Para além do pedal: a urgência de uma ciclocultura

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Em vias urbanas cada vez mais repletas de carros com viajantes solitários, transporte coletivo precário e relações de agressividade, a bicicleta pode ser mais do que um simples veículo: ela representa um instrumento de transformação

*Priscila Viana

Dr. Walter nunca consegue chegar a tempo aos seus compromissos. A todo o momento ele é castrado por uma imensa fila de carros à frente, pelo semáforo sempre fechado, a gasolina que acaba no caminho e os apocalípticos acidentes de trânsito no meio do percurso.

 No filme Amanhã Nunca Mais, de Tadeu Jungle, o anestesista interpretado por Lázaro Ramos passa a maior parte do seu tempo dentro do carro, nervoso diante de um tráfego sempre interrompido e embalado por roncos de moto, buzinas e gritos histéricos de vários lados.

A fictícia rotina do Dr. Walter reflete a situação de milhões de brasileiros que passam boa parte de seus dias impotentes dentro do carro, enquanto travam relações de competição e agressividade na disputa pelo espaço do asfalto. Ficamos nervosos com “o carro que não anda”, “a moto que passou cortando”, “o semáforo que está sempre fechado” ou “a bicicleta que passou na frente”.

 Mas não paramos para pensar que “a moto que ziguezagueia”, “o caminhão que tranca”, “o ônibus que atropela” ou “a bicicleta que está na contramão”, na verdade são abstrações que usamos para nos isentar de nossas responsabilidades nas relações de trânsito.

 Estes são os veículos que ocupam espaço no cenário urbano, mas somos nós que os conduzimos; somos nós que nos relacionamos com outros semelhantes, desde o momento em que saímos de casa até a chegada a qualquer lugar, seja de carro, a pé, de bicicleta ou usando o transporte público coletivo.

 Se somos nós que atuamos por trás das máquinas e da sinalização, será que é o trânsito que é realmente violento e perigoso? Ora, quando se fala em humanizar o trânsito, penso como pode ser possível humanizar ruas, veículos, semáforos e pontos de ônibus. Quando falamos que “o trânsito tem que ser humanizado”, será que não estamos tentando transferir de alguma forma o nosso papel de sujeito e agente no trânsito, seja como motorista, motociclista, pedestre ou ciclista?

 É inegável que a melhoria do tráfego urbano prescinde de mudanças estruturais, reorientação para fluidez do trânsito a depender da demanda pontual, melhoria da frota de transporte coletivo, construção e melhoria da malha cicloviária, entre vários outros. No entanto, por mais inovadora e eficaz que seja, qualquer ação direcionada soluções de trânsito se torna ineficaz se não houver modificações nas relações que travamos com os outros agentes – que nada mais são do que reflexo da maneira como nos relacionamos em outras esferas – família, escola, trabalho, bairro etc.

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 No livro Fé em Deus e Pé na Tábua, o antropólogo Roberto da Matta, ao abordar o trânsito como um reflexo das diferenças culturais, procura mostrar a nossa incapacidade de pensar na igualdade da busca por espaços na via urbana e os valores de uma sociedade atrelada a um passado aristocrático e repleto de hierarquias.

 Quem dirige um caminhão ou um ônibus se sente superior a quem dirige um carro, que por sua vez se sente superior a quem guia uma moto. E nessa escala de valores construída com base no porte e no valor material dos veículos, os ciclistas e pedestres são os mais prejudicados e visivelmente esmagados.

 Como geralmente ocorre em situações de invisibilidade, são os sujeitos oprimidos que buscam o protagonismo das transformações. Em uma sociedade onde o carro atua como símbolo de status social e poder de uns sobre os outros, até que ponto nossos laços sociais estão sendo afetados pela ‘sociedade do automóvel’?

 Esse é um dos questionamentos levantados a partir de representações semelhantes no cinema e na literatura – através do documentário Sociedade do Automóvel, dirigido por Branca Nunes e Thiago Benicchio, e do livro Apocalipse motorizado – a tirania do automóvel em um planeta poluído, uma coletânea de textos organizada por Ned Ludd[i] e traduzida para o Brasil por Leo Vinicius, que propõe também reflexões sobre a expropriação do espaço público comum e a exclusão social proporcionadas pelas obras que têm como objetivo principal “abrir ruas para os carros” e as consequências da imposição do automóvel como ‘item fundamental à vida moderna’, que vão desde a poluição extrema até os níveis de estresse diagnosticados em quem vivencia diariamente a loucura do trânsito urbano.

 A partir de reflexões como estas, por que não pensar em novas possibilidades, não só de locomoção, mas de vida em sociedade? Se compreendermos a bicicleta para além da sua função de transporte – para uns ecológica, para outros saudável – ela pode ser o instrumento ideal para questionar o paradigma imposto do automóvel como necessidade.

 Além de racionar a utilização do espaço urbano e ser conduzida a uma velocidade compatível com a segurança dos agentes que interagem no trânsito, ela permite uma integração maior entre a população e a cidade, algo praticamente impensável quando se trata de carros.

*Priscila Viana é jornalista, estudante de Antropologia e cicloculturista.

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[i] Há controvérsias a respeito da existência de Ned Ludd, que na verdade seria uma figura mítica na Inglaterra do século XIX. Ned Ludd provavelmente foi uma criação do inconsciente coletivo, uma inspiração para muitos indivíduos que realizaram pequenas rebeliões contra a mecanização da produção fabril.

Fotos:

1 – Documentário “Sociedade do Automóvel” (2005), dirigido por Branca Nunes e Thiago Benicchio, retrata a nossa dependência do automóvel.

2 – Vaga viva: o uso da bicicleta permite uma integração maior entre a população e a cidade. Foto: Ciclo Urbano (Aracaju, Sergipe)

2 comentários sobre “Para além do pedal: a urgência de uma ciclocultura

  1. vamos la mais ciclovias e cultura e alegria e viver com saude e evitar mais veneno no ar e colaborar com deuis evitando que o planeta se exploda de vez . enquanto minhas pernas aguentarem meu carro luxuoso e minha bike.

  2. ola meu sonho e ver ciclovias por todos os lados inclusive na cidade de itaquaquecetuba cidade proxima a via dutra. pego a estrada km 66 antiga estrada velha rio sao paulo. tenho 54 anos e a 2anos venho usando a bike como meio de transporte para trabalhar . estou adorando e incentivando outros amigos a fazerem o mesmo adequeri mais saude animo e alegria.levo meu bom humor para a estrada fazendo a politica de paz no transito percebendo o estresse do motorista todo triste no volante pela forma que ele acelera o carro assim eu evito que a situacao piore e acabo fazendo mais um amigo ao gentilmente comprimentalo e evitando violencia no transito . fazendo minha parte humana consegui tirar mais um do volante hoje ele pedala comigo ao ir para o trabalho ele sorrir dizendo que eu o salvei de um possivel infarto no futuro kkkkkkkkkkkkkk. espero que mais pessoas descubram que nao e tao dificil assim a paz por vivermos de forma simples como andar de bicicleta. bjos amei vcs .

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