O entrave lógico da “gestão empresarial” do futebol

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“O grande fracasso do futebol-negócio tem sido esvaziar os estádios do mundo inteiro. Fruto da própria concepção do que seria o futebol e do que devem ser os torcedores”

*por Irlan Simões

Muito se diz da profissionalização das gestões dos clubes, mas principalmente se ideologiza muito uma noção de administração empresarial das entidades básicas de desporto. Falando de futebol, essa condição ganha contornos ainda mais perigosos, ao se investir numa noção superestimada da aplicação de uma mentalidade “empreendedora” e da gestão de um clube como uma empresa enquanto únicas medidas capazes de solucionar todos os problemas existentes.

Principalmente se falando de Brasil, no qual o futebol é o único esporte de massas, que atinge todos os públicos, de todas as faixas etárias, em todas as extensões do país.

O receituário dos especialistas do futebol-negócio prega, antes de tudo, três principais “fontes de renda” aos clubes. Que identificaremos e faremos uma avaliação histórica, por partes.

A primeira, em termos proporcionais, é a cessão dos direitos de imagem para transmissões televisivas. Com o avanço das tecnologias de transmissão e registro de imagem, tornou-se cada vez mais fácil transformar o futebol em programa de TV.

Na medida em que ficou mais fácil, também se perdeu o limite geográfico. Os canais de satélite permitiram que qualquer campeonato de futebol do planeta pudesse ser assistido por um telespectador do imediato ponto oposto da Terra. Isso significa, para aquela empresa que adquiriu os direitos de imagem dos clubes, uma imensidão de possibilidades de negócio e de venda de espaços publicitários.

A segunda grande fonte de renda, que ganhou peso nos últimos anos em decorrência da primeira – e só vê o seu valor ser anabolizado com o passar do tempo – é a venda de espaços publicitários na camisa dos clubes, vulgo patrocinador. São as grandes empresas que enxergam o futebol enquanto veículo de transmissão das suas marcas e dos seus negócios.

A terceira, por fim, é a renda dos jogos. Essa perdeu o seu peso no balanço financeiro final dos clubes, grandes e pequenos. Isso se deu porque na medida em que os clubes barganhavam maiores valores e se jogavam num mercado altamente especulativo de “valor de marca”, também usavam suas reservas econômicas para montar elencos muito custosos, que não poderiam mais ser bancados pelo ingresso do torcedor.

Os estádios não crescem exponencialmente como as cotas televisivas, nem como os contratos publicitários. Muito menos a renda familiar dos torcedores tem crescido numa ordem parecida.

Mas aí que entra a grande questão: deveria a torcida ser considerada uma fonte de renda, ou um razão do futebol existir? O bê-a-bá do futebol-negócio aposta na primeira resposta, sem perceber que é essa lógica que está levando o futebol ao buraco e reduzindo os públicos nos estádios do mundo inteiro.

Vejamos. Pela lógica de qualquer administração empresarial, mesmo para pouco especializados no tema, é fundamental que se pense em planos, em metas e em projeções. Mesmo com a notável sabedoria universal mostrando por A mais B que o “ingresso pago” não tem mais o mesmo peso de outros tempos, ele ainda conta enquanto elemento dentro dos “planejamentos de gestão”.

Perceba que vou usando os termos dos defensores do futebol-negócio para construir a argumentação.  E continuo: se, enquanto gestor de um clube-empresa, você projeta para o seu clube um determinado peso nas receitas anuais advindos do pagamento de ingressos – usemos ‘20%’ enquanto exemplo – significa que até o fim do ano você perseguirá essa meta.

Como a atingirá? Através das manobras de mercado que lhe permitam: tenta atrair o torcedor com promoções, cria os chamados “match-days” para agitar a torcida e as famílias, e, principalmente, corta os ingressos mais baratos que não contribuem financeiramente.

Na lógica do futebol-negócio cada torcedor tem um valor, mas também tem um custo, como manutenção do espaço físico e dos espaços de comercialização. Se você tem setor de torcedores que é, por motivos estruturais, incapaz de consumir os caros produtos comercializados dentro do estádio, significa que ele não está contribuindo com a receita final do clube. Isso inclui as Torcidas Organizadas (aquelas que supostamente dão mais custos finais).

A que essa lógica tem levado? À óbvia exclusão de torcedores mais pobres e à uma resignificação do estilo de torcedor que comparece às praças esportivas: ao invés de vibrantes e apaixonados, como desejavam os donos do futebol em outros períodos históricos, o que interessa agora é o consumidor capaz de contribuir com a meta estipulada para a “Fonte de Renda tipo C”: a do público pagante.

Dois grandes exemplos que cito, enquanto experiência pessoal, são o futebol Espanhol e o futebol Português. Na Espanha, mais precisamente, o estádios dos dois grandes, Barcelona e Real Madri até podem estar cheios… de turistas. O ingresso é tão caro que se tornou artigo de luxo.

Na Eurocopa de 2004, em Portugal, todas as grandes praças esportivas do país patrício foram reformadas e transformadas em grandes arenas. Hoje, menos de 10 anos depois, os públicos no futebol Português vem caindo de ano-a-ano, e chegou em 2012 com uma ocupação dos estádios menor do que 25%.

Pude conhecer o estádio do Sport Lisboa e Benfica, o famoso Estádio da Luz. É uma obra da arquitetura e da engenharia moderna, mas é uma verdadeira geladeira por dentro (com a exceção da bela festa que faziam os No Name Boys). Apesar de ser o clube com maior número de sócios do mundo – cerca de 240 mil ‘filiados’ – o Benfica não lota seus jogos.

Primeiro porque os associados estão ligados ao clube, muitas vezes, por conta dos benefícios de outra ordem, que não o futebol: descontos em compras, ingressos para shows, facilidades de consumo.

As arquibancadas são divididas entre o setor Sagres, Coca-Cola, MeO e TMN. Todos, grandes patrocinadores do clube português, que pagam um valor considerável para ter suas marcas desenhadas com as cadeiras do estádio. O que significaria que esses estariam pagando o “custo das cadeiras”? Não necessariamente.

Algo parecido aconteceu no Brasil com o chamado Setor Visa. Diversos estádios cederam seus espaços para que a empresa desse ingressos em troca de compras. Não deu certo, também. A VISA se comprometeu a pagar as cadeiras de determinada parte do estádio, mas isso não se reverteu em benefícios para o resto dos torcedores.

O grande fracasso do futebol-negócio tem sido esvaziar os estádios do mundo inteiro. Fruto da própria concepção do que seria o futebol e do que devem ser os torcedores. Fruto da miopia “empreendedora” que, empreendida por especialistas que nunca fizeram parte de uma cultura torcedora – e portanto, nunca compreenderam a mística que leva as pessoas ao estádio – resolveram transformar todos nós em meros consumidores, em mera fonte de renda.

Deu nisso. Chegou a vez do Brasil.

*Irlan Simões é jornalista

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