A obra “apagada” de Ismail Xavier

Um dos maiores ícones da crítica cinematografica do país tem seu trabalho desconhecido pelos próprios amantes brasileiros da sétima arte. Romero Venancio discute os motivos desse “esquecimento”

*por Romero Venancio

Para além dessa informação imediata e viciada em esquemas superficiais, os que querem algo mais em termos de informação e com um pouco mais de profundidade teórica podem encontrar na revista Le Monde Diplomatique – Brasil um dossiê muito bom sobre juventude brasileira hoje.

São seis artigos de diversos estudiosos do gênero. A ideia era pegar a situação da juventude brasileira na sua totalidade e com alguns dados da conjuntura internacional e seus rebatimentos aqui dentro. Reflexões sobre juventude e luta por direitos, a participação na politica nacional e algumas formas de apatia, a militância nas periferias e as “brigadas culturais” da juventude pobre, a juventude negra e a discriminação racial sofrida por esta juventude, a educação e as mudanças na vivência da sexualidade jovem, o mundo da tecnologia e o fascínio jovem por ela, as redes, as drogas, tudo isso faz parte dos artigos e escritos por pessoas que vêm se dedicando a esse tema a algumas décadas, como o caso da socióloga da UFRJ Regina Novaes.

A conclusão mais imediata e que não temos mais a “juventude dos sonhos” de esquerda ou de direita (mesmo que existam direita e esquerda nesse universo, mas não detém o privilégio de orientar diretamente), pesam carreira, dinheiro, canudo… Mas pesa também a pobreza, as frustrações, a família. A coisa tá mais confusa e desigual nas poucas opções da juventude pobre e como diria Picasso: “demora muito para ser jovem”. Um ótimo trabalho para pesquisadores ou curiosos no tema (como é o meu caso).

Uma outra matéria que honra o jornalismo brasileiro é a resenha crítica assinada por Orlando Margarido na revista CARTACAPITAL desta semana, intitulada: “A inversão do Brasil: Ismail Xavier reedita precursor da alegoria na tela” tratando do relançamento da obra de Ismail Xavier: “Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, Tropicalismo, cinema marginal” pela editora Cosacnaify.

Destaca o autor a importância dessa obra no cenário da crítica cinematográfica brasileira. Diria na linha de Margarido, que é Ismail Xavier o mais importante e denso critico de cinema do Brasil e da América Latina. A obra em questão é um marco no ensaismo crítico na boa linha de Antonio Candido e Paulo Emilio Sales Gomes.

O livro agrupa o cinema novo de Glauber Rocha, o seu oponente, o Cinema Marginal e as influências do Tropicalismo no cinema brasileiro de uma maneira erudita e sem perder de vista os filmes: Terra em transe, Bandido da Luz Vermelha, o quase impenetrável Bang bang, Macunaíma, Matou a família e foi ao cinema.

O grande mote de Ismail é articular todos no tema da “Alegoria”, tema caro a Walter Benjamin (uma grande referência na leitura de Ismail). Esse cinema seria alegórico de uma situação vivida naqueles anos de ditadura, mas alegórico também numa revisão da história do Brasil.

“Os de baixo” passam a figurar como lugar hermenêutico de entendimento de como o Brasil chegou a ser Brasil. Tese completamente banida na historiografia oficial governista ou acadêmica e por seus escribas do ensino superior, sempre prontos a servir aos poderes de plantão, sejam de que natureza for. É o tipo de resenha que leitor algum vê em outra revista que não a CARTACAPITAL.

Ismail Xavier, apesar da sua importância na critica cinematográfica acadêmica, é marginalizado da mídia dos donos do poder e por seus jornalistas superficiais. Perde o leitor ou a leitora mais exigente em não conhecer uma obra como a do critico paulista.

Pela resenha de Margarido temos uma pequena amostra da grandeza deste livro marcante na crítica de cinema brasileira. Aprende-se história, teoria social e filosofia no Brasil numa só obra e a partir de uma linhagem cinematográfica exigente. Não é pouca coisa nos medíocres meios acadêmicos.

*Romero Venâncio é docente do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe e escreve sobre cinema para a Revista Rever.

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