Guarani Kaiowás: VEJA quem mata

Jornalista sergipano, que integrou expedição que iniciou onda de denúncias de extermínio do povo Guarani Kaiowá  por parte de fazendeiros, emite texto em resposta a jornalista de Veja que escreveu matéria favorável aos despejos 

*por Pedro Alves
ATUALIZAÇÃO EM 07/03/2014

Na edição da Revista VEJA, deste último fim de semana, foi publicado a matéria intitulada “a ilusão de um paraíso” falando especificamente sobre a situação do povo indígena Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, assinada pelo equivocado jornalista Leonardo Coutinho.

 Equivocado porque suas primeiras palavras afirmam a bobagem de que os indígenas estão sendo manipulados por não-índios, karais. Ora colega, há mais 500 anos que neste país se tenta manipular e escravizar os indígenas, mas nada feito. “Se for preciso a gente morre aqui!” afirmam lideranças Kaiowás. Foi assim e está sendo ao longo da história do Brasil. E é demais para o “desenvolvimento” e a sua corja ter dentro do mesmo território outra forma de trabalho que não a exploratória, eles tratam de dar um jeito. Genocídio, ameaça de morte, confinamento, suicídio. As armas do Estado Brasileiro contra os povos indígenas.

 Sobre isto, o jornalista não disse nada. É evidente que esta seja a postura daqueles que estão do outro lado da guerra. Para quem está da linha para cá, sabe o número exato de parentes assassinados por jagunços a mando de fazendeiros. 273 lideranças em nove anos. Além das mortes causados por atropelamento e envenenamento por agrotóxico. Do lado de cá, se sabe dos estupros de indígenas, dos assassinatos de professores e intelectuais indígenas. Não é de hoje, se sabe, é de muito tempo.

 Em 1983, assassinaram com cinco tiros o Guarani Marçal de Souza. A notícia de capa do jornal Estado de São Paulo do dia 29/11/83 acusa o réu: “Mulher de líder indígena mandou matá-lo: ciúmes”. Segundo a matéria a mulher de Marçal de Souza contratou um jagunço para matar o intelectual indígena. Dez anos após o assassinato, em 1993, foram a júri popular o fazendeiro Libero Monteiro de Lima e Romulo Gamarra acusados de planejar o assassinato do Cacique. Porém, os réus foram absolvidos no tribunal.

 Em 2003, o Cacique Marco Véron, com 72 anos, da aldeia Takuara, munícipio de Juti, foi espancado e morreu de traumatismo craniano. Na ocasião, o primeiro laudo da Polícia Federal acusava como réu a própria família Véron, alegando que a morte do cacique se deu por briga familiar. Nove anos depois, em 2011, são julgados os verdadeiros assassinos do Cacique Marco Véron. Foram eles: Estevão Romero, Carlos Roberto dos Santos e Jorge Cristaldo Insabralde, a mando do fazendeiro Jacinto Honório da Silva Filho.

 No final de 2011, em novembro, o Cacique Nísio Gomes, da aldeia Guaiviry, foi assasinado e seu corpo está desaparecido até hoje. O primeiro laudo da PF alegou que a quantidade de sangue encontrada no chão não era capaz de afirmar a morte do Cacique. O filho de Nísio foi indiciado por denuncia caluniosa. Tempos depois, 22 pessoas foram detidas envolvidas com o assasinato de Nísio Gomes, dentre elas: jagunços, fazendeiros, um advogado do Paraná e o dono de uma empresa de segurança privada.

 A morte das lideranças kaiowás representa a luta histórica pela demarcação das terras indígenas. Ao contrário do que diz o jornalista infame, os kaiowás não precisam de ninguém para dizer porque lutam. “A luta é pela terra, porque sem terra não há vida, não há cultura”, afirma Valdelice Véron, filha do cacique assassinado em 2003.

 VEJA quem morre. VEJA quem mata. 

 Nos alienam sobre a formação do povo brasileiro. Nos contam que o nosso país foi descoberto, como um grande lençol sendo retirado de cima da linda obra de arte. Mentira. “Quando Deus criou o mundo, nós já estávamos aqui!”, afirma Cacique Kaiowá Farid Lima. Quando os portugueses chegaram e invadiram estas terras, os povos nativos já viviam aqui.

 Foi preciso catequizar, pacificar, exterminar os indígenas. Assim foi em 1559 no território de Olivença, sul da Bahia, no massacre contra o povo Tupinambá que ficou conhecido por “Batalha dos Nadadores”. Oito léguas de corpos de indígenas estendidos no chão, assassinados a mando de Mem de Sá. Mais de 500 anos se passaram, e o desenvolvimento e o progresso estampado nas bandeiras, TVs e nas bocas dos poderosos, continua a passar por cima de todos aqueles que estejam no seu caminho. Sejam indíos,  quilombolas, favelados, trabalhadores. O trator passa por cima.

 Por fim, essa imprensa suja que erra na escrita é capaz de matar um povo e toda a sua história. Porém, há os que estão acertando na luta em defesa da demarcação das terras indígenas, que estão indo às ruas, estão se pintando, denunciando e escancarando os nomes dos que mata os povos indígenas.

A história do nosso país foi e é forjada em cima do sangue dos nossos antepassados, contada pelos brancos colonizadores, pelos opressores. Essa não é a nossa história. A nossa história é a dos de baixos, dos oprimidos, dos que tombaram em defesa de suas terras tradicionais, em defesa dos direitos. É a história dos que não vacilam mesmo derrotados.

 Não VEJA, Lute!

 *Pedro Alves é jornalista e membro da Expedição Marco Véron que percorreu, em janeiro de 2012, 7 aldeias Guarani – Kaiowá denunciando as violações de Direitos Humanos cometidas contra o povo Guarani e Kaiowá. 

 

5 comentários sobre “Guarani Kaiowás: VEJA quem mata

  1. Primeiramente vocês devem se informar melhor quando relatam uma notícia além de apurar os fatos noticiados, o que só comprova a total ineficiência deste “canal” de notícias!Vamos aos fatos;
    1- Rômulo Gamarra não era fazendeiro e sim trabalhador do campo e foi acusado de executor;
    2- Libero Monteiro de Lima foi inocentado dos dois juris no qual participou.
    Este Pasquim digital de péssima qualidade e sem contêudo algum, falta com a verdade em suas matérias pois faz parte da imprensa “marron”, é tendêncioso, alarmista e inescrupuloso em seus relatos, uma verdadeira vergonha para a imprensa deste país!!!

    Só peço para que relatem a verdade sobre a morte do índio marçal de souza e corrijam a matéria aonde vocês estão afirmando que os assassinos foram Libero M.de Lima e Rômulo Gamarra como citado acima, sob a pena de processo penal por ínjúria, calúnia e difamação já que foram ambos absolvidos!!!!!

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