A “teoria do futebol” de Pasolini – 40 anos depois

O futebol de prosa e o futebol de poesia estariam esgotados?

*por Irlan Simões

Um grande intelectual das artes, o cineasta Pier Paolo Pasolini também foi um apaixonado por futebol. Tifosi Bolognesi, escreveu sobre futebol e viu-se no momento mais delicado da sua produção, após uma derrota acachapante da Itália para o Brasil, na final da Copa do Mundo de 1970, vencida pelo time de Pelé, Tostão, Jairzinho, Gerson e Rivelino por 4×1.

O ápice da produção intelectual de Pasolini foi no período que ficou marcado pelo “fechamento” do mercado de atletas para a Itália. Por definição da sua Confederação de futebol, os clubes italianos foram proibidos de contratar estrangeiros, exceto descendentes italianos em outros países. Como foi o caso de muitos brasileiros e argentinos. A Itália passava por um longo jejum de títulos e após essa medida, coincidentemente ou não, foi vencedora da Copa da Europa 1968 e vice-campeã mundial em 1970.

Para Pasolini existiam fundamentalmente dois tipos de futebol: o prosaico e o poético. O “futebol de prosa” rígido, previsível, engessado e o “futebol de poesia” mais artístico, imprevisível, suave e encantador. Pasolini faria essa comparação para colocar que o futebol conviveria com essas duas realidades distintas, que o futebol brasileiro se diferenciava do italiano nesse aspecto, e que essa realidade era fruto da “cultura e história” desses povos.

Ao transpormos tais critérios para o futebol, poderíamos afirmar que Pasolini associa o futebol “burocrático” à prosa, mais próxima da linguagem cotidiana, e o futebol “criativo” à poesia, dando-lhe uma qualidade expressiva sobretudo individual. Se, por um lado, a linguagem fílmica possui um caráter objetivo pelas convenções narrativas baseadas na técnica, no enquadramento e na montagem (“linguaggio di prosa”; PASOLINI, 1976a:140-141), por outro, ela mantém seu caráter “irracional” por estar próxima das imagens do sonho e da memória (CORNELSEN, 2006)

O futebol de prosa teria, no gol, o seu momento de subversão, uma vez que para Pasolini o gol é “o momento mais poético do futebol”. O futebol poético por sua vez, caracterizado muitas vezes pelo drible, teria tanta proximidade com o esplendor de um gol, que se notabilizaria mais por isso do que por outros motivos. Uma leitura que lembra muito Sócrates, ex-jogador Corintiano, quando dizia que não importava se o time de 1982 não havia vencido, era o melhor ainda assim.

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto, o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. (PASOLINI, 2005:5)

Pasolini não viu o time de 1982, uma vez que foi assassinado em 1975 um pouco antes do seu mais polêmico filme, 120 de Sodoma, uma sátira aos resquícios do fascismo italiano, considerado o motivo da sua morte. Também não viu a reviravolta que sofreu o futebol brasileiro após a derrota do time de Sócrates para, coincidentemente, uma altamente prosaica Itália de Paolo Rossi na Copa do Mundo da Espanha. Um marco para futebol nacional, que passou a sofrer violentos ataques à essa capacidade “improdutiva” de jogar um belo futebol.

Nos tempos de hoje a leitura de Pasolini, adaptada pelo jornalismo esportivo moderno – menos intelectual, menos ‘linguista’ e muito menos criativo – caracterizou a diferença entre os dois “estilos de jogo” entre “futebol de resultado” e “futebol-arte”. Por fim, a grande realidade é que com o chamado “mundo globalizado”, de economias internacionalizadas, mediante o alto nível de tecnologias de comunicação e de transporte, o futebol também sofreu grandes mudanças com esse processo.

Isso afeta, principalmente, o processo fundador do pensamento pasoliniano. Não existem mais fronteiras no futebol, pelo contrário: o globaritarismo, termo cunhado pelo geógrafo Milton Santos, enquanto “o verdadeiro fundamentalismo do século XXI” também incidiu sobre o futebol como força arrebatadora, favorecendo economias mais fortalecidas, intermediadas por negócios regidos por grandes corporações – estas grandes proprietárias do futebol.

Esse processo forçou não apenas uma disparidade entre a qualidade técnica (seja de prosa ou de poesia) do futebol na Europa com atletas da América do Sul, mas principalmente uma exportação dos atletas mais capacitados a construir em alto nível a tal da ‘linguagem do futebol’ a qual se referia Pasolini.

No tempo de Pasolini, para preservar a qualidade e a coesão do calccio a Itália proibiu a importação de atletas estrangeiros. Em 2010, um clube italiano, mais precisamente e curiosamente, chamado Internazionale, foi vencedor da Liga dos Campeões, o maior torneio de clubes do mundo, sem um único italiano no seu time titular. O que não significa, obviamente, que as diferenças entre o “futebol de poesia” e do “futebol de prosa” se esgotaram.

*Irlan Simões é jornalista

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s