A “geofotografia” de Fernando Correia

"Fim de tarde no mundo globalizado", de Fernando Correia
“Fim de tarde no mundo globalizado”, de Fernando Correia

Geógrafo de formação, o sergipano Fernando Correia lança site com sua produção fotográfica e explica sua concepção de arte, trabalho e mundo, em entrevista à REVER Ateliê.

*por Irlan Simões

“Entendo o espaço como resultado de diversos elementos históricos e sociais, e retratá-lo de forma a elucidar suass contradições sempre foi para mim um grande objetivo”.

Na semana de lançamento de seu novo site, Fernando Correia concedeu uma entrevista à Revista REVER para explicar o conceito que está por trás do seu trabalho. Formado em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe, o fotógrafo já vem colecionando registros em variados contextos, se tornando uma figura carimbada de manifestações e atos públicos há pelo menos cinco anos.

Engajando-se em novas perspectivas de atuação, explicou qual o seu projeto futuro, como lida com duas ciências aparentemente tão distintas, e como enxerga o papel do fotógrafo num período histórico que em apenas um ano registrou mais imagens do que toda a humanidade já fez historicamente.

Confira abaixo a entrevista exclusiva do fotógrafo Fernando Correia (www.fernandocorreiafotografia.com) para a Revista REVER.

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REVER: Você tem formacao em Geografia, mas o que te fez adotar a fotogfia enquanto hobby?
Fernando Correia: À primeira vista Geografia parece não ter muita relação com Fotografia, mas com um olhar minucioso a relação pode ser feita. Ambos se realizam no espaço, inclusive Geografia é a ciência mais preocupada com a questão espacial. Tomei a fotografia como hobby quando percebi que o mesmo espaço pode ter diferentes perspectivas: mesmo que estejamos olhando para o mesmo objeto, existem inúmeras possibilidades de retratá-lo. Entendo o espaço como resultado de diversos elementos históricos e sociais, e retratá-lo de forma a elucidar seus contradições sempre foi para mim um grande objetivo, por isso sempre estive intimamente ligado ao fotojornalismo. Quando passei a tratar a fotografia não só como hobby mas também como profissão, abri alguns horizontes. Sem me distanciar das questões políticas. mas entendendo também outras formas de registros.

REVER: Você tem um estilo de fotografia preferido ou tanto faz, como tanto fez?
Fernando Correia: Minhas raízes estão fincadas no fotojornalismo, penso que é através dele que posso transmitir mais informações ao “espectador”. É a minha forma de expressar as injustiças que vejo e sinto, e que esse sentimento de injustiça – compartilhado também por outros – gera ações nas ruas. Quando vemos uma cobertura fotojornalística geralmente elas partem da perspectiva de quem tá fora do movimento, eu estou de dentro, é outra visão. Em 2013 parti para outros rumos, e eles têm me deixado muito feliz. Fiz ensaios, casamento, aniversários, books de 15 anos, formaturas, coisas que nunca imaginaria fazendo. O resultado é que abri muitas perspectivas, estou feliz com esse novo caminho que estou tomando, sem perder de vista as raízes mas querendo estendê-las para outro tipo de mercado. Na mostra de trabalhos que acompanha esta entrevista, selecionei fotos totalmente diferentes entre si, isso revela muito do que sinto hoje: fotografando A ou Z, existe sempre uma linha que dá um tom de unicidade ao trabalho. Não é uma linha reta, mas é uma linha sem fim.


REVER: Você tem influências marcantes no seu trabalho?

Fernando Correia: Claro. O conhecimento e a técnica é historicamente construído, ninguém parte do zero quando vai fotografar, por trás sempre há um mar de informações que o levaram a chegar em determinado registro. Sempre fui muito curioso e tive influências a partir de diversos campos, inclusive acredito que para formular um estilo não basta entender a técnica fotográfica, pois ela sozinha é vazia de sentido. Poderia citar nomes de diversos fotógrafos (Cartier-Bresson, Martin Parr, Sebastião Salgado, Walker Evans), mas sinto que – paradoxalmente – quanto mais trabalhos conheço, menos criativo fico. Quando faço ensaios prefiro partir de uma ideia conjunta entre o fotógrafo e o fotografado para a partir daí chegarmos a um ponto comum, as referências sempre estão na minha cabeça, mas quando pego a câmera não há ninguém que me influencie mais do que os meus próprios dedos.


REVER: Em tempos de internet, redes sociais e smartphones cada vez mais potentes, onde fica a fotografia “de qualidade”?

Fernando Correia: O século XXI inaugura uma era das informações. A informação está mais rápida do que nunca e isso gera reflexos no mundo do trabalho, principalmente na ideia do que é “ser fotógrafo”. Hoje todos tem acesso a equipamentos de fotografia, porém isso está longe de significar que também temos fotógrafos de melhor qualidade. O fotógrafo não pode virar às costas para as modernizações, não pode cobrir um evento desconsiderando que outros tantos também querem ter seu “minuto da fama” e captar aquele registro na sua frente, ainda que seja você o contratado para desempenhar aquela função. É preciso usar isso em nosso favor, uma artimanha que também leve a fotografia para o atual século e não a deixe mumificada com padrões antigos, onde você era o fotógrafo era o único a fotografar. A fotografia de qualidade se faz com um celular ou com um equipamento milionário, isso ninguém pode modernizar: o segundo único do registro, a eternização do momento. Por isso, seja em equipamentos novos ou antigos, a fotografia de qualidade está ainda no mesmo lugar e de onde nunca deverá sair: no olhar único.


REVER: Qual o equipamento que você usa?

Fernando Correia: Sempre tive um equipamento muito simples. Até a semana passada usava uma Canon T2i (“câmera de entrada”, como é chamada) e tinha 3 lentes: uma olho-de-peixe 8mm de marca genérica, uma Tamron 17-50 2.8 para garantir uma grande angular e certo zoom e uma 50mm 1.8, a boa e velha cinquentinha que acha luz até onde não tem. Existe aquela velha discussão cartesiana que discute o que é mais importante: o fotógrafo ou o equipamento. Tento fugir dessa discussão, acho que existe uma relação dialética entre um e outro, mas o certo é que entre as minhas melhores fotos, algumas foram tiradas com o celular. Por outro lado, meu equipamento é limitado e este mês estou indo para outro patamar, o de câmeras full frame. É como se eu tivesse passado a vida inteira utilizando um olho e agora tivesse aberto o outro: um novo horizonte se abre.

*Irlan Simões é jornalista e membro da direção da REVER

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Essa publicação é parte do projeto REVER Ateliê, uma iniciativa da Revista REVER para a divulgação de trabalhos artísticos sergipanos. Caso queira indicar um bom material, envie um e-mail para bossrever@gmail.com, para que a nossa equipe possa avaliá-lo.

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