Imbatíveis x jogadores: sobre agressão e desrespeito

foto: Pedro Canísio/TV Bahia
foto: Pedro Canísio/TV Bahia

“Há 2 anos um desses jogadores deixou de ter seu nome cantando na entrada do jogo. Foi o gesto simbólico mais marcante da TUI dentro do Barradão. Era uma forma de mostrar a ele que sua presença era incômoda ao ponto de precisar ser ignorada. Todos os atletas eram saudados, menos ele, o que já havia se tornado constrangedor para o jogador”

*por Irlan Simões

Na manhã da sexta-feira 2 de novembro, quando chegavam ao Aeroporto LEM para seguir viagem a Bragança Paulista para confronto pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro da Serie B, os jogadores do Vitória foram recebidos com protestos pela Torcida Uniformizada Os Imbativeis (TUI). A equipe vinha de uma sequência de maus resultados que gerou a insatisfação dos torcedores rubro-negros.

O protesto foi pacífico. Nenhum jogador ou membro da comissão técnica foi agredido fisicamente, e os gritos foram direcionados a jogadores específicos. Os integrantes da TUI jogaram pipocas e moedas aos jogadores, chamando de mercenários e cobrando mais raça.

No momento mais tenso da ação organizada, os torcedores começaram a gritar “ou sobe por amor ou sobe por terror”, pressionando os jogadores a ter o compromisso de garantir o acesso do time à Série A. A ação da TUI aconteceu após o time cair de produção e após boatos de que os jogadores estariam fazendo “corpo-mole” para exigir valores maiores como prêmios pelo acesso e pelo título.

Em nota, a diretoria da TUI informou que o protesto foi realizado sem maior divulgação por dois motivos: evitar a blindagem por parte da diretoria do clube e evitar a aderência de torcedores mal intencionados, que não se centralizariam pela deliberação da torcida enquanto atitude para a ação. O esclarecimento pode ser visto na página oficial da TUI: http://www.osimbativeis.com.br/noticias-do-vitoria/nota-oficial-protesto

Há muita desinformação sobre o que tem acontecido de fato dentro do Esporte Clube Vitória: enquanto o treinador Paulo Cesar Carpegiani, que foi demitido, alegou que saiu em acordo bilateral com a diretoria, o presidente Alexis Portela fez questão de afirmar publicamente que sua saída foi pelos maus resultados dentro de campo. Por sua vez, jogadores próximos ao treinador interino Ricardo Silva foram denunciados como pivôs da saída de Carpegiani.

Quanto ao prêmio pelo título inédito para o rubro-negro baiano mais incertezas: alguns jogadores afirmam que quem estaria à frente da negociação era o capitão da equipe, e que os valores chegavam a 5 milhões de reais pela meta. A diretoria do Vitória, por sua vez, afirmou que esse assunto já estava encerrado e os valores já haviam sido definidos no começo do ano.

Ainda assim, o que mais chamou a atenção foi a reação da imprensa baiana ao ocorrido protesto.  Mesmo com diversas declarações de testemunhas que acompanharam a ação da TUI, informando que não houve qualquer tipo de agressão a jogadores, a imprensa baiana fez questão de informar que integrantes da TUI teriam agredido fisicamente jogadores do Vitória com tapas e socos.

Provavelmente a reação da imprensa baiana não seria igual, caso fossem os senhores bem vestido com camisas de gola pólo com cartão Diamante do Sou Mais Vitória (programa de sócio-torcedor) em mãos que ocupam as cadeiras especiais do Barradão. Podia ser o mesmo nível de palavras de baixo calão, os mesmos gestos obcenos, os mesmos objetos projetados. A verdade é que por se tratar de jovens  com boné de aba reta, óculos escuros e camisa de Torcida Organizada, a ação se torna imediatamente um ato de “violência e truculência”, como classificaram algumas matérias sobre o episódio.

Basta ver o que ocorreu no jogo entre Vitória e São Caetano em 2011, quando uma grande confusão se instaurou no setor “especial” das arquibancadas do Barradão. Torcedores entraram em atrito com a diretoria do clube no jogo que praticamente decretou a permanência do Vitória na Serie B por mais um ano.

Um dos mais ativos integrantes da Bateria do TUI, Kadu ‘Magnavita’ foi categórico em uma postagem no facebook após a instauração da polêmica do episódio no aeroporto: “Todo mundo sabe também que [uma rede de televisão] adora tumultuar o ambiente do ECV. Não fizeram uma entrevista com algum integrante [da TUI] e nem procuraram saber o motivo real do protesto. Já foi filmando e falando em agressão, agressão essa que não aconteceu”.

Historicamente, o último registro de ação organizada de forma agressiva da TUI foi em 2006, quando o clube caiu para a Série C. A gestão do clube era comandada por Paulo Carneiro, um dirigente que não fazia a menor questão de respeitar a Torcida Organizada, sempre indo a público externar o seu desejo de “dar fim a esse bando de marginais”.

A gestão seguinte seria a de Alexis Portela, com a qual a postura da TUI sempre foi de muito respeito, apesar das críticas de omissão em determinados momentos. Mas é importante perceber que a TUI é um caso impar na relação entre Torcidas Organizadas e diretorias, se tratando de Brasil. São inúmeros os casos de diretores de torcidas que se beneficiam de um poder de barganha adquirido pela promiscuidade entre esses espaços de poder para benefício próprio.

Reincidência de insatisfação

O próprio Kadu achou estranha a reposta negativa da torcida em relação ao protesto pacífico da TUI: “[no caso das Torcidas Organizadas] Os que protestam são vistos como maus elementos e marginais. São vistos como vândalos e vagabundos. Mal sabem estes que criticam que acordamos cedo pois sabemos ontem que o grupo de mercenários quer 5 milhões pelo acesso e título. Quando ainda não tínhamos feito nada éramos chamados de omissos, etc. Agora que fizemos somos criticados”

Esses mesmos atletas que hoje estão sendo criticados já foram protagonistas de protestos pacíficos por parte da torcida. Aliás, diversos protestos: em 2009, 2010 e 2011, com todo o tormento que havia se tornado comparecer ao Barradão quando o time tinha uma “queda de rendimento”, que posteriormente se tornaria, mais uma vez, o início de mais uma efetivação de Ricardo Silva, a TUI estava ali denunciando com faixas quem eram os verdadeiros problemas dentro do clube.

Há 2 anos um desses jogadores deixou de ter seu nome cantando na entrada do jogo. Foi o gesto simbólico mais marcante da TUI dentro do Barradão. Era uma forma de mostrar a ele que sua presença era incômoda ao ponto de precisar ser ignorada. Todos os atletas eram saudados, menos ele, o que já havia se tornado constrangedor para o jogador.

Mas foi exatamente esse fator que fez as coisas mudarem de cara. Quando esse atleta conquistou o posto de capitão do time – um brinde à sua vaidade – num momento que o elenco jogava bem, batendo recordes na história do clube, chegou a vez de barganhar. Uma das maiores infelicidade para a torcida neste ano: o seu aniversário coincidiu com um jogo no Barradão.

Para cumprir o roteiro típico de jornalismo esportivo atual, lá foi o jornalista perguntar o que ele queria como presente de aniversário. Esse jogador, que não é nenhum inocente, pediu que a Torcida voltasse a cantar seu nome, uma vez que havia voltado a jogar o seu melhor futebol e estava comandando o time para uma campanha histórica.

O que a TUI podia fazer? O clima era o melhor dos últimos anos, o time estava voando, jogando o melhor do futebol na Serie B, favorito ao título… a TUI cedeu, mesmo sabendo do quem se tratava. O jogador estava colocando para a Torcida a responsabilidade de evitar que as coisas deixassem de estar boas. Se a TUI rejeitasse o pedido dele, qualquer problema que acontecesse seria remetido ao “gesto de ingratidão” da torcida.

Seu nome foi cantando no Barradão, como pedido, e uma canção de parabéns foi puxada, ainda que com a resistência de muitos torcedores. Ele entrou em campo com a camisa da TUI, para reforçar o pedido.

Aconteceu que alguns meses depois era a vez do aniversário de 15 anos dos Imbatíveis. Um marco histórico que coincidia com um jogo que aconteceria exatamente no Barradão, palco das principais festas da torcida, estádio que ela ajudou a construir enquanto caldeirão no imaginário dos mais diversos jogadores, torcedores e jornalistas e todo o Brasil.

Nesse jogo ocorreu o estopim de toda a revolta da torcida rubro-negra. O Vitória foi derrotado por 2×0 pelo Atlético Paranaense, clube que disputa o acesso. O time jogou de forma apática e viu o clube adversário passear em campo. Ao fim da partida, foi decretada a demissão de Paulo Cesar Carpegiani.

Integrantes da TUI que estavam no aeroporto afirmaram que esse jogador desdenhava do protesto beijando uma nota de dinheiro de forma irônica. Esse detalhe, no entanto, não foi noticiado por nenhum meio jornalístico baiano.

Pra piorar a situação o Vitória foi derrotado pelo Bragantino, clube que fugia do rebaixamento, por 3 x 0, com direito a gol contra deste mesmo jogador.

Neste momento, a Torcida Uniformizada Os Imbatíveis é considera culpada pela derrota de um elenco que conquistou apenas uma vitória em 5 jogos.

 Confira o último caso de invasão da Torcida Uniformizada Os Imbatíveis ao aeroporto de Salvador.

http://www.youtube.com/watch?v=PeGlYD67d7M

Um comentário sobre “Imbatíveis x jogadores: sobre agressão e desrespeito

  1. Artigo esclarecedor e interessante, porém, é uma sacanagem esconder o nome do jogador.
    Quanto a revista adorei ver uma produção, séria e honesta, com a visão da moçada, que parece bem antenada com as “coisas” que acontecem neste nosso mundinho, porém senti falta da imparcialidade jornalística, pois, faltou falar do grande bi-campeão brasileiro o tricolor de aço. Parabéns aos que fazem esta e continuem…

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