Rir da ordem no Sarau de Baixo

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foto: Cinthia Machado

“Não basta transgredir. É preciso saber a dimensão da ordem que foi quebrada. Na terça-feira eu vi a ordem ficar constrangida. Ela mal sabia o que fazer

por Irlan Simões

Aracaju se gaba de ser a primeira cidade projetada do Brasil. Simetria, ruas perfeitamente perpendiculares se cruzam formando um tabuleiro de xadrez. Uma cidade correta, adequada, preparada na régua para ser ordeira, pacífica e acomodada. Ser funcional, pragmática.

É uma cidade que vem crescendo. O símbolo do progresso foi um viaduto. Um viaduto. Pense aí, um mísero viaduto, foi propagandeado como a cara de cidade grande que Aracaju vinha ganhando na gestão daquela prefeitura.

Pudera. Segundo informam os números dos especialistas do clube que calcula-investe-aplica, Aracaju é a cidade com o maior número de carros per capita do país. Uma cidade grande, de carros, obviamente precisava de um viaduto que mostrasse todo o seu potencial. Ele foi apenas o primeiro de três que seriam construídos num raio de menos de 3 km.

Aquelas estruturas de cimento. Rígidas, preparadas para aguentar o tranco incessante de um trânsito que não para. Ao mesmo tempo capazes de suportar o calor, o barulho e a indiferença dos que passam por ali com seus vidros fechados para evitar uma cidade que mal se olha.

O viaduto é a cara de Aracaju: feita pra ser atropelada diariamente, abafada, fria e cinzenta. O progresso que passa pelas curvas, corta embaixo, faz o retorno, e toma seu caminho em linha reta pra chegar em algum lugar, sem dar um boa tarde, nem nada do tipo.

O viaduto do D.I.A tem como vizinho um outro prédio bem carente de sentido na vida. Alto, imponente, o Teatro Tobias Barreto, o maior da capital assiste aquele movimento frenético nas costas do amigo ali da frente. Um prédio que nasceu pra ser o templo da cultura sergipana, fica carente de algo que lhe preencha. A cultura não nasce do cimento…

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foto: Fernando Correia

Na terça, 17, aquele espaço estava diferente. O viaduto e o teatro devem ter se entreolhado. Que tipo de ousadia colocaria mais de cem pessoas reunidas com o único intuito de fazer arte? Logo aqui em Aracaju, a cidade grande mais bem planejada do país que esmaga sua própria história?

Aquilo é lugar pra carro, seus moleques e molecas. Ouçam esse som estridente, irritante, insuportável, sintam o odor da fumaça de combustível. Os faróis que passam em velocidade em ritmo frenético debaixo da sombra desse cimento que impedia, inclusive, aquela lua de aparecer.

Quem deu permissão de juntar a Zona Sul, Norte, Oeste, Leste, de Expansão e todas as zonas de exceção exatamente sob o símbolo do nosso progresso? Quem assinou, carimbou e protocolou o ofício da ousadia de fazer o que bem entendem?

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foto: Fernando Correia

Exatamente por isso, e exatamente ali que o Sarau de Baixo deve estar. Constranger o cimento, o barulho, o odor. Constranger a ordem, a simetria, a precisão das retas e a adequação dos ângulos tão bem traçados.

Em Aracaju, pelo menos naqueles poucas horas, as retas se curvaram, os concretos se coloriram, e os carros se emudeceram. Estava sendo reinventada uma cidade que se esqueceu de nós. O poeta, o rimador, o cordelista, o grafiteiro, o cantador e até o espectador tímido, estiveram no comando das coisas e das ações.  Eram a cidade e a poesia retomadas.

Enquanto resistir, será lá que o todo chão será palco, todo muro será mural, toda cidade poesia. Vida longa ao Sarau de Baixo.

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