atravessou oceanos e continentes, uma marca que entra nas nossas casas sem ser convidada através da TV. O lugar, no entanto, se encontrava completamente vazio.

O que diria Milton Santos, celebre intelectual brasileiro anti-globalização? Os aracajuanos incorporaram a cultura fast-food, mas não incorporaram o McDonalds? Teria o “globaritarismo” falhado nesta pequena aldeia? Mas onde está agora o tal fetiche do consumo, a propaganda infalível e a indução publicitária? De onde partiu esse foco de “resistência”?

Passado o devaneio, a minha fome e o meu sanduiche, pedi a conta: R$7,80. Apesar do peso na consciência pela certeza de ganhar alguns quilos e certo percentual de gordura, o bolso não sentiu tanto. O que pode ser uma combinação periogosa: calorias demais por preços módicos. Aconselho dividir um pouco do seu tempo com atividades físicas.

Agradeci Paulo Sérgio pela “entrevista” concedida e tomei o rumo de casa.  Uma curiosidade que analisei no trajeto é que, tais lanchonetes, em Aracaju, antes de serem um lugar para encher a barriga, se tornou um espaço de vivência entre os jovens da cidade. No caminho de volta, outros estabelecimentos de fast-food underground comprovaram isso: muitos grupos ficam horas conversando nas mesas dos quiosques.

Caso você que leu este humilde escriba, mas nunca se arriscou em comparecer a algum desses quiosques alegando não confiar na salubridade desses locais, não perca mais tempo. A incidência de indigestões é relativamente baixa. Comparando com a minha cidade natal, Salvador, é como comer um acarajé tendo um estomago acostumado com escargots e canapé, mera questão de adaptação.

12 comentários sobre “O incrível submundo dos fast-foods aracajuanos

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