Habemus Papam: Notas miúdas sobre a eleição do Papa Francisco I

imagem_1403131363232514_g

 

Romero Venâncio avalia duas obras de membros da Igreja Católica Romana sobre aos possíveis rumos de uma das instituições mais poderosas do mundo, para afirmar: Francisco I está longe de ser o que os católicos precisam.

 

*por Romero Venâncio

É público e notório a crise porque passa a Igreja Católica Romana nos últimos 20 anos. Desde o encerramento nos anos do famoso “Concilio Vaticano II” onde o episcopado católico tentou colocar Igreja na rota do mundo moderno, que uma crise instalou-se na surdina e entre fiéis e clero e varou décadas até chega nos últimos anos numa intensidade sem precedentes no catolicismo romano.

Dois livros escritos em épocas diferentes indicam um sintoma dessa crise. O primeiro foi “Igreja: Carisma e Poder”, de Leonardo Boff nos anos 80. Nesse trabalho teológico de eclesiologia, temos um diagnóstico do poder na Igreja Católica e da maneira como é exercido pela cúria romana sem meias palavras.

Boff chama de “patologias do catolicismo romano” os graves problemas porque passa a Igreja ao longo dos anos e a sua peculiar maneira de ocultá-lo do povo ou de tentar resolver sempre pela forma autoritária. O próprio Boff foi vitima deste mesmo poder ao ser punido pelo então Cardeal Ratzinger, acusado de “posicionamento herético e ofensivo ao magistério da Igreja”.

A teologia da Libertação, na voz e nos escritos de seus teólogos e teólogas alertava para a crise e clamava por uma Igreja mais popular, mais evangélica e menos apegada ao poder e menos encastelada no poder da cúria romana. Nem precisa dizer que isso jamais foi escutado pelos que detém o poder real dentro catolicismo romano.

Mais recentemente, o teólogo Hans Kung lançou o livro “A Igreja tem salvação?” (2011) na Alemanha. Nesse “livro-diagnóstico” o padre alemão chama a atenção para a crise violenta que vive a Igreja e que os seus prelados parecem querer enganar-se ou enganar os fiéis.

A igreja (em particular, os que detêm o poder) não quer perceber o comportamento anacrônico em relação aos temas relevantes do mundo contemporâneo: condição da mulher, homossexualidade, novas formas de família, capitalismo predatório, crise do masculino, “fastio de espiritualidade”, celibato obrigatório sem sentido para os padres e freiras, etc.

Segundo o teólogo: “A Igreja católica está doente, talvez doente de morte. Retrógrada, fixada no elemento masculino, eurocentrada e arrogando-se detentora da única verdade”. Isso dito por padre e teólogo alemão! Nem precisaria dizer mais.

Hans Kung vai no ponto: a Igreja perdeu o passo do mundo moderno e sempre se torna reacionária em relação a esse mesmo mundo moderno, desatualiza o Evangelho como método. O resultado é o moralismo, o autoritarismo, o formalismo e as suas consequências: pedofilia alastrada entre o clero, repressão absurda dos sentimentos, uma concepção anacrônica de família, o machismo religioso abjeto e a centralização do poder cada vez mais na cúria romana.

A renúncia do Papa Bento XVI (acontecimento raro na história da Igreja) e a o propalado dossiê sobre a situação interna da Igreja foi o ponto mais alto dessa crise e da impossibilidade de fazer vista grossa do fenômeno.

Os cardeais foram rápidos diante da crise e da necessidade de escolher um novo Papa. A escolha recaiu sobre um cardeal argentino de nome Jorge Mario Bergoglio. Jesuíta de formação e pastor muito preocupado com questões familiares e canônicas, esse foi o homem que os membros do conclave escolheu para guiar a Igreja e enfrentar a crise agônica que marca o catolicismo romano atual.

Duas surpresas: um latino para Papa e o nome escolhido para o pastoreio, “Francisco” (referência direta ao santo mais amado do catolicismo. Difícil saber exatamente a razão da escolha do nome. Pode ser uma jogada de marketing? Necessidade de mudança? Indicação de vida frugal? Recado aos poderosos?

Sabemos que o novo Papa enfrenta sério questionamento da sua atuação como bispo na Argentina de não ter tomado posição enérgica contra a ditadura sanguinária que se abateu no seu País. Sequestro de crianças, tortura brutal, assassinatos e quase trinta mil militantes de esquerda. Onde estava o Cardeal Bergoglio? Quais os seus escritos de denúncia dessa situação de ditadura (como fez no Brasil os Bispos Helder Câmara e Paulo Evaristo Arns)? Visitou ele jovens presos nos porões das prisões argentinas durante a ditadura? Não sabemos exatamente. Sabemos de seu silêncio durante o regime ditatorial.

Impossível prever como será o papado de Francisco.  A crise continuará e exigirá coragem para enfrenta-la com politica pastoral efetiva. Podemos apenas pensar algumas coisas possíveis, tais como: um olhar mais misericordioso (em sentido franciscano) para os mais pobres, para as mulheres na Igreja e fora dela; uma compaixão e compreensão com a homossexualidade como uma “experiência sexual normal” na vida de qualquer ser humano; um enfretamento contundente à lógica do Capital e um saneamento necessário nas contas e gastos da cúria romana, com seu banco suspeito de lavagem de dinheiro.

Tarefa homérica terá o novo Papa. Que São Francisco, efetivamente, seja seu guia e que a “coragem rebelde franciscana” seja seu método. 13 de março de 2013 pode ser um marco ou pode ser mais um continuísmo anacrônico. A Sé não esta mais vacante, mas estará cheia do amor de Francisco de Assis e da sua coragem rebelde? A história é quem dirá.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe.

Um comentário sobre “Habemus Papam: Notas miúdas sobre a eleição do Papa Francisco I

  1. TextoAulasTeologia da Libertação e sua influência na Igreja
    Avançando para a reta final da análise da mentalidade revolucionária, é necessário estudar as raízes da teologia da libertação e sua influência na Igreja. Como a teologia da libertação se encaixa na mentalidade revolucionária?
    Dentro do pensamento marxista, mais especificamente do pensamento marxiano[1], a religião e a teologia fazem parte de uma superestrutura, de algo que não faz parte da infraestrutura que move a história, ou seja, a economia[2]. O pensamento revolucionário posterior a Marx, porém, começou a perceber a importância da cultura, da superestrutura[3]. Marx considerava a religião como ópio do povo. Na Rússia, o stalinismo/leninismo tentou abolir a religião, mas Gramsci e a escola de Frankfurt descobriram que a cultura é, de alguma forma, a religião exteriorizada. Todos parecem ter uma visão religiosa do mundo e a cultura seria a exteriorização desta visão de mundo.

    Feuerbach afirmava que toda a teologia é uma antropologia, pois dizia que tudo aquilo que se afirmava a respeito de Deus, que todas as afirmações religiosas podiam ser reduzidas a afirmações antropológicas. A religião parece, desta forma, ser uma projeção da humanidade na divindade. Feuerbach entende que a teologia é uma antropologia alienada. A Teologia da Libertação se esforça para seguir essa cartilha, pois é a imanentização[4] da religião cristã e de qualquer outra religião[5]. Tudo aquilo que se refere a Deus é relido em chave antropológica, mais especificamente em linguagem sociológica. Todo o conteúdo do sagrado e do transcendente é esvaziado na imanência humana.

    Assim, uma das características básicas da Teologia da libertação é a negação de uma esperança transcendente. Não se espera o reino de Deus na transcendência, mas sim na imanência deste mundo. Seu golpe, porém, se caracteriza pelo fato de se afirmar que a transcendência se encontra no futuro. Mas, o futuro também é imanente, pois pertence à realidade desse mundo.

    Essa afirmação do futuro como transcendente é própria do marxismo[6], ao se utilizar de um imanentismo fraco, afirmando que o sentido do hoje está no amanhã[7]. O marxista adia a crise de sentido diante de uma possibilidade de futuro. Mas, se o sentido do hoje é o amanhã, qual o sentido do amanhã? Qual o sentido da sociedade do futuro? Se a vida tem sentido, este sentido, necessária e logicamente, estará fora da vida. O único caminho para que a história tenha sentido é falar de uma meta-história, de algo transcendente.

    O Reino dos Céus, conteúdo da fé cristã, não é o reino do amanhã, mas é o reino do além, da eternidade, eternidade que irrompeu na história humana e se fez carne. O transcendente, o sentido de tudo, o logos se fez presente na história humana. Exatamente por isso tornou-se alcançável, tangível[8]. O esforço da teologia será o de mostrar que esta aparente contradição não trai a racionalidade, mas a aperfeiçoa. A verdadeira teologia é uma tentativa de reflexão que tenta conciliar os paradoxos e aparentes contradições da fé[9] com a racionalidade.

    Um “teólogo” da libertação não se move por esse mesmo caminho. Sua argumentação irá mudar quantas vezes forem necessárias até a realização do seu intento. Não existe nenhuma dificuldade em abandonar qualquer estereótipo. Tudo o que for necessário para favorecer a revolução será feito, pois qualquer argumento só tem validade enquanto convence. Se não convencer será descartado. É por isso que os teólogos tradicionais tem uma dificuldade imensa de compreender a forma de pensar de um teólogo da libertação, pois a lógica aristotélico-tomista, a todo o momento, percebe a falta de coerência lógica dos marxistas[10]. Na realidade, não seguem a lógica de Aristóteles, pois Gramsci já indicou o caminho: bom é aquilo que ajuda a revolução, mau é aquilo que atrapalha.

    Para se dialogar com um marxista é preciso inverter o caminho costumeiro da argumentação, já que ele parte do primado da práxis sobre a teoria, sabendo o que quer fazer e, num segundo momento, cria a teoria para justificar a sua práxis. E, nesse caminho, o grande adversário a ser combatido é o cristianismo, ópio do povo, pois aliena ‘o povo’ da luta pela implantação de uma sociedade justa e sem classes através da pregação do reino dos céus. Tudo o que faça com que o povo não lute, não serve e não deve existir.

    O povo deve ser engajado num processo de engenharia social e a religião deve ser metamorfoseada quantas vezes forem necessárias para ajudar nesse processo. O revolucionário não busca a verdade, pois não crê em sua existência. E uma vez que o marxismo viu que não conseguia destruir a Igreja a partir de fora (Revolução Russa, Gulags, Guerra Civil Espanhola) partiu para uma nova tática: infiltrar-se na Igreja, através da teologia da libertação, que se constituiu num projeto de engenharia social que, a partir da própria Igreja, buscou fazer com que a Igreja mudasse a sua própria natureza, constituindo-se numa força para ajudar a concretizar a revolução social. A tentativa: fazer com que o cristianismo deixe de ser visto como é, um acontecimento e passe a ser visto como uma realidade mental.

    Referências
    1.Marxiano = pensamento específico de Marx.
    2.Segundo Marx, a história se move a partir de interesses econômicos.
    3.Por isso, o marxismo cultural é por muitos teóricos considerado heterodoxo, exatamente por se desviar do ponto central do pensamento de Marx, valorizando mais a cultura do que a economia.
    4.Considerar como válido somente o que é da experiência, palpável, empírico em detrimento de toda a realidade que remeta ao transcendente.
    5.Hans Küng tem proclamado uma ética mundial, na qual faz uma conferência sobre cada uma das religiões, relidas de forma imanentista, pois elas servem enquanto força de inconsciente coletivo, dos arquétipos que pode ser manipulada para produzir a sociedade que se deseja, o combustível que pode ser utilizado num projeto de engenharia social. A finalidade da religião é assim, imanente.
    6.Um imanentista em sentido pleno é um existencialista, pois vê que a vida não tem sentido, pois este mundo daqui é tudo que existe. Portanto, não há sentido fora do mundo. Os existencialistas merecem o nome de filósofos, uma vez que levam o ateísmo até as últimas consequências, mostrando que, já que Deus não existe, só sobra o desespero para o ser humano.
    7.A Teologia da Libertação, desta forma é a aplicação eclesial do “dogma” marxista, pois apresenta o sentido da Igreja como a Igreja do amanhã, que é tecnicamente chamada de Reino de Deus.
    8.Este é o grande paradoxo do cristianismo. O esforço teológico é o de explicar que o que é aparentemente contraditório é algo profundamente lógico.
    9.Sendo assim, não existe, verdadeiramente uma teologia da libertação, mas sim uma ideologia, já que ideologia é uma série de ideias e de reflexões que servem para justificar interesses de classes, interesses de engenharia social. A teologia da libertação é, na verdade, uma ideologia a serviço de uma engenharia social.
    10.Acusar de homossexualismo quem usa batina e defendem o casamento homossexual. É conveniente chamar de homossexual quem usa batina e no momento seguinte defender a sacralidade da relação homossexual, para destruir a estrutura da sociedade patriarcal.
    Aula Título Duração Data
    1 Visão histórica 59:54 Janeiro 05, 2012
    2 O Fascismo e Marxismo Cultural 01:05:09 Janeiro 11, 2012
    3 Reação à crise marxista 01:01:21 Janeiro 19, 2012
    4 A infiltração do marxismo cultural no Brasil 58:51 Janeiro 25, 2012
    5 Teologia da Libertação e sua influência na Igreja 45:57 Fevereiro 01, 2012
    6 Como lutar o bom combate 01:03:53 Fevereiro 20, 2012

    É interessante que como católicos que somos já que segundo a ultima resposta aos meus comentários admitiu ser. Mesmo não acreditando levarei isso em conta. Possamos refletir se realmente devemos levar em conta de maneira contundente como está destacado no artigo, as analises dos teólogos da teologia da libertação à respeito da religião católica e seus membros.

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s