Das pequenas e grandes engrenagens do futebol

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Caso de desmaio de jogadores do América-SE assusta, mas é apenas a ponta do iceberg da grande crise estrutural do futebol brasileiro

*por Irlan Simões

Vem ganhando repercussão nacional mais um fato lamentável que envolve o futebol sergipano. Jogando no Batistão contra o Confiança, os jogadores do América Futebol Clube, de Propriá, alegaram ter ido ao jogo sem jantar. Na realidade, para tornar o caso ainda mais lamentável, precisaram pedir ajuda a profissionais de imprensa e colegas do clube adversário, quando receberam biscoitos e pastéis para a alimentação.

Durante a partida era possível ouvir o treinador Marcos Chaves preocupado com a integridade física dos seus jogadores, perguntando se tinham condições de continuar em campo. O desfecho do drama da equipe do clube da Ribeirinha foi ainda mais lamentável. Dois jogadores passaram mal nos vestiários. O atacante Murilo e o zagueiro Tiago Arapiraca não suportaram o desgaste físico e precisaram de atendimento “médico”, com a ajuda de membros da comissão técnica do Confiança.

Aqui peço licença para tomar emprestada a genialidade de Paulo Freire, e trazer sua pedagogia para esse debate: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Uma estrutura em cheque

O caso do América não é o primeiro e provavelmente não será o último. Sua falta de estrutura e consequente humilhação sofrida pelos jogadores é reflexo de uma realidade existente no futebol brasileiro há alguns anos, e que só tende a se agravar. Não basta repetir o mantra da má gestão e da irresponsabilidade dos mandantes do futebol local. Apesar disso ser um fato incontestável, assunto que já foi tema de outros balanços, é importantíssimo extender esse debate a uma leitura da estrutura do futebol nacional.

Um primeiro atalho para compreendê-lo: o futebol brasileiro está estruturado de forma desigual, favorecendo uma elite de clubes em detrimento da base da pirâmide. Estamos falando de valores tão díspares que não faria muito sentido levantar, mas faremos. Enquanto o Maracanã, estádio estadual do Rio de Janeiro, recebe 900 milhões de reais para uma reforma, o Batistão continua sob promessa, barganhando recursos.

Enquanto o Corinthians, de São Paulo, informa uma folha salarial que se aproxima de 8 milhões de reais, o Confiança projeta algo em torno de 200 mil. Enquanto o Flamengo, do Rio de Janeiro, recebe cerca de 114 milhões de reais anuais de verbas oriundas da venda de direitos televisivos, outro adversários da Serie A, como Náutico, por exemplo, receberá 30 milhões. Nesse quesito nem caberia estipular o que ganharia um sergipano ao disputar uma Série D.

Crises e oportunidades

Mas o problema não se limita ao dinheiro que entra e ao que sai. A disparidade dos valores remodela a estrutura do futebol local, exigindo um aporte financeiro – apenas para fins de subsistencia –  que a maioria das entidades e clubes não tem qualquer condições de arcar. O presidente do América, Joaquim Feitosa, justificou os problemas financeiros do clube apontando corte nos repasses da FSF. O que é um fato, apesar dos pesares: a entidade que gerencia o futebol sergipano está praticamente falida.

Esse é o lado da – pequena – política da coisa. Interessa, e muito, à poderosa e bilionária CBF uma série de pequenas federações em estado vegetativo e dependente de “atos filantrópicos”. É a sustentação eleitoral necessária, assunto que também já tratamos aqui. Mas outro problema a se avaliar é o preço caro desse brinquedo chamado futebol. Enquanto na ponta de cima os salários astronômicos e as grandes estrelam chegam com “ares de novos tempo”, gerando uma série de elocubrações sobre uma nova fase rica do futebol brasleiro, a parte de baixo da pirâmide vê uma inflação absurda nos custos.

Vale lembrar: o futebol brasileiro é uma crise com ciclos anuais. Quando se fala de uma modernização, ou da chegada de novos craques, entenda-se que a “bolha financeira” do futebol estourou, um resgate suspeito foi efetuado, e outra bolha está se formando.

Porque enquanto a grande empresa de TV anuncia um investimento de 1 bilhão em cotas televisivas, o Estado brasileiro entra com uma bela isenção fiscal e com um gordo recurso de verba publicitária. Mesma lógica que favorece os tais “patrocinadores oficiais” do futebol brasileiro, como a redução do IPI, que favorece a industria automobilística, e dos subsidios â produção industrial de carnes. É disso que estamos falando.

A grande miopia do alto escalão do futebol nacional atinge eles próprios. As grandes engrenagens precisam das menores engrenagens para que a máquina funcione. Porque, no frigir dos ovos, para manter o poder e o status, José Maria Marin, mesmo que não perceba, precisa de um Tiago Arapiraca passando fome jogando no América de Propriá no pequeno estado de Sergipe.

Proletários da bola

Em 2011 uma pesquisa apontava que 96% dos profissionais do futebol no Brasil – aqueles que fazem com que a bola não pare de rolar – recebem entre dois e três salários mínimos. Apenas 3% recebem mais do que 10 mil reais mensais. É preciso dar mais atenção à realidade da grande maioria dos atletas que não alcança o tão sonhado super-salário. Estamos falando de milhares de vítimas de um conto de fadas.

A desproteção dos atletas, com o que aconteceu com os jogadores do América, não se resume à falta de estrutura: não há aposentadoria digna, seguro de vida e nem acompanhamento psicologico aos atletas. Eles são lançados em um jogo de sorte ou azar, pulando de cidade em cidade em busca de um salário mais agradável. Verdadeiro retirantes da bola, que veem casamentos se deterioraem pela instabilidade constante do seu trabalho. Atletas que perdem a guarda do filho pelas exigências de uma vida que escolheu com esperanças de mudar de vida.

“O mundo da bola” acaba por oferecer a muitos desses jovens a única oportunidade de mudanças de perspectivas de vida: ganhar um salário maior do que um mínimo, ser respeitado em locais nos quais não seriam desejados em outras ocasiões ou ter contatos com gente do alto escalão social. Vislumbres que tem origem nas precárias situações da vida “normal” da grande maioria dos jovens brasileiros, residentes em periferias ou comunidades rurais completamente excluídas.

Mas como a máquina gera muito dinheiro, o vislumbre é estimulado. O mundo do futebol de hoje é uma verdadeira roda viva, de mudanças repentinas, de ápices e declínios, e do risco iminete de uma lesão que destrua uma carreira. Uma vida que se dedica a uma atividade totalmente kamikaze e sem script.

Basta ver o depoimento do homem mais influente da história do futebol brasileiro depois de João Havelange: o ex-jogador Ronaldo “Fenômeno”, que também é uma vítima física da roda viva do futebol, apesar da fortuna que acumulou, explicou suas pretensões empresariais após a aposentadoria.

Ao falar da possibilidade de agenciar a carreira de jovens jogadores, ele afirmou: “É um negócio maravilhoso. Você investe em 10, e se um der certo já dá lucro”.

Em outras palavras: para quem lucra com o futebol, nove a cada dez jogadores são descartáveis.

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