Catraca Livre: Música alta pra combater a violência de Estado

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foto: Victor Balde/SNAPIC

Festival organizado pelo Movimento Não Pago reúne cena contra-cultural aracajuana e retoma luta pela Tarifa Zero

*por Irlan Simões

As ruas de Aracaju estão mudando. Ao menos é o que aparenta com a sequência de manifestações culturais que se cruzam em movimentos contestatórios e transpiram desejos de mudança. Nesta noite de quinta-feira, 24, foi a vez de romper o silêncio do comodismo com música agressiva e a rebeldia da juventude.

Era o I Festival Catraca Livre, iniciativa protagonizada pelo Movimento Não Pago. O show, que contou com 5 atrações, fez parte da programação do “Outubro Negro: Rumo à Tarifa Zero”, campanha que se iniciou no dia 20 de Outubro e se encerraria na sexta-feira, 26, com mais um Catracaço no Terminal do Centro.

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foto: Victor Balde/SNAPIC

Quem deu abertura aos trabalhos foi o “punk-rock-sujo-hard-core” da Kranio Farto. A agressividade dos riffs e da batida deram as boas vindas aos presentes. “Eles querem enganar / …a quem? /Democracia disfarçada de fascismo / Propagada sem nenhuma liberdade” marcou a apresentação que começou pouco depois das 19h, enquanto o movimento no Viaduto do DIA ainda era intenso.

Na sequência, mais punk rock. A Ideal deu continuidade ao barulho e à agressividade entoando “Já é dia e você aí / Sem ter nenhuma ideia de pra onde ir /E finge que entrar nessa luta não é pra você”.

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foto: Victor Balde/SNAPIC

Mensagens de contestação e convite à luta e à resistência foram complementadas pela interlocução de um integrante do Movimento Não Pago. Ele lembrou do caso ocorrido quatro dias antes, quando durante a “Oficina de Batuque, Stencil e Cartazes”, um coordenador do Não Pago foi detido por policiais da Guarda Municipal sobre a alegação do crime de pixação.

Em nota pública o Mov. Não Pago informou que o coordenador foi encaminhado à delegacia plantonista e enquadrado no crime de apologia à violência por conta de um stencil com os dizeres “Pule a Catraca”.

Sua liberação só se deu após o pagamento de uma fiança no valor de R$678, exigência que – pelo que informaram posteriormente outros integrantes – esgotou os recursos do Movimento proveniente da venda de camisas e doações de apoiadores.

Na mesma nota o Movimento Não Pago destacou que o caso não é inédito, relembrando da agressão aos seus integrantes por Guardas Municipais com spray de pimenta na porta da Câmara de Vereadores, e da agressão de membros do movimento pela Policia Militar durante o desfile oficial de 7 de Setembro.

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foto: Victor Balde/SNAPIC

A Rótulo se encarregou de retomar o barulho a passagem e demarcar com o lema “Sem ingresso / Sem Portão / Sem Classificação” a autenticidade da iniciativa. A banda, que regressava de um hiato, agitou o moshpit com seu hard core agressivo e engajado.

“Vamos nos organizar / Vamos lutar por vocês! / Por vocês, por seus filhos / Vamos lutar por vocês!”. Mensagem que estava na ponta da língua dos presentes, reafirmando a influência da banda que já tem 10 anos de estrada. A “pista de dança” fervia.

Uma catraca que se posicionava na frente da área das bandas recebia chutes e outros golpes marciais sob os gritos de “Violência é a tarifa” e “Passe Livre Já”.

foto: Victor Balde / SNAPIC
foto: Victor Balde / SNAPIC

O som mudou, mas a mensagem não. Saiu de cena o underground das guitarras distorcidas, dos gritos rasgados e da batida frenética para que outros setores contra-culturais se fizessem presentes.

Uma pulsante roda de rima com a presença de membros do hip hop de diversos pontos de Aracaju agitou o público, se misturando com o improviso e a poesia e abrindo alas para a Kilodinhame.

Sob o olhar de surpresa do público, a jovem banda lançou mão do seu longo repertório de sons regionais, com claras menções ao manguebeat, passando pela lama sergipana sem deixar de lado o sertão, numa pluralidade de ritmos impossíveis de se evitar numa dança.

Para fechar com chave de ouro uma noite histórica na música e nas ruas sergipanas, o reggae “pé na porta” da Reação. Fazendo questão de erguer uma bandeira do Movimento Não Pago, J. Moziah pediu licença para lançar o clássico repertório da banda, seguindo com covers diversos como se estivesse se divertindo naquele ambiente que misturou e convergiu os espíritos rebeldes aracajuanos.

Espíritos rebeldes em processos de construção coletiva se transformam em mentes revolucionárias. O Movimento Não Pago se renova, retoma as ruas e recoloca a luta pelo transporte público e do direito à cidade na ordem do dia.

*Irlan Simões é jornalista e membro da direção da REVER.

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