Breves Impressões: Sescanção – Ano 14.

foto: Portal Infonet
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“Devo enfatizar uma coisa a você leitor e leitora… Para um músico, não passar o som é um atestado de suicídio. É o surdo que se comunica desajeitadamente sem saber se está soletrando cada letra em seu devido lugar”

*por Igor Bacelar

Sescanção 2013. Ano 14. Teatro Atheneu. 18h. Passagem de som… Um emaranhado de cabos na penumbra fazia parte do ecossistema dos bastidores que alimentava algumas dezenas de outros condutores elétricos que também ocupavam a fauna do ambiente com cheiro de borracha suada. Os refletores estavam em repouso na copa daquele lugar e dentro de duas horas e imperceptíveis minutos de atraso iluminariam o palco como pequenos sóis impiedosos e cálidos.

Técnicos de som e roadies andavam de um lado para o outro no alvoroço costumeiro de eventos desta magnitude. Sempre correndo contra o tempo. Não como maratonistas que dosam o ritmo de seus corpos conforme suas estratégias esportivas, mas Efemerópteros, grupo de insetos que vivem ditatorialmente (em “noções” humanas) apenas cerca de 24 horas e sua existência tem finalidade basicamente reprodutiva. Os mosquitos, um exemplo mais pop só que do grupo dos dípteros, às vezes vivem apenas por dois dias. Quando cheguei lá restava pouco menos de uma hora para o circo estar montado.

Os Fantasmas da Noite seriam o único grupo a se apresentar naquela noite sem a necessidade da banda base, contratada pelo Sesc para auxiliar os artistas solo que haviam sido selecionados para a mostra. Consegui sair a tempo do trabalho para a passagem de som, infelizmente 3/5 da banda estavam imersos em seus problemas de mobilidade urbana e o outro impedido por uma série de ocorrências em seu trabalho não poderia chegar. E lá estava eu, um artista solo sem uma banda base para me consolar enquanto as ruas comprimiam a população em um recipiente de conteúdo caudaloso e cáustico enroscados como uma serpente entorpecida em sua digestão.

Enfim, chegaram. Assim como a inflexibilidade decisiva dos operadores sonoros. Os magos das frequências, os juízes do espetáculo, as figuras responsáveis pela legibilidade da música que elencaria a solenidade, dentro agora de pouco mais de uma hora. Segundo eles não havia tempo hábil para que eu e meus amigos plugássemos nossos instrumentos e adequássemos aquela maquinaria toda à nossa dinâmica, ao volume de nossa contribuição artística naquela noite especial do último dia de outubro. “Não tem problema”, disse o sujeito gordo.

Devo enfatizar uma coisa a você leitor e leitora… Para um músico, não passar o som é um atestado de suicídio. É o surdo que se comunica desajeitadamente sem saber se está soletrando cada letra em seu devido lugar. Cada indivíduo tem a sua pegada, o seu sotaque e se no meio do processo de emissão destas características alguma coisa for desrespeitada o trem pode se desvencilhar do trilho e não chegar aonde deveria, ou melhor, como deveria.

 As poltronas observavam em silêncio. A plateia invisível já esboçava suas reações e espécies de espectros ocupavam suas posições no mais antigo espaço cênico de Sergipe fundado em 1954 no qual só tive a oportunidade de entrar pela primeira vez lá pro início dos anos 90 em uma exibição de uma peça sobre as “Tartarugas Ninja”. Aquele menino cheio de sonhos nunca imaginaria que estaria ali agora nos mesmos lugares em que Rafael, Leonardo, Michelangelo, Donatello e o Mestre Splinter combateram as forças do mal.

Regurgitado em mais um episódio histórico acompanhado por Muskitos homenageados para durar mais do que o seu ciclo vital e transcender a sua própria existência na sobrevivente, egoísta, fervilhante e promissora cultura sergipana com direito a buffet, camarim acolhedor e massagista em um curto, breve e orgásmico “período de inserção” (isso seria um preciso antagônico de exceção?) contrapondo-se à quase totalidade do cotidiano perverso da realidade do artista; e dos que estão transitando engarrafados por aí nesse momento; e dos que são forçados a dar coronhadas (também os que recebem-nas) na cabeça dos outros porque o sistema desfila com violência e coturnos sujos; dos que tiveram seus móveis mutilados por três horas de chuva e 90 toneladas cetáceas de trovões; das crianças da periferia que sonham com Max Steel.

*Igor Bacelar é músico, estudante de jornalismo, contista, artista marcial fracassado e foi convidado para o posto de louco na Rever.

**’Breves Impressões’ é o nome que levará a série de crônicas escritas pelo autor.

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