“HABEMUS PAPAM” OU A QUEM SERVE UM PAPA

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“Como não podia revelar para a analista seu real oficio, indica um que em muito diz da sua condição e da condição de ser um poderoso religioso, o de representar.  No fundo o ritual de poder católico sempre foi uma “encenação” para o mundo. O Papa acerta quando se esconde daquilo que realmente é. Uma sacada genial do diretor”

*por Romero Venancio

  O mais recente filme do diretor italiano Nani Moretti (Habemus Papam, 2012) nos remete inevitavelmente ao “quarentão filme” sobre Papa e Igreja Católica que é “As sandálias do pescador” (Michael Anderson, 1968). Neste, falava-se à época, teria inspiração na figura ímpar de João XXIII. Dizia-se que o “Papa Bom”, antes de tornar-se oficialmente Sumo Pontífice, saiu pelas ruas de Roma e nas periferias perguntando as pessoas o que elas esperavam de um Papa e até hoje não temos certeza de que isto aconteceu.  Se aconteceu, não seria surpresa pela personalidade de João XXIII.

Em ensaio sem precedência na filosofia, a pensadora judia-alemã Hannah Arendt, escrevia “O hábito desconcertante que o novo Papa (João XXIII) tem de conversar com toda a gente, chamou quase de imediato a sua atenção  para este escândalo” Escândalo? Uma Papa falar com os pobres?

O texto da filósofa tem um sugestivo subtítulo titulo: “Um cristão no trono de S. Pedro”. Tanto “As sandálias do pescador” quanto o ensaio da Filósofa alemã nos remetem as contradições e os problemas existências em alguém aceitar ser Papa, “líder máximo” do catolicismo romano no mundo.

O filme atual de Nani Moretti volta à temática, mas com um toque de originalidade marcante. A película de Moretti tem como enredo uma história ficcional em que após a morte do Papa de plantão, é eleito um outro Sumo pontífice num conclave difícil onde só na terceira votação saiu o nome que não estava cotado, logo uma surpresa incomum no poder católico e na mídia italiana.

Propositalmente, o diretor estampava em manchete os papáveis de plantão e nenhum deles foi o escolhido. O escolhido foi um cardeal de nome Melville, ilustre desconhecido entre os “famosos” para o cargo. Diriam alguns teólogos “os caminhos do Senhor são insondáveis”. O escolhido na hora de ser apresentado oficialmente na janela do Vaticano como o novo e esperado Papa pelos fieis católicos, tem um surto e deixa sair um grito e fragilidade nunca vista por um religioso do poder católico.

O Papa tem uma “crise de depressão” e não se sente em condições de assumir o cargo, já eleito e como o cargo é vitalício, não pode haver renúncia e nem pode ser apeado do mesmo cargo. Papa se é para sempre, quase igual a Deus! O cardeal Melville não se sente em condições de ser o Papa e de assumir todas as responsabilidades que o cargo exige. O porta-voz do Vaticano sugeriu um psicanalista para tratar da doença do prelado máximo do catolicismo.

Isto é absolutamente novo nos filmes e nos escritos sobre o catolicismo: um Papa com depressão sendo analisado por um psicanalista e assumidamente ateu (papel feito pelo próprio diretor do filme). Aqui começa o drama que estrutura todo o filme. O papa depressivo consegue sair das muralhas do Vaticano para algumas sessões de análise e numa delas foge dos seguranças e vai para a insegurança das ruas de Roma.

Desde o início do filme percebe-se no semblante do personagem a angústia e a fragilidade de um ser humano marcado pela sinceridade incomum a religiosos católicos de alta patente. Um detalhe importante: o ator nas vestes papais é Michel Piccoli. Veterano ator do cinema italiano, uma espécie de monumento cinematográfico.

O filme sgue entre dois movimentos. O primeiro é o cotidiano dos cardeais no Vaticano enquanto esperam a recuperação do Papa e o segundo, do papa travestido de anonimato nas ruas de Roma. Nesse segundo movimento, temos o que tem de melhor no filme: um Papa sem ser reconhecido enquanto tal caminhando nas ruas, conversando com pessoas, se hospedando em um hotel simples e o melhor de tudo, encontrando-se com uma trupe popular de teatro que ensaiava “A Gaivota” de Chekhov. O papa anônimo sabe de cor cenas inteiras e revela a sua frustração de não ter sido ator.

 Numa sessão de análise ele revela a sua profissão: ator. Como não podia revelar para a analista seu real oficio, indica um que em muito diz da sua condição e da condição de ser um poderoso religioso, o de representar.  No fundo o ritual de poder católico sempre foi uma “encenação” para o mundo. O Papa acerta quando se esconde daquilo que realmente é. Uma sacada genial do diretor.

 Merece destaque uma cena sublime do filme. É a que, na ausência do Papa do Vaticano e sem saber do seu paradeiro, o porta-voz coloca nos aposentos papais um guarda para fazer movimentos com as cortinas e passar a idéia de que o Papa está no seu sagrado repouso e reflexão para recobrar as forças e assumir o cargo de fato.

 A beleza da cena ganha ares de arte quando o guarda que se passa por Papa liga o aparelho de som de sua Santidade e coloca na agulha “Todo cambia” de Mercedes Sosa, cantada na voz da própria e de imediato o Papa anônimo está numa praça escutando a mesma música com um ar de reflexão e alívio.

 A cena nos deixa a seguinte leitura: foi preciso sair das muralhas do Vaticano e conversar com pessoas para o Papa perceber que “tudo muda” e ter na música de uma Latina a reposta musical para tal situação. Uma das mais bonitas cenas do cinema contemporâneo e ainda mais, pelo que sugere.

 O desfecho final da película é muito coerente com a estrutura do filme. Não há “final feliz” como esperariam religiosos dogmáticos e nem o diretor concede aos melodramas fáceis. Não contarei aqui deixando ao leitor ou leitora que confira por si o final.

 Duas situações me chamaram bastante a atenção. Primeiro, a “catarse” papal vivida ao ver encenada a peça de Chekhov, mostrando o potencial da arte dramática. O Papa cai em si durante a apresentação da peça e toma no silêncio da sua reflexão a decisão que conheceremos no final do filme. Segundo, a ironia do filme com o poder religioso. Fica claro como é frágil a situação daqueles que assumem poderes para além de suas forças e são obrigados a se portarem como se fossem fortalezas de pedra.

 Ledo engano, a nossa base é a fragilidade e feliz é quem assume tal pressuposto. Numa frase perfeita para tal situação, mais uma vez Hannah Arendt: “A relutância da Igreja em nomear para altos cargos esses raros indivíduos cuja única ambição consistia em imitar Jesus de Nazaré não é difícil de compreender”.

 Por aqui entendemos a vida e as opções de um João XXIII e de Melville personagem do filme: ser Papa muitas vezes é não poder ser Cristão no assumir as “sandálias do pescador” na missão de ser com os pobres, oprimidos e massacrados da história um irmão menor.

 

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

2 comentários sobre ““HABEMUS PAPAM” OU A QUEM SERVE UM PAPA

  1. Ler os comentários e opiniões de um professor de filosofia a respeito da igreja católica e seu líder é o mesmo que ler a opinião de um religioso católico sobre eutanásia e casamento gay, ou seja, não é difícil saber como vão se posicionar sobre os temas citados.

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