ADEUS, PRIMEIRO AMOR: Uma abordagem sem clichês

“Confuso? A “dialética do amor” é mais ou menos assim. Tudo isto tratado sem clichês de novela ou pieguismo melodramático de filme Norte-americano”

*por Romero Venancio

Quem ver o filme: “Adeus, primeiro amor” (Un amour de jeunesse. Mia Hansen-Love, França, 2011) terá uma bela surpresa. A pelicula trata de um tema tão banal e corriqueiro como tomar água ou saber que uma mangueira produz manga, a saber, relacionamento e o seu fim.

Acredito que meio mundo ou mais da humanidade viveu ou vive ou viverá tal situação (para alguns, difícil, traumático e para outros nem tanto… mas acabamos quase todos e todas passando por isto… seja heterossexual, homossexual ou ‘os dois ao mesmo tempo agora!’ e como diz o ditado popular: “Que ninguém diga deste pão não comerei, desta água não beberei”).

Pois bem, o filme da jovem cineasta francesa (a mulher está na casa dos 30 anos!) trata de um relacionamento de dois adolescentes franceses entre 1999 a 2009 e que chega a seu fim, mas sempre parecendo que ficou “uma porta entre-aberta” com seu “grito de alerta” (Gonzaguinha).

Amor juvenil, lindo, utópico, criativo e bem vivido (entenda-se com sexo sem culpa e liberdade sartreana). Camile (entre 15 e 16 anos no inicio do filme) e Sullivan (entre 18 e 19 no inicio do filme) vivem um breve e intenso amor de juventude. Ela mais apaixonada e mais exigente, ele mais leve e em busca de uma liberdade ainda não explicitada…

 Estudam, se divertem, fazem acampamentos nos matos franceses (coisa cada vem menos visíveis na juventude da era neoliberal… quem tem shopping, vai querer o que com “acampamentos selvagens”?).

 Um primeiro marco no filme é quando Sullivan decide quase do nada fazer uma viagem para pela América do Sul (Venezuela rebelde? Bolívia rebelde? Equador rebelde?) no intuito de conhecer novas culturas e “crescer como homem” (a velha e sincera reflexão sobre indentidade) e neste instante os sonhos de Camile vão abaixo e ela entra numa profunda e visível melancolia.

 A coisa acontece em um breve corte na imagem. Um destaque do filme são os cortes abruptos e bem feitos pela diretora. Sempre deixam algo no ar que impele quem assiste a tirar suas conclusões e imaginar situações. Ela, Camile, fica sempre no aguardo de cartas, mensagens… O que vai acontecendo e rareando cada vez mais.

 A partir daqui o filme é todo do ponto de vista da personagem feminina. Seu crescimento a duras penas, sua melancolia, sua saudade infindável, um sofrimento sentido por quem assiste num misto de compreensão e impotência.

  Existem sofrimentos alheios que por mais que sintamos nada podemos fazer… Só o cruel e realista Tempo! Ela muda o visual, entra na universidade, faz arquitetura, conhece breves namoricos, trabalha… Mas aquele sentimento “tão perto, tão longe” lhe acompanham e lhe marca dia-a-dia.

 Parece que estamos esperando sempre um reencontro, que acontecerá… Mas em outra situação. Camile vai morar com um professor de arquitetura bem mais velho que ela e bem compreensivo e um pouco anárquico diante do mundo e das relações. Enquanto Sulivam já voltou das Américas e já trabalha como fotografo em outra cidade.

 O reencontro acontece e percebem duramente algo como dizia Fernando Pessoa “Quanto a mim, o amor passou”… Mas que continuou algo em Camile e em Sulivan… Algo que as vezes não passa, mas por equívocos inevitáveis do passado, o que passou não volta mais e ao mesmo tempo fica algo.

 Confuso? A “dialética do amor” é mais ou menos assim. Tudo isto tratado sem clichês de novela ou pieguismo melodramático de filme Norte-americano em média e por fim, uma nota digna de destaque: em dois momento ouvimos Violeta Parra cantando “Volver a los 17” e “Gracias a la vida”.

 Uma saudade da América Latina dos anos 60 onde a paixão e a utopia andavam juntas na motocicleta de Che Guevara! Muito bonito e como tudo que é bonito, tem algo de trágico. Um ótimo filme para se pensar e amar com todos os riscos…

*Romero Venâncio é docente do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe e escreve sobre cinema para a Revista Rever.

2 comentários sobre “ADEUS, PRIMEIRO AMOR: Uma abordagem sem clichês

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