Laudo da Cogerp eufemiza crime bárbaro no Shopping Jardins

“Há algum tempo, adolescentes da classe média aracajuana brigavam e tumultuavam no mesmo Shopping e ninguém foi torturado, nem agredido”

*por Geilson Gomes

“Até o asfalto do estacionamento do shopping sabe que o rapaz foi assassinado”. Este foi o depoimento cedido ao portal F5News pela principal testemunha do crime bárbaro, ocorrido na praça de alimentação do Shopping Jardins, no dia 11 de fevereiro, por volta das 23h. A vítima se chamava Leidison Reis dos Santos, de 39 anos. Motorista, pobre e negro. Ele tinha ido sacar seu seguro desemprego, mas foi impendido e espancado pelos seguranças, vindo a óbito.

Segundo o laudo da Coordenadoria de Perícias de Sergipe (Cogerp) que saiu no último dia 3, o motivo da morte do motorista foi por conta do golpe chamado gravata (mata leão). Para o coordenador da Cogerp, Adelino Costa Lisboa, “Leidison morreu durante a contenção de pessoas segurando e a vítima se debatendo [quando do golpe conhecido como mata leão, gravata]”. Ele ainda afirmou que “a conclusão é de que a lesão letal ocorreu durante a contenção e não de luta corporal”. Diante desta análise da Cogerp, o culpado da história passa a ser o golpe e não o agressor e que não foi espancamento, mas sim contenção. Por que é tão difícil afirmar que foi um homicídio por racismo? E aí, quem tá certo, o asfalto ou a Cogerp?

A gravata é um golpe utilizado no Jiu-Jitsu e sua finalidade é imobilizar e neutralizar o adversário. É uma técnica muito arriscada, pois pode quebrar o pescoço do oponente. Mas afinal, a gravata pode ser presa? Ela realmente tem alguma culpa? Claro que não. Neste caso, estamos presenciando mais um caso de impunidade e omissão de crimes praticados contra os negros e as negras, onde quase sempre não há culpados. Em Sergipe esses casos são recorrentes. Quem não se lembra do caso do menino Jonatha que foi brutalmente assassinado por policiais, e os espancamentos de adolescentes com vergalhões no mesmo Shopping Jardins. Todas essas vítimas só aumentam as estatísticas de crimes racistas, no país da ‘democracia racial’.

A juventude negra brasileira encabeça a lista dos desempregados e analfabetos. Com a abolição da escravatura, não houve nenhum programa ou projeto de integração dos negros de forma independente. Eles continuaram presos aos senhores em troca de comida e moradia. Além disso, os negros sofrem em cima de uma lei que sempre condenou e excluiu o negro, a exemplo da lei de 20 março de 1838, em que o governo de Sergipe proibia a africanos, livres ou libertos, freqüentarem escola públicas. O primeiro código penal da república criminalizava a capoeira, retirando o direito dos negros de manifestarem sua cultura e tradição.

Há algum tempo, adolescentes da classe média aracajuana brigavam e tumultuavam no mesmo Shopping e ninguém foi torturado, nem agredido. A questão não é a defesa de repressão por parte dos seguranças, mas que os negros não sejam criminalizados e nem agredidos ao frequentar qualquer estabelecimento, por apenas serem negros e pobres.

Voltando ao caso de Leidison. No dia 19 de outubro, aconteceu uma audiência na 8ª Vara Criminal do Fórum Gumersindo Bessa, no qual as testemunhas de defesa e de acusação foram escutadas. Porém, a solução não se dará somente acusando os seguranças pelo delito. A justiça precisa compreender que o crime de racismo é histórico e não está deslocado da sociedade – preconceituosa e excludente – em que vivemos. Encriminar os seguranças e não punir o Shopping Jardins é legitimar que ele continue batendo e matando os clientes negros, além de minimizar e individualizar um problema que é social.

O racismo é histórico em nosso país e o estado e seus agentes contribuíram e contribuem para a sua perpetuação ao banalizarem e naturalizarem crimes cometidos contra o povo negro. Assumir o racismo e compreender seus fatores históricos é o primeiro passo à sua superação.

A próxima audiência está marcada para o dia 12 de dezembro. Enquanto isso, os seguranças estão soltos, o Shopping está “solto” se preocupando com sua próxima decoração natalina, as contas da viúva de Leidison estão atrasadas e o asfalto ainda não foi chamado para depor. E o argumento da gravata continuará sendo utilizada para neutralizar, imobilizar e sufocar a luta e a resistência do povo negro.

*Geilson Gomes é jornalista

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