Futebol, esperança reacesa

Este craque excepcional, talvez o melhor de todos os tempos, sabe: esporte só tem sentido quando vai além da mercadoria

Por Irlan Simões

Já faz um bom tempo que venho escrevendo sobre o tema “Futebol além da Mercadoria” aqui, para Outras Palavras. Quase toda terça-feira sento e fico matutando sobre o que produzir, sobre o imenso mundo do futebol. É um papel meio difícil: quando se aborda um assunto que todo mundo comenta, torna-se às vezes difícil achar um tópico intocado.

Optei por discutir o futebol por um viés mais materialista, afastando um pouco o “torcedor” que há dentro da gente e avaliando de forma mais distante quem é quem nessa imensa engrenagem que se tornou o jogo amado por tantos.

É uma temática difícil de politizar, de apurar a veracidade fiel dos fatos, de apontar soluções e convencer até os amigos da importância da palavra “torcedor” e sua ação política. Ninguém me obrigou, oras. Mas eu podia simplesmente escrever o óbvio, o casual, o romântico, das mil maravilhas que o futebol pode nos proporcionar. Como não consigo omitir o obscuro ao meu redor, prefiro algo mais difícil. Podia também apelar da poesia, mas como ela e o linguajar rebuscado e figurativo também não são o meu forte, deixei isso para os colegas cronistas de maior talento.

Eu poderia também, como muitos, discutir as táticas do jogo, em teimosia ferrenha, disputando com outros colegas e com seres humanos em geral, o poder de ditar qual a fórmula mágica que nunca foi copiada, nunca foi entendida e nunca foi combinada com os rivais. Mas que, se fosse usada por aquele treinador, levaria o time ao título..

Tem também aquela modalidade de escrever apenas sobre os grandes nomes e pés, que conduziram das formas mais espetaculares e inimagináveis a pelota. Talvez pela idade, também deixei esse papel para outros colegas de profissão. Afinal, cresci ouvindo que “aqueles” jamais seriam superados. Pelé? Rei. Maradona? Deus. George? O Melhor. Até afirmações de que exisitram aqueles gênios incompreendidos e injustiçados da história do ludopédio, que o tempo e a poeira levaram: Puskas, lá no Leste Europeu, Eusebio, no país dos primos, Di Stéfano, pra dizer que tinha outro Argentino, Cruijff, com aquele time sem posição fixa…

Pois bem…

A verdade é que há anos abdiquei de certos modelos típicos da “literatura” futebolistica, mesmo que a internet hoje não nos cobrasse mais nada pra escrever a bobagem que a gente bem entendesse.

Mas hoje, peço desculpa às minhas próprias teimosias. Já havia até bolado um tema e encaminhado parte do texto, mas terei que falar do maior jogador da história do futebol mundial. Aquele que por tempos ignorei, nos meus comentários pessimistas sobre o futuro do jogo, Exatamente porque ele ainda nos permite ter a esperança de que há salvação.

Hoje vou falar do jogador que mais vezes marcou gols com a camisa do Barcelona Football Club. O maior clube de futebol do mundo. O time que teve a proeza de ter gente como Cruijff, Maradona, Ronaldo, Rivaldo, Stoichkov, Figo, Romário, Ronaldinho e uma lista infindável dos maiores gênios do ludopédio. Todos no melhor da sua forma, vestindo a sua camisa azul-grená.

Um jogador que, depois de tantos parágrafos, dispensou até apresentação. E se você ainda não descobriu, é porque provavelmente não ligou a sua TV ou não se deu ao trabalho de dar uma rápida conferida na internet sobre as proezas que esse rapaz realizou. O mais assustador de tudo é perceber que, com menos de 24 anos, já é para muitos o melhor da história, status geralmente adquirido após o fim da carreira.

Já foi duas vezes considerado o melhor do mundo e, por duas temporadas consecutivas, levou o seu time à conquista de seis títulos (ou seja, todos) numa mesma temporada. É o jogador que faz seu próprio treinador e companheiros de time se considerarem sortudos por um dia ter atuado ao lado dele. Ninguém atingiu tantas conquistas e tanto reconhecimento quanto ele. Quem quiser números, confira no site oficial da FIFA.

A “licença poética” da coluna de hoje tem justificativas. O homenageado mostra, sim, que o futebol ainda pode ir “além da mercadoria”. É o maior jogador da história, sem ter precisado, durante todo os curtos e intocáveis sete anos de carreira, apelar para a cafonice e a falsidade do “marketing pessoal”. Coisa que a maioria dos jogadores da sua geração, até mesmo aqueles de qualidade inferior, sempre colocam à frente do próprio futebol.

Muitos resistirão em atestar a singularidade extraordinária de Messi tão categoricamente como faço aqui. Vão usar e abusar da velha mania nostálgica e romântica do futebol de tempos que passaram. Ou talvez relativizar, referindo-se a tempos em que a preparação física era menos avançada. Ou até dizer que é ele só dá resultados jogando pelo Barcelona.

Talvez não tenham entendido até agora que esse jogador já quebrou e continuará quebrando os principais paradigmas dos grandes de sua geração. Estes podem ser ótimos atletas, mas muito menores que o comportamento, dentro de fora de campo, do grande craque.

Esse jogador — recuso-me a falar seu nome em respeito ao próprio leitor – não precisou abusar de sua fama, nem se tornou mais um mesquinho que se considera maior que a camisa que veste. É um gênio com a bola nos pés, mas principalmente em torno da coletividade da qual o futebol, é fruto e a serviço da qual existe. Nunca fez jogo de cena. Nunca se recusou a entrar em campo. Nunca forjou contato com outros clubes para barganhar melhores salários.

Hoje, há um time no mundo que pode se orgulhar de ter um semi-deus com seu manto. Apenas um. Só um, porque ele também se recusou a se entregar à velha mania de seus atletas, de usar o destaque momentâneo para trocar de clube e receber os melhores salários possíveis a qualquer custo.

Este craque excepcional é hoje unanimidade dentro de campo porque compreende que, durante quase dois séculos, muita gente trocou passes, chutou em gol, dividiu bolas e torceu tendões para alegrar as multidões apaixonadas pelo futebol. E é por isso que derruba todas as limitações conceituais, abstratas ou concretas, de ordem sociológica, antropológica ou filosófica, entre os conceitos de “futebol-arte”, “objetividade”, “trabalho em equipe”, “desempenho tático” e “futebol de resultado”.

Para ele, isso tudo é uma coisa só e, se é para fazer, que seja bem feito. Aliás, seja feito da forma mais bela e respeitosa possível. Que nos faça lembrar porque amamos esse jogo. Que nos faça esquecer, sem iludir nem alienar, tudo o que de errado e negativo tem acontecido no no futebol.

Também é o craque que, mesmo fazendo dois, três, até cinco gols (será possível?) numa única partida, ainda dá chance à humildade dizendo mais valeu a vitória dada a sua torcida.

Quando dizem que uma imagem diz mais que mil palavras, dá para considerar que o nome dele diz mais que mil gols e jogadas espetaculares que nos enchem os olhos. É por isso que terminarei o texto sem proferir seu nome. Só para nos dar a certeza de que sua existência é tão rara que deve ser valorizada a cada lembrança.

Durante anos, a imprensa esportiva profetizou sobre diversas falsas promessas que substituiriam os grandes nomes das décadas longínquas. Finalmente acharam o homem. O maior jogador de todos os tempos.

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