No Morumbi: Civilizados vs. Selvagens?

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“Não adianta cair no erro vendido desde o primeiro jogo de que estariam em campo “Brasileiros Civilizados” versus “Argentinos Selvagens”. De repente somos os lordes ingleses contra os selvagens cangaceiros nordestinos. Não tem santo, aí, por isso a investigação, e principalmente a reflexão, é necessária. 

 

*por Dérek Stefano

Na partida que fechava a Copa Sulamericana de futebol, entre o brasileiro São Paulo FC e argentino Tigres, clube de pequeno-médio porte do país vizinho, uma série de acontecimentos estranhos mancharam o título do tricolor paulista. Negando-se a retornar ao campo para o segundo tempo, o Tigre perdeu a partida por W.O.

No jogo de ida o time argentino apelou para a catimba e o jogo pegado na tentativa de equiparar o claro desnível técnico entre as duas equipes. Como sempre, a postura não foi aceita pela imprensa esportiva brasileira. O que criou um clima de animosidade para a segunda partida, tema que abordo nesta análise.

Vendo entrevistas e imagem, do Fox Sports Argentino, na tentativa de entender “o lado de lá” da versão do ocorrido, fica claro que algo muito tenso aconteceu nos vestiários. O São Paulo criou um clima de conflito: O ônibus do Tigre foi apedrejado já ao chegar ao Morumbi, sem a devida proteção da Policia Militar de São Paulo (que sempre exerce efetivos de alta complexidade em dias de jogos).

Pouco antes do início da partida seguranças do SP entraram em atrito com os atletas argentinos para impedi-los de fazer o costumeiro aquecimento, alegando que o gramado precisava ser poupado. No intervalo, com o placar de 2×0 para a equipe brasileira, a própria PM, que sempre “defende” o status local, admitiu a “briga generalizada” nos vestiários.

“O que” e o “por quê”

Fato é que algo muito grave aconteceu hoje. Independente do que ocorreu em campo durante o jogo os argentinos passaram por maus bocados, algo que estava marcado em seus corpos e expressões faciais. Por fim, a acusação de excessos da PM é absolutamente plausível em se tratando da truculência típica das suas ações cotidianas nas ruas. Ainda declaração muito forte do dirigente do Tigre, que concordo e muito com sua linha contra a hipocrisia do futebol brasileiro.

Ney Franco: “um adversário covarde”. É, e apedrejar o ônibus dos caras na chegada é ação de Lords. Como impedir o aquecimento a porradas. Ney Franco: “espero que vocês brasileiros não colem com eles”. Oxe, e é disputa patriótica agora, ou a busca por esclarecer a vergonha que ocorreu hoje?! Ney Franco: “Eles não tem educação. A gente tem que ser escoltado lá”. Ah, ta, e aqui a PM ajuda é a bater. Educadamente, claro. 

É preciso averiguar minuciosamente o que ocorreu, mas sem cair na babaquice. Não adianta cair no erro vendido desde o primeiro jogo de que estariam em campo “Brasileiros Civilizados” versus “Argentinos Selvagens”.

De repente somos os lordes ingleses contra os selvagens cangaceiros nordestinos. Não tem santo, aí, por isso a investigação, e principalmente a reflexão, é necessária. Jogadas duras em campo sempre existiu em todos os países, o que foi criado com isso é reflexo de ar de superioridade que ainda se tem na raiz brasileira em referência a outros sulamericanos.

Diversos times batem em campo em todo lugar, a diferença pra deslealdade vai de interpretação. O que se gera fora de campo é que é o maior problema. E para a tal “educação brasileira” o SPFC cometeu diversas ações típicas de tal hipocrisia, lembra-se inclusive que a confusão começa com uma provocação do Lucas. Agravada pelo clima criado pela diretoria são-paulina.

Um momento pra refletir sobre tal postura. Mas coisa que certamente não ocorrerá. É mais fácil demonizar os “selvagens” e comemorar despedida. TODOS eraram nesse jogo desde as equipes e seus dirigentes, organização do evento e arbitragem. Por isso, o mais importante é a reflexão sobre o papel de cada partícipe.

Incluindo a mídia com a demonização da postura argentina. Enfim, a reflexão aí é muito além do esporte. É sobre construção e concepção social das relações, de como lidar inclusive com sua própria cultura.

*por Dérek Stefano é jornalista

 

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