Kate Smurthwaite, o aborto e os desafios das feministas na Irlanda

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“O aborto ainda é o único procedimento médico que exige a assinatura de dois médicos. Você pode ter até um transplante de cérebro sem um. Alguns dos políticos anti-escolha deveriam considerar essa possibilidade”

*por Kate Smuthwaite, em seu blog na Red Pepper
**Tradução: Daniel Martins

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Nota da REVER

A explicação para o entender o rápido crescimento – qualitativo e quantitativo – do movimento feminista brasileiro tem diversas origens. Assunto que parece já estar consolidado como um dos principais espaços de disputa para os próximos anos. O tema da interrupção da gravidez, ou do “direito à escolha”, em especial, foi lançado repetidamente em eleições mais recentes na tentativa de destruir publicamente um ou outro candidato.

Felizmente, e ao mesmo tempo surpreendentemente, o efeito foi muito menor do que o esperado pelos sempre presentes “profissionais da pequena política”, a ala mais sem escrúpulos do marketing político brasileiro. Ainda que setores mais conservadores e anti-escolha tivessem se beneficiado do tema, por outro lado, a forma como esse assunto foi lançado no jogo eleitoral apenas deu maior fôlego aos movimentos feministas.

O texto que segue abaixo, da comediante e feminista Kate Smurtwite, trata de discutir esse tema – com uma boa dose de números e situações esclarecedoras – na Grã Bretanha. Em especial na Irlanda, considerado o país com leis mais restritivas de toda a Europa, permitindo a interrupção apenas em casos que oferecesse risco de vida à gestante, ainda que já houvesse descriminalizado a prática.

Foi exatamente lá que no ano passado a dentista Savita Halappanavar morreu de infecção generalizada após ter a interrupção de sua gravidez negada pelos médicos responsáveis. As justificativas eram de que nada poderia ser feito enquanto o coração do bebê estivesse batendo, e que a Irlanda “é um país católico”.

(I.S)
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ABORTO: GUERRA ANTIGA, NOVAS BATALHAS
(clique aqui para acessar o link original)

*Kate Smuthwaite

O direito de escolha da mulher sobre o aborto é um direito fundamental, ainda que muitas pessoas encarem a batalha pelo aborto legalizado na Grã-Bretanha como um sinônimo de viagem à Lua – algo que nós já fizemos nos anos 60 e não queremos revisitar.

A realidade é que a nossa lei de aborto, pouco alterada desde os tempos da minissaia e da Beatlemania, nunca foi realmente adequada ao seu propósito. Os abortos mais comuns ainda são essencialmente ilegais na Irlanda do Norte e, atualmente, uma média de quarenta mulheres por semana viaja para outras partes do Reino Unido para interromper suas gestações.

A guerra dos preços nos voos a partir de Belfast tornou a vida dessas mulheres mais fácil, mas em Londres ou Liverpool, unidades do Serviço ‘Nacional’ de Saúde cobram entre 600 e 2.000 euros por abortos que seriam gratuitos para outras mulheres britânicas. A mudança na lei precisaria vir de Stortmont [o Parlamento Irlandês], mas o custo para as mulheres da Irlanda do Norte na Grã-Bretanha é definido por uma lei regulamentar. O Departamento de Saúde simplesmente se recusa a pagar. Quando mulheres em gravidez de risco são mais gratas a Michael O’Leary [dono da Ryanair, maior empresa de aviação civil da Irlanda] do que a Jeremy Hunt [Secretário de Estado da Saúde], é hora de termos uma nova Secretaria de Saúde.

Um aborto até doze semanas de gestação é geralmente obtido com dois conjuntos de comprimidos tomados com 48 horas de diferença. As regulamentações atuais, que não são leis, definem que o segundo conjunto de comprimidos deve ser administrado em uma visita separada à clínica, ao invés de simplesmente distribuído com o primeiro conjunto e instruções de uso. Entre duas a quatro após tomar a segunda dose de comprimidos, um aborto natural ocorre e, graças a esse genial detalhe da regulamentação, ao invés de abortar em casa, onde se sentem seguras e confortáveis, as mulheres costumam abortar em banheiros de clínicas, ônibus ou no acostamento de rodovias.

O aborto ainda é o único procedimento médico que exige a assinatura de dois médicos. Você pode ter até um transplante de cérebro sem um. Alguns dos políticos anti-escolha deveriam considerar essa possibilidade.

No entanto, em vez de trabalhar para resolver esses problemas óbvios, os políticos são distraídos por uma nova linhagem de evangélicos, em todos os sentidos, militantes anti-escolha armados com táticas copiadas das suas contrapartes norte-americanas.

A parte fundamentalista do movimento anti-escolha agora permanece na entrada das clínicas BPAS e Marie Stopes, rezando descaradamente ou segurando fotografias de abortos, que, como todo procedimento médico, parecem grosseiros. Aqueles que defendem o direito de escolha das mulheres raramente vão para a entrada de maternidades munidos de fotos de placentas.

A ala ‘moderada’ do movimento anti-escolha prefere desviar a questão de modos mais sutis, exagerando e lamentando a noção de abortos baseados no gênero ou em deficiências dos fetos. Isso confunde a discussão porque muda o foco para os fetos. A mulher em si é evaporada.

Apesar de toda a humanidade e todos os diretos que concedemos aos fetos, o direito de usar o corpo de outra pessoa pra sustentar a própria vida não está em nenhuma declaração internacional. Se estivesse, doações de órgãos seriam compulsórias e filmes de vampiros pareceriam muito idiotas enquanto as sempre presentes virgens se entregariam e sussurrariam ‘bem, suponho que esteja com sede…’.

Militantes pró-escolha podem se tornar cúmplices desse desvio de foco quando eles invocam estupro e casos de incesto para realçar a importância do direito ao aborto. Sim, esses casos têm uma relevância particular, mas a mesma lógica é usada para sugerir que o tratamento de HIV seja disponibilizado primeiro para aqueles que contraíram a doença por transfusão de sangue em vez de sexo. Consentir ao sexo não deveria diminuir os direitos básicos humanos.

O que quer que os extremistas religiosos nos digam, em nossa sociedade, não é ilegal para homens e mulheres, gays ou heteros, fazer sexo consensual por diversão. O que é errado é punir as mulheres que participam dele, forçando-as a carregar e criar uma criança indesejada, sem contar que o fardo do sofrimento inevitavelmente recai sobre a criança.

A batalha pelo direito de escolha das mulheres está longe de ser vencida no Reino Unido. Devemos continuar a combater: de leis discriminatórias e regulamentações rudimentares a assédio sexual e à noção doentia, ainda que aceita em muitas discussões públicas, de que gravidez e maternidade podem funcionar como uma punição para mulheres sexualmente ativas.

* Kate Smurtwite é comediante e ativista política [www.katesmurthwaite.co.uk]

**Daniel Martins é jornalista e colaborará com a REVER traduzindo textos de mídias estrangeiras 

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