João do Rio: Convite a uma Sociologia das Entranhas

joao.do.rio.almanaquebrasil.com.br

*por Márcia Fontes

A rua sente nos nervos essa miséria da criação,
e por isso é a mais igualitária, a mais socialista,
a mais niveladora das obras humanas.

(João do Rio)

Jornalista, cronista, contista, teatrólogo, carioca, gay, desdenhoso das vaidades estabelecidas pelos “literatos” de sua época, nascido em 5 de agosto de 1881, e falecido prematuramente 39 anos depois, João do Rio (ou Paulo Barreto como o nomeou seus pais) é uma prova de quão tendenciosa e fútil tem sido tanto nossa cultura literária como nosso mercado editorial, e como, no viés do moralismo, só decaímos.

Num momento em que a sociedade tenta mentir sua caretice com um falso e pobre erotismo em tons de cinza, e de uma “limpeza à força” dos drogados, a leitura de A Alma Encantadora das Ruas, nos introduz num passeio pelas vielas, pela vida “rueira”: “agasalhadora da miséria”.

Pelo seu olhar curioso e cínico sobre a atuação de personagens belos em sua naturalização, mundanos, vagabundos, conhecemos grandes histórias construídas na clandestinidade, nos esgotos das periferias, nos cortiços, enfim, nas entranhas das cidades onde ”os corpos movem-se como as larvas de um pesadelo”.

João do Rio dá vida a uma espécie de sociologia das entranhas, cuja pesquisa é o adentrar-se pelo âmago das cidades, pela histeria permanente das ruas e de seus atores: depravados, artistas anônimos – nos quais “encontrarás a confusão da populaça, os germes de todos os gêneros, todas as escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada” –; as mendigas do luxo – “eternas fulanitas da vaidade, sempre com a ambição enganadora de poder gozar as joias, as plumas, as rendas, as flores […] arfa-lhes o peito e têm as mãos frias com a ideia desse luxo corrosivo” –; escravos, religiosos – “conduzidos por caminhos que são despenhadeiros às vezes e campos de risos raramente, […] chora, ergue os olhos para o azul do céu, a menor das suas ilusões povoa-o de forças invisíveis e fala, e pede, e suplica. Que importa que diga tolices ou frases lapidares, horrores ou pensamentos suaves? É preciso remediar a fatalidade. E é por isso que enquanto existir na terra um farrapo de humanidade, esse farrapo será um moinho de orações” –; sádicos, jogadores, coristas, putas, desempregados opiômanos – “Grande parte desses pobres entes fora atirada ali, no esconderijo daquele covil, pela falta de fortuna. Para se livrar da polícia, dormiam sem ar, sufocados, na mais repugnante promiscuidade. E eu, o adido, o bacharel, o delegado amável estávamos a gozar dessa gente o doloroso espetáculo!” – ; barões, condes, atrizes, mendigos, políticos, charlatães, damas da recém-instalada república, enfim, o conjunto criado “fatalmente pelas ruas” que dá corpo ao “sistema social podre”.

Seu método, empirista, anárquico e debochado, é flanar: “Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem”. É evidente que os pobres moralistas tinham dificuldades para suportar um sujeito que, além do talento inegável, seguia afirmando: “Toda a vida é luxúria. Sentir é gozar, e gozar é sentir até o espasmo. Nós todos vivemos na alucinação de gozar, de fundir desejos, na raiva de possuir. É uma doença? Talvez. Mas é também verdade. Basta que vejamos o povo para ver o cio que ruge, um cio vago, impalpável, exasperante”.

Ou que, pela boca de um troteiro carnavalesco afirma cinicamente: “Eu adoro o horror. É a única feição verdadeira da humanidade. E por isso adoro os cordões, a vida paroxismada, todos os sentimentos tendidos, todas as cóleras a rebentar, todas as ternuras ávidas de torturas”.

*Márcia Fontes é mestre em filosofia pela UNICAMP

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