Os dilemas do indispensável Movimento Negro

As experiencias do Fórum Internacional 20 de novembro e do VI Fórum pró-igualdade racial trazem grandes questões de debates e expõe contradições das quais o Movimento Negro foi vítimas nos últimos anos. Jornalista de REVER acompanhou os eventos e trás análises para reflexão

*por Geilson Gomes

“Sou negra, professora universitária e militante do Movimento Negro Unificado (MNU). Acredito que todo movimento social deva fazer enfrentamento. O movimento negro está perdendo força porque vem priorizando a luta institucional e com isso deixa de organizar e lutar pelo e com o povo negro. Temos que avaliar qual a relação que devemos ter dentro da instituição e entendê-la como parte do processo de resistência e luta. Não podemos ter as mesmas estratégias que tínhamos há tempos atrás. Nosso povo está sofrendo nas ruas e nas universidades os cotistas não tem resposta do movimento negro. Precisamos amadurecer para darmos resposta a tudo isso” .

O primeiro dia do Fórum Internacional 20 de novembro e do VI Fórum pró-igualdade racial e inclusão social do recôncavo já desenhava politicamente, em âmbito geral, como se daria as discussões, mesas redondas, GT´S e oficinas durante o encontro, que aconteceu nos dias 21, 22 e 23 de novembro, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), campus Cruz das Almas.

As palavras do principal idealizador do evento, o pró-reitor de políticas afirmativas e assuntos estudantis da UFRB, na mesa de abertura, destacaram a importância do evento e seus objetivos: rearticular o povo negro, estimular a produção acadêmica negra, ampliar as artes do povo negro e estabelecer um diálogo mais intenso com a comunidade.

A UFRB é uma universidade nova e tem/reproduz o discurso de ser inclusiva, humanista e progressista. Não podemos negar o trabalho realizado pelos professores, estudantes e técnicos (em sua maioria são negros), no sentido de promover a cidadania, a inclusão social e o combate a desigualdade social. O Fórum Internacional 20 de novembro é um reflexo desse esforço, embora ele represente uma ínfima parcela da população negra e ainda legitima o debate da institucionalidade.

Os três dias do evento foram todos dentro dos muros da universidade e dentre os palestrantes, facilitadores e mediadores, via-se uma considerável quantidade de pessoas ligadas a órgãos públicos e ao governo.

Esse é o risco de priorizar a luta institucional em detrimento da luta real, aquela que prioriza a organização do povo negro e que vocaliza as suas reais demandas. O movimento negro brasileiro já esteve em um patamar diferente do atual, e a partir de um dado momento histórico, percebeu que era importante disputar as estruturas do estado por meio dos partidos políticos, para com isso conseguir avanços e políticas públicas voltadas à população negra.

Hoje o movimento negro precisa fazer um balanço histórico desse passo, ampliando o debate para além da instituição e reconhecer que nada foi dado de “mão beijada”, mas sim pelas reivindicações e lutas dos resistentes negros.

Por uma educação anti-racista

 “Sou negra, estudante, quilombola e representante da Casa do Boneco, um grupo que valoriza e difunde a verdadeira história do negro. Há 25 anos começamos como um grupo de bonecos e hoje conseguimos realizar muito de nossos objetivos, principalmente no que tange a educação antiracista. Há seis anos o nosso quilombo – João Rodrigues – localizado em Itacaré, é reconhecido pela Fundação Palmares, porém, ainda não fomos reconhecidos pelo INCRA, pois há ainda muita dificuldade neste processo. O racismo é tão forte que não conseguimos muita vezes enxergá-lo. As cotas nas universidades sempre existiram, mas não estava na lei e era para os brancos. Tem um ditado que diz: um bom guerreiro é aquele que enfrenta os obstáculos e não desiste diante dos problemas”.

O fórum contou com um público composto majoritariamente c por estudantes, ávidos para aprender e debater sobre os mais variados temas, como saúde, meio-ambiente, religião, cinema, sexualidade, entre outros. Em todos os espaços havia uma intersecção com as questões e demandas das negras e dos negros, sejam nos meios acadêmicos, culturais e religiosos.

Um dos principais objetivos do encontro foi a revitalização da história e educação do povo negro, que historicamente vem sofrendo um processo de aniquilamento. E isso vem desde a nossa escola, onde o negro aparece como descendente de escravo, favorecendo ao racismo e ao extermínio cultural. Portanto, é um risco apontar o meio educacional como uma saída para a supressão do racismo, já que a estrutura escolástica faz parte da cultura do branco e é sua principal difusora de sua ideologia.

Nesse sentido, o movimento negro, os quilombos e todos que se afirmam negros precisam cada vez mais criar espaços que não legitime a educação formal e que estabeleça a verdadeira história negra, que não está morta e ainda resiste. Não é negar aquilo que foi conquistado, como a lei 10.639, que instaura o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas e as diversas políticas afirmativas, mas entender seus limites dentro de uma ordem social que legitima a opressão racial.

“Sankofa”. Ou “tornar-se negro”

“Sou negra, representante da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco. A rede nasceu em 2007 e agrega as mulheres da jurema sagrada, candomblé e umbanda, com a finalidade de reunir essas mulheres guerreiras, mostrar o nosso protagonismo social e influir nas políticas públicas. Queremos dialogar com outras categorias, principalmente com as feministas, pois as respostas devem que ser diferentes e sofremos de uma discriminação agregada, por sermos mulheres, negras e de terreiros. A sociedade capitalista pela sua própria raiz já nos coloca na subalternidade, colocando a raça branca como a superior. Fazem-nos acreditar que nós somos inferiores Não somos mais pobres, fomos empobrecidos pelos furtos e estupros. Tornar-se negro é se reconhecer e se enxergar enquanto negro, conhecer sua cultura, que tem seu valor e nunca esquecer esse conhecimento que vem de nossos ancestrais. Tem um ideograma tradicional do povo da língua Akan de nome Sankofa. Esse ideograma é representado por um pássaro mítico que voa pra frente, tendo a cabeça voltada pra trás. Em outras palavras, significa voltar às suas raízes e aprender com o passado para entender o presente e moldar o futuro. Isso é tornar-se negro”.

Um dos melhores momentos do fórum foi a conferência de Angela Davis (foto), integrante do Panteras Negras, professora da universidade da Califórnia, militante do movimento negro e defensora da justiça e igualdade racial.  Um dos pontos abordados por ela em sua palestra refere-se à violência do estado contra os negros, principalmente às mulheres jovens. Ela defendeu a extinção do sistema policial e carcerário que somente reproduz a violência e criminalizam as negras e os negros. Além disso, focou nos temas referentes à violência e patriarcado, instituindo uma relação entre a violência de raça e de gênero.

Angela é uma personagem de um dos mais polêmicos e famosos julgamentos criminais da recente história americana. No dia 7 de agosto de 1970, três homens interromperam de armas na mão um julgamento na tentativa de ajudar a fuga do réu negro do caso que estava sendo julgado. Os três rapazes levantaram no meio da  sala do júri e renderam todos no recinto, conduzindo o juiz, o promotor e vários jurados para uma van estacionada do lado de fora. O grupo foi morto pela polícia. E onde entra Angela nessa história? Uma das armas apreendidas pertencia a ela. E por conta disso, foi condenada a prisão.

Eis um exemplo de resistência, ousadia e luta. É preciso tirar a viseira e revitalizar a história e as lutas do povo negro, que coloca hoje o movimento em outro patamar. Mas há ainda muito a conquistar.

“Não me intimido com qualquer inimigo
eu confio na força do povo
que por enquanto está desunido”

(Ponto de Equilíbrio)

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