Opinião: A peça Mulheres de Hollanda não diz a que veio

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“A última cena de tão boa chega a destoar do resto da peça e por isso merece um parágrafo só para ela. Representando a maldita e hostilizada Geni, a atriz que a interpreta está ótima. Mas o parênteses que esta cena merece reside em outra questão: originalmente interpretada por um travesti – em 1978 – faltou coragem ao diretor Jorge Lins em repetir o feitio 35 anos depois”

*por Fernando Correia

Apresentada na quarta, 16, para o lotado teatro Tobias Barreto, a peça Mulheres de Hollanda não diz a que veio.

É com um histórico grito do movimento estudantil que parte dos 100 integrantes da peça Mulheres de Holanda rompem com calor a calmaria do teatro. Encenando a organização estudantil contra a ditadura, as atrizes e atores esboçam um teatro politizado já no início da peça. Mas só esboçam. De forma bastante superficial a ditadura é colocada como algo deslocada da totalidade. Apesar de tocarem na questão da censura, o que parece mesmo ter passado pela censura foi a cena da tortura: sem sal, credibilidade ou qualquer resquício de ódio entre o torturador e torturado. Parecia teatro de colégio em aula de inglês.

Mas como tudo que está ruim pode piorar, o tom politizado se transformou em uma jocosa comédia do tipo pastelão. A mulher do século XX, foco da peça, foi reproduzida de forma machista, o que até seria compreensível se em algum momento o diretor tentasse superar o machismo de forma lúcida, o que não aconteceu. Pelo contrário, o esboço da independência feminina na verdade se igualava a “independência” masculina: opressora e consumista. Exemplo: quando a mulher, para se livrar dos seus mal-amados, precisa se afirmar enquanto feminina, compra móveis e um novo vestiário. Sua liberdade não passa da liberdade de consumo para se adequar ao sistema, pregando sempre devoção à ordem e ao consumismo. A caretice é tão careta que até o cigarro é falso.

O humor da peça se assemelha ao de qualquer peça baiana, mas não me refiro às boas, e sim aquelas que igualmente lotam o teatro em Aracaju. Esta comédia não serve para nada senão agradar a plateia no melhor estilo Zorra Total, não passando de encenações massivas com piadas que não vão além dos tediosos “cu” e “boceta”. A comédia, elemento importante e questionador, é potencialmente opressora, com cenas simplesmente sem sentido e que não acrescentam nada à peça, principalmente quando um pai de santo homossexual não diz a que veio, senão reforçar todo o preconceito em volta da questão.

A parte musical da peça não chega a ser ruim, pelo contrário, as canções “Gota d’água” e “Olhos nos olhos” chegam a arrepiar de tão bem cantadas. Mas a doce voz das meninas não tira o amargo de suas interpretações, ainda que a culpa não seja necessariamente delas e sim da preparação dos atores. Não faltou esforço ao elenco, com alguns bons destaques que poderiam tentar algo mais sério e profundo.

E o Chico? Claro, não podemos esquecer o Chico! Bom… ele só aparece uma vez, no fim da peça, em um diálogo com sua amante, revelando-o um puta cafajeste, mulherengo e machista. Não é mentira, mas também não deixa de ser verdade que o carioca merecia algo a mais. No fundo a sua imagem projetada em forma de fotografia é constante, e com olhos atentos e severos observa a peça não disfarçando um possível olhar de reprovação.

A última cena de tão boa chega a destoar do resto da peça e por isso merece um parágrafo só para ela. Representando a maldita e hostilizada Geni, a atriz que a interpreta está ótima. Mas o parênteses que esta cena merece reside em outra questão: originalmente interpretada por um travesti – em 1978 – faltou coragem ao diretor Jorge Lins em repetir o feitio 35 anos depois. A canção que esconde uma crítica ao capitalismo no trecho que “Geni preferia amar com os bichos a se deitar com homem tão nobre, cheirando a brilho e a cobre”, acabou passando em branco. Geni é execrada, fodida e mal paga. Na última cena os 99 atores da peça apontam e gritam contra Geni, uma cena forte e bem dirigida, mas que sobre o público não causou mais do que risadas, assim como na cena da censura. Isto, porém, não vem ao acaso. É o preço que se paga por travar debates sérios com um humor mal direcionado, o riso da plateia revela a superficialidade com a qual os temas são tratados.

Por fim, fica uma questão: qual é a função do teatro? Ou ainda mais profundo: o teatro deve ter uma função? Existe, ou deve existir, alguma relação entre teatro e sociedade? O teatro deve ter um vertente ligada às causas sociais ou a sua estética por si só já é revolucionário. Essas questões não são novas, mas estão longe de serem respondidas.

P.S: não considerei no texto, mas é salutar dizer que prefiro ver o teatro lotado com uma peça sergipana do que com uma comédia baiana. E que é assim que se fomenta nossa cultura, com acertos e erros.

*Fernando Correia, geógrafo e professor, mantém uma relação de amor e ódio com o teatro

Um comentário sobre “Opinião: A peça Mulheres de Hollanda não diz a que veio

  1. FERNANDO CORREIA, VC PODE SER GEOGRAFO E PROFESSOR, MAS DE TEATRO VC NÃO ENTENDE NADA, VAI PROCURAR O QUE FAZER E GUARDE O SEU RECALQUE DE NUNCA TER SIDO ATOR OU QUALQUER OUTRA COISA RELACIONADA AS ARTES. VÁ ESTUDAR. PARA P

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