A lucidez e sua face sombria: um filme de Alexander Kluge

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Percebe-se no subtitulo do filme, que a pretensão do diretor alemão não se mostra modesta. A tríade proposta (Eisenstein/Marx/O Capital)  responde pela iniciativa de retomar Eisenstein pelas vias formais do Ulisses de James Joice.

*por Romero Venâncio

O lançamento do filme do alemão Alexander Kluge é uma noticia interessante e inteligente, desde que aqueles que vão ver sua película tenham alguma ideia do que o aguarda. A Versatil acaba de lançar no Brasil o seu mais recente filme: Noticias da antiguidade ideológica: Marx, Eisenstein, O Capital.

Originalmente lançado  em 2008 na Alemanha em plena crise do capitalismo e de seus bancos fraudulentos, o filme já nascia dentro de uma atualidade sem concorrência no tipo de cinema feito na Europa e no resto do mundo. Em 2011 é lançado no Brasil num momento que estamos vivendo mais um desdobramento de mais uma crise do Capital. Nada mais atual, portanto.

O filme esta dividido em três partes num total de quase nove horas de duração juntamente com uma série de extras que acompanha a caixa e um libreto com pequenos artigos e uma apresentação da estrutura do filme escrita pelo próprio diretor, que por sinal, é filósofo e bacharel em direito na Alemanha. Já nasce num formato clássico e como registro histórico de uma época sombria, mesmo com toda a pseudo-alegria religiosa dos “contentes do Capital”. A divisão é a seguinte: I. Marx e Eisenstein na mesma sala; II. Todas as coisas são homens enfeitiçados; III. Paradoxos da sociedade de troca.

Segundo alguns comentários ao filme, Kluge teria retomado o antigo projeto de Eisenstein de fazer uma adaptação cinematográfica de O Capital de Marx, mas na verdade apenas a primeira parte indica isto. Uma coisa é certa, Kluge afirma no texto do libreto que acompanha o DVD: “Os instrumentos analíticos de Marx não estão ultrapassados” (p.14).

Num momento em que vemos o rebaixamento dos títulos americanos pela primeira vez na história americana desde o pós-guerra; a crise de moradia e emprego na maior parte do mundo; a situação caótica da economia de países como a Grécia, Irlanda e Portugal; a Itália se precipitando na crise com um pacote de corte de gastos públicos cruel para os mais pobres; os sinais claros de recessão mundial e as ruas que começam a se movimentar em pequenas rebeldias, mas significativas para aqueles que não querem ser os únicos a pagar a conta da farra burguesa… estes exemplos já seriam motivos de sobra para dar razão à afirmação de Kluge e de seu mais recente filme no Brasil.

Encontramos nos extras da obra uma preciosa entrevista que Jean-Luc Godard concede a Kluge no curta-metragem Amor cego (2001) onde este faz uma referencia importante para entender o formato do filme do próprio Kluge. Godard falando de alguns de seus filmes, cita o “estilo cíclico dos contos de Borges”. Decerto o escritor argentino apreciaria a noção cíclica de Godard, seguida por Kluge. A dimensão cíclica é uma maneira de entender a lógica do Capital e de suas crises que voltam como um “eterno retorno do mesmo ” (para lembrar mais um alemão).

Percebe-se no subtitulo do filme, que a pretensão do diretor alemão não se mostra modesta. A tríade proposta (Eisenstein/Marx/O Capital)  responde pela iniciativa de retomar Eisenstein pelas vias formais do Ulisses de James Joice. Se este adotou o contexto épico de Homero para contar, num fluxo de consciência, um único dia na vida medíocre e reificada do personagem Leopoldo Bloom, Eisenstein faria o mesmo renovando o protagonista por um casal de operários metido no turbilhão da era industrial e aparentemente perdidos nesta engrenagem. Com mais evidência na mulher do que na figura masculina (sentido dado por Fredric Jameson dos papeis de Eisenstein).

O mesmo processo segue Kluge conscientemente só que conferindo-lhes ares atuais. Aqui está a originalidade criativa e sensível do cineasta alemão. As três partes do filme refletem sobre a história. Só que uma concepção de história na linha de Walter Benjamin (mais um alemão no caminho do cineasta) e só é possível como algo a ser radicalmente escavado e a partir dos de baixo e dos perdedores dessa longa marcha.

Muito semelhante a uma personagem de um filme do próprio Kluge, Gabi Teichert, em O Patriota (não confundir com o titulo do lixo meloso de Mel Gibson), onde esta personagem tira a pá da bolsa  e começa a escavar freneticamente em busca de pistas sobre o passado em ossos e pedaços de vasos antigos. No filme em questão, seu principio, quando da realização em 2008, partiu da impactante crise já apontada anteriormente e vivida dentro do sistema de especulação de créditos bancários.

Esse momento, para ele, seria tão emblemático quanto o operado por situações como a revolução industrial e a quebra da bolsa nova-iorquina de 1929. Ao alinhavar esses dois períodos, Kluge espelha o próprio interesse pela obra capital da filosofia econômica no sonho não realizado pelo russo de filmá-la.

A maneira como Kluge faz tudo isso tende a um resultado estimulante do ponto de vista cinematográfico e político. Reúne depoimentos de intelectuais, poetas, ensaístas, professores, filósofos sobre questões várias do capitalismo contemporâneo e de significativos momentos do século XX. O filme alimenta-se ainda de cartelas com pensamentos e poemas que surgem traduzidas e coloridas na tela, material extraído da obra da poeta e anarquista da Comuna de Paris Louise Michel.

Os recursos para Kluge dar conta da demanda exigida pela união de Eisenstein e Marx multiplicam-se com trechos de óperas, a exemplo da montagem de Tristão e Isolda, de Wagner. Uma cena é marcante no filme: a de como podemos ver o que é uma mercadoria e de como ela se apropria de vários conceitos, seja de cunho abstrato, seja filosófico. adquirindo um valor nada banal, como sugere Marx.

Por fim, é notório que a dissecação operada no filme de Kluge nunca deixa de promover a fonte maior de seu filme – a saber, O Capital – por também ter sido obra de grande desafio para Eisenstein e porque não dizer, desafio para qualquer intelectual sério e distante desses bobocas que se intitulam de pós-modernos.

Um filme absolutamente obrigatório para aqueles que querem entender o mundo atual mergulhado numa violenta crise do Capital que atinge a mais recôndita subjetividade e a mais degradante e epidérmica condição humana.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e escreve sobre cinema para REVER

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