Suburbia e todos os clichês do mundo!

*por Gabriel Almeida, em Nerd Militante

Não foi a primeira obra audiovisual focada em negros no Brasil e nem na TV aberta, a Record já tinha produzido o sofrível Turma do Gueto, mas estamos falando da Globo com sua audiência, recursos técnicos e recente investida em conteúdos focando a “classe C” sobretudo após o sucesso de “Avenida Brasil”.

Desta forma confesso que fiquei curioso para ver o resultado de Suburbia e não gostei nada.

Uma sequência de clichês…

clichê , na minha opinião, não é um recurso demoníaco que deve ser sempre evitado, inclusive por que faz parte de algumas estéticas e até mesmo da memória afetiva das pessoas.

A questão é que Suburbia usou todos os clichês possíveis para a série já no primeiro episódio, deixando-o enfadonho e previsível.

Conceição, protagonista e futura Suburbia, está dentro do padrão de beleza, trabalhou enquanto criança, emigrou, foi presa, apanhou, reagiu, fugiu, recebeu a ajuda de uma mulher branca (que explorou seu trabalho), enlouqueceu os homens do subúrbio, peitou a piriguete do bairro e foi estuprada.

Ufa, e a série só começou!

As outras personagens se encaixam nos esteriótipos clássicos dos negros no cinema, e olha que eles pouco apareceram:

Nos anos 1970, o pesquisador americano Donald Bogle escreveu o livro Toms, Coons, Mulattoes, Mammies e Bucks – An Interpretative History of Blacks in American Films, em que disseca os cinco tipos de negros que aparecem no cinema. Ele fala do cinema americano, mas não é difícil reconhecer os tipos nesse filme francês ou mesmo em alguns filmes, livros e personagens de comédia brasileiros.

“Toms” são os “Uncle Tom”, o Tio Tom – traduzido no Brasil como Pai Tomás, negro servil, que concorda alegremente em servir seus patrões; geralmente era o escravo que trabalhava dentro de casa, próximo aos senhores, e que por isso tinha mais regalias e benefícios que os que trabalhavam no campo.

“Coons” são os palhaços de olhos esbugalhados.

“Mammies” são as tias negras gordas, benevolentes, quase parte da família. Umas almas lindas e generosas. Tia Nastácia é uma, no Brasil. A criada de “E o Ventro Levou” é outra.

“Bucks” são os negros fortes e hipersexualizados. Seres brutais, indomáveis e irrefreáveis, a grande ameaça às donzelas brancas.

“Mulattoes” são os tipos simpáticos e agradáveis, muitas vezes mulheres, fadados a destinos trágicos, pois tentam esconder sua origem negra e buscar casamentos interraciais, por exemplo. Quando toda a verdade é revelada, elas se dão mal. (Blogueiras Feministas – Intocáveis, Spike Lee e o racismo dos estereótipos)

A única coisa que, por enquanto, fugiu do clichê foi a figura de uma crente que é gente boa e tolerante.

Outro ponto positivo foi a égua, de pelo branco e cega Rapunzel que a noite, na escuridão “enxergava” e era cavalgada por Conceição, inclusive a levou até o trem no qual ela emigrou para o Rio. Foram trechos belíssimos.

Questão política

Outra questão interessante no seriado é o fato dele se passar no início dos anos 90 e isso pra mim não tem a ver com a popularização do funk e sim com a ideia que querem passar que hoje não existe violência nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, vide Salve Jorge.

Em tempos de favelas com UPP não se pode mais retratar a violência nas comunidades, afinal elas foram pacificadas, só não avisaram aos traficantes, polícia e milicianos que ainda atuam violentamente na maior parte das favelas e comunidades pobres do Rio e do Brasil

O fato lamentável e criminoso!

 Agora vem o racismo, tinha que ter né! E com um toque brutal de machismo que é para a Globo não nos fazer pensar que ela mudou.

A cena do banho das meninas presas é complementarmente inapropriada, principalmente pelo tom machista  e racista ao mostrar meninas negras nuas de forma descontextualizada.

Sem contar que em tempos de combate à pedofilia e turismo sexual, mostrar várias adolescentes negras e explicitamente nuas é de uma falta de bom senso incrível.

Será que fariam isso se fossem brancas?

 

O que esperar?

Virão mais clichês, o que é normal, mas espero um roteiro mais criativo e menos previsível. A linha mestra ao que parece será a disputas de dança e o crime como pano de fundo, algo batido, mas que pode ser trabalhado com criatividade.

*Gabriel Almeida escreve cultura pop, dentre outros temas, no seu blog Nerd Militante

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s