Energia Solar: pensar a tecnologia para as pessoas

Equipamento em fase de experimentação para captação de energia no ITP/ UNIT.
Equipamento em fase de experimentação para captação de energia no ITP/ UNIT.

Em Sergipe experiências e inovações quebram a lógica do desenvolvimento tecnológico voltado para o lucro. Comunidades tradicionais são parceiras e o desenvolvimento social é tido como principal objetivo

*por Bruna Távora e Rafa Aragão

 

A sociedade contemporânea tem seu motor de desenvolvimento pautado pela inovação tecnológica. Em escala mundial, os países que investem em inovação são os mesmos que orientam a produção econômica da sociedade e, assim, estão em posição estratégica de tomar decisões, orientar os rumos econômicos de outros países e definir relações técnico-econômicas a serem adotadas ao redor do globo.

Este contexto, marcado por uma concentração de nações localizadas no eixo norte, vem se consolidando na medida em que o sistema econômico e produtivo necessita, de maneira cíclica, se renovar para que não entre em colapso.

É o investimento de universidades e institutos de pesquisa na produção de inovação o que impulsiona o desenvolvimento de tecnologias que, por sua vez, são comercializadas e tomadas como padrão técnico nas indústrias eletrônicas, farmacêuticas, jornalísticas, dentre outras. Isto possibilita que novos produtos sejam criados, novas práticas de trabalho sejam estabelecidas e, portanto, possibilita reorganizações no campo produtivo-econômico, que, ciclicamente, entra em crise.

A problemática em torno desta concepção de tecnologia se estabelece, pois, ela é constituída e financiada com vistas à manutenção da dominação de um grupo sobre outro. De maneira abrangente, é com vistas no controle político da organização e produção da sociedade que pesquisas são financiadas e elaboradas.

O pesquisador do Instituto Tecnológico de Pesquisa (ITP) da Universidade Tiradentes (UNIT), Dr. Renan Tavares, analisa as condições de produção científica informando que os rumos no campo da pesquisa são, prioritariamente, voltados para a produção de conhecimento a serem utilizados em grandes corporações.

Utilizando a metáfora da “formiguinha que segue as outras formiguinhas” ele destaca que, para o pesquisador em início de carreira, é difícil percorrer um caminho alternativo. Ele analisa, “este é o modelo no qual somos inseridos. As opções no campo da pesquisa científica são voltadas para este tipo de desenvolvimento e, somente com o tempo, muita pesquisa e trabalho, temos oportunidade de iniciar uma investigação que esteja mais atrelada ao despertar das consciências do que ao desenvolvimento das empresas”.

Catadoras de Mangaba constróem secador solar. Foto: Ascom/Projeto Catadoras de Mangaba Gerando Renda e Tecendo Vida em SE
Catadoras de Mangaba constróem secador solar. Foto: Ascom/Projeto Catadoras de Mangaba Gerando Renda e Tecendo Vida em SE

Contraponto

Como destaca o professor, o modelo de inovação advindo dos grandes centros, embora hegemônico, não é o único existente. Grupos de pesquisadores de nações como o Brasil,  Índia e de outros países periféricos em desenvolvimento, tem se apropriado da lógica que orienta as pesquisas tecnológicas para promover desenvolvimento social, humano e econômico com vistas na transformação social de realidades.

No Brasil, referência neste campo é o pesquisador Renato Dagnino, do Instituto de Política Científica e Tecnológica da Universidade de Campinas (Unicamp). Há mais de trinta anos atuando no campo da tecnologia orientada para o desenvolvimento social, o pesquisador é responsável por difundir os conceitos e a lógica da tecnologia social no Brasil e ao redor do globo.

Em artigo publicado em parceria com Henrique Novaes, chamado O Fetiche da Tecnologia, os autores destacam na página 18 que “por ser a tecnologia uma construção social – um campo de batalha – historicamente determinado, sendo resultado de um  processo onde intervêm múltiplos atores  com distintos interesses, a trajetória de inovação científica e  tecnológica poderia ser  redirecionada, dependendo da capacidade dos  atores  interessados  na mudança social em interferir tanto  na divisão do trabalho  no chão de fábrica quanto no processo decisório da política científica e  tecnológica”.

A tecnologia social como princípio de trabalho

Baseada em princípios como trabalho coletivo, sustentabilidade, aproveitamento de materiais locais, baixo custo e funcionalidade, a tecnologia social busca promover nas comunidades reflexões acerca do entorno social. E, deste modo, busca se instituir como alternativa para a política tecnológica hegemônica.

Isto significa planejar e orientar a produção tecnológica para melhorar a vida das pessoas, proporcionando empoderamento social, diminuição de condições de pobreza e fome, dentre outros.

Dentre as pesquisas desenvolvidas sob essa orientação, as investigações sobre energia solar tem sido uma das mais representativas no Brasil. Segundo dados do Atlas Brasileiro de Energia Solar 43,6 % da energia primária no Brasil são de recursos renováveis (ver gráfico). Graças às condições naturais e climáticas do país, por ser localizado na sua maior parte na região inter-tropical,  possui  grande  potencial  para  aproveitamento de energia solar durante todo ano.

O Sol tem sido utilizado de diversos modos e tem sido objeto de pesquisa e inovação de projetos sociais orientados para o desenvolvimento social, econômico e humano de comunidades populares. Entretanto é ainda pequena a participação desse tipo de energia na matriz energética brasileira.

Em Sergipe, a área de pesquisa em tecnologia social a partir da utilização do Sol existe desde de 2004 e pode ser expressa em experiências como a Cozinha Escola Experimental Solar, projeto realizado pelo Sergipe Parque Tecnológico (Sergipetec), Secretaria de Estado de Inclusão e Desenvolvimento Social (Seides) em parceria com a Universidade Tiradentes (UNIT), a Universidade Federal de Sergipe (UFS).

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O projeto implantou a escola experimental no conjunto João Alves, na cidade de Nossa Senhora do Socorro, e oferecia diariamente mais de cem refeições produzidas com energia solar, além de capacitar pessoas na prática do cozimento solar e construção de fogões para utilização doméstica.

Para Jailda Ribeiro, cozinheira do projeto, “ajudar os pobres era o principal motivo que nos animava; as pessoas chegavam com fome e saíam de lá alimentados, graças ao trabalho que a gente desenvolvia”.

Ela conta que, a produção das refeições iniciava no dia anterior cortando os legumes e fazendo a cata dos cereais. Assim que chegavam na cozinha escola, identificam o posicionamento do sol e ajustavam os fogões para o aquecimento. Arroz, feijão, legumes, carnes e “tudo o que você possa imaginar, cozinhávamos lá” conta a cozinheira.

Atuando durante o ano de 2009, a cozinha escola formou mais de cem pessoas para o uso do fogão solar.

Outra iniciativa de destaque foi a construção de secadores solares junto às Catadoras de Mangaba do estado. Através do Projeto Catadoras de Mangaba Gerando Renda e Tecendo Vida em Sergipe, a técnica de secagem de alimentos através do sol foi levada para mais de 24 comunidades do estado.

“Nossa principal motivação foi a identificação do desperdício de frutas nativas das comunidades”, destaca Mary Barreto, pedagoga e assessora técnica do projeto. Ela conta que a chegada do verão trazia abundância de frutas que não eram consumidas integralmente pelas comunidades, e por dificuldades de logística, também não eram comercializadas.

“Muitos alimentos caem das copas das árvores e ficam nas terras gerando desperdício em um ambiente onde a pobreza e a fome são presentes. A partir do diagnóstico dessa realidade, propomos o uso do secador solar para aproveitar os frutos e possibilitar a transformação das frutas in natura em frutas secas”, afirma Mary.

Ela conta que a contribuição principal desta tecnologia para as comunidades está em realizar um aproveitamento das frutas que, in natura, duram apenas três dias. A técnica de secagem de frutos possibilita que as frutas secas sejam conservadas para alimentação por cerca de seis meses. O processo viabiliza ainda a diminuição do volume dos alimentos e facilita a estocagem dos produtos, que podem ainda ser utilizadas para a venda.

Dona Edna dos Santos, do povoado de Ribuleirinhas/Estância foi capacitada na oficina e, atualmente, faz a secagem dos alimentos para a comercialização. Edna destaca que a além de contribuir na geração de renda de sua família, as frutas secas foram incorporadas ao consumo familiar. “Perdíamos a oportunidade de aproveitar as frutas de nossos quintais, pois, não damos conta de consumir a quantidade de cajus, mangas e jacas que dão por aqui. O secador solar permite que a gente seque os frutos, empacote e comercialize. Assim, a gente aumenta a nossa renda e ainda os utiliza na nossa alimentação”.

Outro exemplo de projeto com a energia solar é a Casa de Farinha Solar. Desenvolvido pelo professor Renan Tavares, o projeto conta com mestrandos, doutorandos e graduandos e objetiva substituir a fonte energética das casas de farinha solar que existem em Sergipe.

O estudante de mestrado Pedro Campelo explica que o projeto fortalece a cultura, ao mesmo tempo, que garante a sustentabilidade do entorno social. “A Casa de Farinha é um espaço tradicional de comunidades; no entanto, historicamente, a fonte energética é a lenha. O problema é que a utilização deste insumo gera desmatamento e sua queima solta gás carbônico; Estamos desenvolvendo um equipamento que possibilitará a queima através da energia do sol”. Ele informa que isto deve garantir a diminuição na derrubada de árvores e na emissão do gás, que é tóxico.

Além dos benefícios econômicos, o processo de aprendizagem abrange perspectivas de educação, conscientização ambiental e trabalho coletivo. Isto segue os princípios da construção da tecnologia social, que além de viabilizar tecnicamente instrumentos de produção, prevê um empoderamento social e econômico das comunidades onde eles são desenvolvidos.

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