TOM ZÉ: LIXO LÓGICO E TROPICÁLIA OU O DISCO DO DESASSOSSEGO

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“No movimento tropicalista, nenhum dos seus membros, tem mais propriedade e mais sensibilidade para nos mostrar/cantar os caminhos e descaminhos do movimento. Nem mesmo Caetano Veloso ou Gilberto Gil tem a graça, a leveza, a sátira e principalmente a mente inventiva que tem Tom Zé”

*por Romero Venâncio

Nada mais interessante dentro da história do movimento tropicalista que a produção de Tom Zé. Desde os anos 60 e chegando até hoje, ele manteve uma coerência estética sem igual no movimento e na música experimental brasileira. Isso pode ficar mais claro no documentário “Alquimistas do som”, onde o compositor baiano abre o filme com um depoimento e analisando cenas de algumas apresentações suas históricas.

Tom zé um experimentador do som e com isso sempre está revolucionando a MPB. Para ele, música é um conjunto de coisas em que o trabalho parece algo infinito, sem limites. A experimentação/mistura tropicalista notabilizou-se como uma forma sui generis de inserção histórica no processo de revisão cultural, que se desenvolvia desde o inicio dos anos 60 aqui no Brasil.

Os temas básicos dessa revisão consistiam na redescoberta do próprio País, volta às origens nacionais, internacionalização da cultura, dependência econômica, consumo e conscientização. Tais preocupações foram responsáveis pelo engajamento de grande parte dos intelectuais e dos artistas brasileiros na causa da “construção de um Brasil novo”, através de diversas formas de militância política.

Os movimentos artísticos mais significativos foram: os de cultura popular, como o CPC da Une, em que, além de estudantes, se engajaram poetas, cineastas e teatrólogos; espetáculos mistos de teatro, música e poesia, como os do Grupo Opinião; o cinema Novo, Teatro de Arena e Oficina, o violão de rua na música popular e alguns romances como Quarup de Antonio Calado e Pessach de Carlos Heitor Cony. É desse movimento cultural que vem o Tropicalismo e, em particular, a figura de Tom Zé.

 Nesse sentido, o mais recente trabalho do compositor baiano está na esteira desses acontecimentos dos anos 60 e 70 e que teimam ainda em nos desafiar. Parece um passado que teima em não passar e nos fascinar. “Tropicália lixo lógico” é um trabalho que reata no estilo como “Estudando o samba”, “Estudando o pagode”, entre outros de caráter “conceitual”.

 Tom Zé faz conscientemente um estudo dentro de uma retomada das raízes do Tropicalismo em música. Logo na capa do disco temos uma frase categórica: “Tropicália: braço cantado do pensamento que levou o Brasil da idade média para a segunda revolução industrial”. Megalomania? Talvez, mas com sentido. Há algo de uma tentativa grandiosa de mudar no Brasil  a sua forma provinciana de ser e se apresentar ao mundo.

 Era preciso revolucionar por uma música que era mais do que precisava ser mais que música de entretenimento, precisava ser pensamento, mudança de comportamento, provocação generalizada e forma musical articulada com outras formas de arte, como o teatro e o cinema. Tom Zé tem clara visão do que aconteceu com o tropicalismo, seu limites e seu fim conjuntural.

 Como podemos ver/ouvir na primeira música do álbum “APOCALIPSOM A (O começo no palco do fim): “E toda casta divina estava reunida: Apolo e Macunaima, Diana, Vênus, Urânia, Chiquinha Gonzaga, Bethânia”, torna-se necessário na lógica de Tom Zé oferecer uma visão mítica do movimento e depois coloca-lo na tradição brasileira e definir seus rumos, como ainda na mesma música: “E a menina, meu rapaz/ cresceu depressa demais: anda presa na soltura/ circula na quadratura/ e o sossego ela não deixa em paz”.

 Esse seria  e foi o objetivo da tropicália para além do movimento musical, tirar o sossego de uma “Nação adormecida em berço esplêndido”  e coloca-la na rota da “modernidade ocidental”. Em parte se conseguiu isso, mas pela porta dos fundos (como sempre tem sido a marca das mudanças sócio-políticas na história do Brasil). O disco de Tom Zé quer estipular uma “linha evolutiva-contraditória” do tropicalismo. Vai da “creche tropical” à “Tropicalea jacta est”, brincando sério com várias ironias, satirizando com o suposto fim do tropicalismo e nos dando uma lição de como olhar a história sem ser apologeta ou mal agradecido com o que se herda. Como percebemos na música “Tropicália lixo lógico”: “Não era melhor, tampouco pior/ apenas outra e diferente concepção”.

 No movimento tropicalista, nenhum dos seus membros, tem mais propriedade e mais sensibilidade para nos mostrar/cantar os caminhos e descaminhos do movimento. Nem mesmo Caetano Veloso (hoje um bem comportado compositor consagrado e afinado muitas vezes com o que tem de pior na indústria cultural brasileira) ou Gilberto Gil (com seu ar zen ou como político profissional em ministério de cultura) tem a graça, a leveza, a sátira e principalmente a mente inventiva que tem Tom Zé.

 Somente Tom Zé manteve-se ao largo de todo o movimento onde partiu mudando sempre. Desde o antológico “Todos os olhos”, o baiano estuda a música nas suas possibilidades infinitas e libertárias. Continuou assim até hoje. Chamaria sem medo de errar que esse trabalho do inventivo baiano poderia ser chamado de “Disco do desassossego” onde a história do movimento tropicalista é cantado liricamente, conteudisticamente e livremente.

 Obviamente, um trabalho como esse não vai para a grande mídia dos donos do poder e nem será recebido com loas pela critica musical brasileira afinada com a indústria cultural de nosso Pindorama (estou entre aqueles que acredita e vê nesse conceito uma grande atualidade no Brasil contemporâneo e suas expressões culturais).

No final do trabalho, Tom Zé faz um convite a pensarmos a possibilidade de termos ainda algo do tropicalismo hoje. Na música “APOCALIPSOM B (O começo no palco do fim)”, ele meio que vaticina: “É hora da segunda vinda/ Quem essa criatura vem a ser/ que sai do Spiritus Mundi?”

Tom Zé abre uma possibilidade reflexão muito grande com esse “Tropicália lixo lógico” e de um chamamento a olharmos o passado musical e literária brasileiro da semana de arte moderna para cá sem precedentes na música popular brasileira.

*por Romero Venâncio é docente do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe.

Um comentário sobre “TOM ZÉ: LIXO LÓGICO E TROPICÁLIA OU O DISCO DO DESASSOSSEGO

  1. É impressionate como a indústria cultural torna o homem tão subserviente à mímesis que a própria nos engole em seu estado de representatividade, bem como a própria indústria cultural ao nos oferecer uma diversidade inumerável de produtos em série. Creio que Tom Zé, diferente dos demais “tropicalistas”, estivera no ostracismo por mais de um viscênio por seu trabalho não convergir com a produção musical da época. Dentro do movimento tropicalista, Tom Zé de fato foi o único que manteve a essência. A obra coaduna de tal forma com o criador tornando quase impossível dizer quem precede o quê. Sua performance se aproxima muito com a natureza do teatro, por sua espontaneidade, sua ousadia em romper com a mesmice, aventurar-se em sair do “calor do estábulo” e arriscar sempre em se manter no estado de espírito livre. O ato criador é tão excepcional na obra de Tom Zé que naturalmente rompe com o Establishment. Isto não ocorre com os seus demais “tropicalistas”. Ele desenvolve em seu pensamento antes mesmo de materializá-lo em som, uma câmara de ecos “desarmônicos” para o padrão musical. Seu espólio são teses, no mínimo. Aí reside o “mal”. A mídia, bem como toda indústria cultural, objetiva BBBs, novelas com enredos pré-anunciados com efeitos catárticos, e nisso Boal via Brecht toca na ferida. Assim é Claudio Assis no “cinema”. Manoel de Barros na “poesia”. Duchamp na “arte”. Zé Celso, Beckett no “teatro”. Na música tivemos a ousada banda Cordel do Fogo Encantado; a islandesa Björk não fica por trás com seu experimentalismo. Da mesma forma o compositor de o Guarani, Carlos Gomes, obrigado a ir para a Europa por seu trabalho não ter o devido reconhecimento aqui no Brasil; não é diferente nos dias de hoje com Tom. Por meio de sua criação estética, esses obeliscos beliscam nossos sentidos adormecidos.
    Adorno no ensaio [Moda intemporal, sobre o jazz] cita o seguinte, “à mesmice do jazz, que levanta a questão de como é possível que milhares de pessoas ainda não tenha se cansado desse estímulo monótono”. Ele assinala o jazz como um ritmo inalterável e essencialmente privado na sincopa, marcante de contratempos, com tempos fracos do compasso, objetivando uma intencional surpresa no ouvinte. No entanto, esta provável surpresa é na verdade algo esperado. O Jazz para Adorno, não tem nada de espontâneo-criativo, não passando de um procedimento estandardizado do produto que aponta agradar seu consumidor reificado, acionando assim o botão da máquina de produção em série. Não há para Adorno, o abrigo para a criatividade e inovação no jazz.
    É interessante como a repetência impregnada pela Indústria Cultural reflete na educação amputando a espontaneidade/criatividade no processo de ensino-aprendizagem, seja na atitude do educador ou nas ações dos educandos. O efeito emanado pelo poder da Indústria é tão brutal que receio uma existência real de gerações de sujeitos mecanizados, inseridos ou não no âmbito educacional. Sujeitos incapazes de desenvolver raciocínio crítico e reflexivo perante a vida, quanto mais querer desenvolver um potencial criador.

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