Despedida turva

*por Henrique Maynart

Aracaju, 30 de outubro, madrugada envolta nos assobios agudos do vento. A última noite que carrego o par de lentes gastas no palmo do nariz, duas pestanas de vidro temperadas e salgadas para o tempo presente, dupla confidente de minhas pupilas por uma década cerrada.

A armação negra já absorvera o tom esverdeado pelas beiradas da cintura, não há como escapar da brisa morna do tempo, do mormaço dilacerante dos caminhos que nos percorrem pelas andanças. O casco duro de minhas retinas, já bambo e perneta, se despede das linhas do rosto em mais uma madrugada de prosa insone e monossílaba, vassala maior da pregação de inquietudes na vida deserta de um quarto notívago.

Em meio ao descuido sórdido provocado em trevas de excessos coletivos, cometo o delito pérfido de amputar meu casco amigo após despertar de um sono truculento, justiceiro das noites de fervor flambadas nos risos trôpegos. Foi-se embora a dama negra dos meus olhos esbugalhados e abelhudos , testemunha dos capítulos de ódio, ternura, furor, de todo o calhamaço de sensações que perneiam o olhar de uma vida.

Por quantas vezes umedeci as lentes parcas de alegria e tristeza, por quantos deslizes lhe atirei na sujeira do asfalto, pisei verdadeiramente em falso em sua barriga côncava e sua coluna convexa. Por quantas oportunidades lhe arremessei aos cantos da vida, a fim de radiografar sinceridade aos olhos nus de um afeto que me negava confiança nos relatos? O casco já estava encharcado de mágoas e humilhações deste míope cafajeste, minha pisada foi a gota impávida do desamor. Esmoreceu de vez, partiu em um estalo, sem concerto nem perdão.

Destinada à cova rasa da gaveta, ao caixão vagabundo dos papelões, embalo o casco negro-esverdeado em um gesto de maior nobreza frente às convenções mais fúnebres. Afago a irritação inconsolável de minhas pupilas, arremessadas na sarjeta e embaçadas na perda recente, empurrando à força dois goles gordos de colírio, seguida de uma trago de conhaque nas papilas.

Arremesso meu singelo “até logo”, sepulto sorrateiro a muleta defunta da miopia que seguirá aleijando minhas vistas, a capa transparente de minhas olheiras não acalentará o horizonte turvo de minha curiosidade crônica.Estenderei minha mão a meu novo acompanhante na noite seguinte. Modernoso e soberbo, forrado de um sorriso cinza revestido e titânio, o confidente que amortizará minhas pupilas irritadas mudará, fatalmente, o curso tórridos das marés alinhadas em meu rosto largo, na correnteza de minha carranca sisuda, carranca pendurada há décadas na parede da minha cabeça.

Pois que chegue piando seu lugar no rosto, humilde e tímido, a temperar meus olhos pelas caminhadas míopes que me aguardam ansiosamente.

*Henrique Maynart é jornalista e escreve para a coluna “Sílabas crônicas de um compulsivo”

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