O Rio Sergipe também passa na Barra dos Coqueiros

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Do outro lado do Rio Sergipe os impactos da ação do homem na tentativa de “dominar” a natureza também vem causando graves problemas. O aterramento da 13 de Julho deve agravar esses danos.

*por Rafael Barbosa, em seu blog

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Nota da REVER

O tema dos aterramentos e dos impactos ambientais causados pela ação predatória do homem já foi assunto de uma crônica e uma reportagem, aqui na REVER. Desta vez retornamos com um relato feito com uma câmera na mão, um bicicleta e a preocupação séria com os rumos dos mangues do litoral sergipano.

O texto que segue foi postado originalmente no blog pessoal de Rafael Barbosa. Ele é estatístico de formação, e pode ser encontrado rodando em Aracaju com sua bicicleta. Estudante de Engenharia de Pesca, acompanha há anos as mudanças ocorridas na cidade onde vive, a Barra dos Coqueiros, município que o Rio Sergipe separa da capital sergipana.

As fotos vão de Novembro de 2010 até o mês mais recentes. A proposta de Rafael Barbosa foi denunciar os impactos que os aterros feitos em Aracaju também geram impactos do outro lado do Rio Sergipe. Ou como o mesmo define: “De um lado, o mar invade e destrói casas e bares, do outro lado o mar deixa de manter a vida no manguezal”. 

No dia do lançamento deste material, 11 de Novembro, sob ordens da Prefeitura de Aracaju, eram iniciadas as obras de aterramento do Rio Sergipe, com um depósito de pedras que avançaria por 40 metros nas suas águas.

(I.S)

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Título Original:  Do outro lado da 13

*por Rafael Barbosa, em seu blog

Todos os aracajuanos e grande partes dos sergipanos tem conhecimento que a cidade de Aracaju, principalmente os bairros da zona sul (exemplo de 13 de Julho, Jardins etc.), foram construídos sobre áreas de manguezal e de apicuns. Bom, isso tudo foi feito antes de termos leis especificas do Meio Ambiente e que trata das Áreas de Preservação Permanente-APPs.

No final da década de 80 foi construído o molhe da Coroa do Meio em Aracaju para conter a erosão causada pela força das marés, porém para manter o equilíbrio também foi construído um molhe no lado norte da foz do Rio Sergipe em Atalaia Nova.

Segundo Ortiz (2002), a fisiografia (aspectos geológicos) da atual praia de Atalaia Nova não constitui uma paisagem natural, pois resultou de uma intervenção antrópica (ação humana) ocorrida há menos de duas décadas (a partir de 1990): a implantação de um molhe rochoso, construído como parte de um conjunto de obras projetadas para conter os processos erosivos verificados na Coroa do Meio e estabilizar sua foz.

A Atalaia Nova tinha cerca de 500 metros de praia nas margens do rio Sergipe, existiam pontos em que a distância percorrida para chegar até a praia era de 200 metros da Avenida Oceânica/Rio Sergipe, isso no ponto próximo a foz, hoje o mar banha essa avenida. Por ter essa distância “segura” alguns moradores acharam que o mar não iria voltar nesse século, pois na praia já havia formação de muitas dunas e de vegetação de restinga, porém com essa falsa segurança muitos construíram barres e casas sobre o molhe.

Aconteceu o que os moradores não esparavam, pois, desde o ano 2000 até o corrente ano (2013) o  mar  veio e vem ocupando o espaço que era dele, chegando até o ponto onde o molhe estava, ponto esse que estava soterrado pelas areias que acumularam no vai e vem do rio.

Abaixo imagens do avanço do mar:

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Antes do avanço do Mar – Imagem: Google Maps
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Depois do avanço do Mar – Foto: Google Maps

Vou apresentar registro fotográfico da Av. Oceânica desde 2010, na qual se encontra o bloqueio feito pelo homem para conter o avanço do mar. Na foto “1” nota-se a exposição do molhe, mostrando regiões que tinham muitas pedras subterradas, deixando moradores assustados porque tinham bem de frente a casa, menos de 10 metros, um mar que oscilava de acordo com a lua, além de ser muito instável.

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Foto 1: Vista do final de linha da Atalaia Nova
Foto tirada em Novembro de 2010

No ano de 2011 o mar já lavava a avenida Oceânica e batia forte nas casas, ameaçando a casa que o governo em exercício Jackson Barreto tem em frente praia. Com medo de  maiores danos e da perda do valor do imóvel foi colocado mais pedras para impedir o avanço do mar.

A foto “2” e “3” mostram os estragos causado por esse avanço.

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Foto 2: Mureta, calçada e coqueiro derrubado pela força do mar.
Foto tirada em setembro de 2011
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Foto 3: Casas destruídas e pedras espalhadas ou expostas pela ação do mar.
Foto tirada em setembro de 2011

Vale lembrar que essa revirada do mar, por coincidência ou não, começou em 2008 após a colocação de mais pedras no bairro Coroa do Meio, pois na maré de março e na ressaca que aconteceu em outubro de 2007 o mar destruiu bares na Praia do Meio e parte da praça de eventos na Orla de Atalaia (Aracaju).

“A maré de março veio mais alta que o habitual esse ano, e surpreendeu os comerciantes da Orlinha de Atalaia. No início do mês o mar avançou sobre as barracas e começou a arrastá-las, destruindo muitas delas. Os donos do bar esperam agora a maré baixar pra avalizar os prejuízos. (22/03/2007)” Portal Infonet

“O mar avançou mais uma vez na Orla de Atalaia, e destruiu parte da calçada da praça de eventos. Para tentar proteger o estacionamento do local o Departamento Estadual de Habitação e Obras Públicas (Dehop) colocará pedras de contenção na beira da praia. (25/10/2007)” Portal Infonet.

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Foto 4: Jovens esperando as ondas baterem nas pedras para banhá-los
Foto tirada em março de 2012

Na foto “4” acima, temos parte do molhe e  mostra que a avenida Oceânica era intransitável para qualquer tipo de veiculo, até mesmo bicicletas.

No inicio 2013, o Governo de Sergipe começou a colocar mais pedras no molhe da Atalaia Nova para minimizar os impactos causados pelo mar, aproveitando para  também fazer uma avenida transitável, onde há muitos anos não passava veiculo. 

Foto 5: Pedras recém colocadas Foto tirada em fevereiro de 2013
Foto 5: Pedras recém colocadas
Foto tirada em fevereiro de 2013

Bom, eu vejo isso como um verdadeiro trabalho de “português”, depois da primeira maré alta, parte da pista foi junto com as ondas. Não sei qual foi o estudo feito para se fazer tanta “cagada” numa obra só.

Foto 7: Parte da avenida Oceânica comprometida. Foto tirada em fevereiro de 2013
Foto 7: Parte da avenida Oceânica comprometida.
Foto tirada em fevereiro de 2013

O “problema” do avanço do mar ainda existia e atrapalhava os interesses de muita gente que tinham imóveis em frente a praia. Chega o mês de março, junto com ele o mar mais alto e violento, mesmo sabendo disso, foi colocado mais barro, brita e asfalto na avenida Oceânica, colocaram também uma espécie de rede para conter a retirada de sedimento da avenida.

Foto 8: Maré de Março quebrando nas pedras e nas costas dos bares que ficam no final de linha. Foto tirada em março de 2013
Foto 8: Maré de Março quebrando nas pedras e nas costas dos bares que ficam no final de linha.
Foto tirada em março de 2013
Foto 9: Avenida Oceânica molhada pela maré de março. Foto tirada em março de 2013
Foto 9: Avenida Oceânica molhada pela maré de março.
Foto tirada em março de 2013

Na foto “10” logo abaixo, imagem mais recente, mostra o mar quebrando levemente nas pedras e mostra também a situação da avenida.

Foto 10: Maré alto Foto tirada em outubro de 2013
Foto 10: Maré alto
Foto tirada em outubro de 2013

Deixando de lado os danos materiais causados pela alteração que o homem fez na natureza, vou mostrar o que essa manipulação ambiental causou ao meio ambiente e os impactos negativos.

Acho que muitos não vão ler até esse ponto, talvez possa estar enganado e vão ficar interessados e lerão até o final, assim espero. Eu quero, com essa postagem mostrar os danos causados a médio e longo prazo, e que essas mudanças  no bairro Coroa do Meio, junto com a intervenção antrópica local, quase mataram um manguezal localizado em Atalaia Nova, atrás da comunidade de Atalainha. Falarei sobre esse mangue em outra postagem.

Preocupado com as obras do Bairro 13 de Julho, pois a prefeitura de Aracaju pretende invadir o rio Sergipe para dar procedimento a uma obra “politiqueira”. Não serei egoísta para dizer que não tem que fazer nada na 13 de Julho para conter o avanço do mar, acho que tem que ser feito algo sim, mas fazer como eles querem, não dá! Pois eles querem entrar 40 metros para dentro do rio Sergipe. Isso vai causar um enorme impacto, não só em Atalaia Nova como também em outras regiões ao longo do rio.

Por que obra “politiqueira”? Essa obra foi apresentada em setembro do ano passado pelo então prefeito Edvaldo Noqueira.

Foto 11: Edvaldo Nogueira apresentando aos aracajuanos um projeto de defesa litorânea para contenção da maré. Foto de César de Oliveira tirada em setembro de 2012
Foto 11: Edvaldo Nogueira apresentando aos aracajuanos um projeto de defesa litorânea para contenção da maré.
Foto de César de Oliveira tirada em setembro de 2012

“Para acabar com os transtornos causados pelo avanço do mar, no calçadão da 13 de Julho, o prefeito Edvaldo Nogueira apresentou aos aracajuanos um projeto de defesa litorânea para contenção da maré. Na ocasião, Edvaldo reuniu técnicos e a imprensa. A área corresponde a uma faixa que vai desde o Mirante da 13 até o Iate Clube de Aracaju. (28/09/2012)” E-aju

“A Prefeitura de Aracaju iniciará definitivamente a obra de revitalização da balaustrada, o que na prática representará o aterramento de 40 metros do rio Sergipe; após a área ter sido cercada com uma rede de proteção, centenas de pedras estão sendo depositadas na tentativa de a prefeitura agilizar o início do serviço…(07/11/2013)” Sergipe 257.

Foto 12: Mar quebrando na Balaustra da Avenida Beira Mar Foto tirada em novembro de 2013
Foto 12: Mar quebrando na Balaustra da Avenida Beira Mar
Foto tirada em novembro de 2013

Visto tudo isso que aconteceu com o depósito de pedras na Coroa do Meio, entrar 40 metros no rio Sergipe causará um impacto terrível ao meio ambiente ou não?

De um lado, o mar invade e destrói casas e bares, do outro lado o mar deixa de manter a vida no manguezal.

Em  minhas caminhadas pelo manguezal no final do ano passado, notei que a água que ali tinha não escoava e notei também que o mangue estava muito seco. Fui até a entrada do rio que irrigava o  mangue pra ver o que estava acontecendo, percebi que a boca do rio estava tapada por areia.

O mangue sem ligação com as águas do mar deixa de cumprir seu papel fundamental que é de fornecer nutrientes para muitas espécies marinhas costeiras.

Foto 12: Foz do rio que irriga o mangue em Atalaia Nova Foto tirada em outubro de 2012
Foto 13: Foz do rio que irriga o mangue em Atalaia Nova
Foto tirada em outubro de 2012

Apresentei minha indignação e minha preocupação aos amigos do facebook, também na época conversei com o vereador de Barra dos Coqueiros Wilson Bernardes, a respeito da situação do mangue. Marcamos de ir ao mangue pra ele ver com os próprios olhos como estava e o que poderia ser feito dentro das possibilidades. Prometeu falar com o responsável de um empreendimento para que esse emprestasse uma retroescavadeira para abrir a boca do rio no período de maré grande.

Nosso passeio pelo mangue aconteceu no mês de novembro do ano de 2012, fomos até o interior do manguezal, chegando lá fiquei muito impressionado como tinha muita vida, muitas pegadas de animais, não tinha cheiro de podre e as árvores estavam produzindo muitos frutos. A região parecia que a muito tempo não era penetrada.

Entramos no ano de 2013 e nada nos dois primeiros meses, a nova gestão assumiu a prefeitura daquele jeito, cheia de promessas. Começa então o período chuvoso, depois de dias a quantidade “muriçocas” aumenta de forma anormal. O mangue estava cheio de água empoçada, as águas da chuvas corriam para o mangue. Pena que não era só a água da chuva que fazia esse trajeto, muitas casas em Atalaia Nova despejam seus esgotos no mangue.

A administração local se viu na obrigação de tomar uma medida, aquela situação poderia causar sérios riscos saúde, além do incômodo dos mosquitos. No mês de março começou a cavar a entrada do rio para pegar o maré alta.

Foto 14: Entrada da foz do rio sendo aberta pela mãos do homem Foto tirada em março de 2013
Foto 14: Entrada da foz do rio sendo aberta pela mãos do homem
Foto tirada em março de 2013
Foto 15: Obra quase concluída Foto tirada em março de 2013
Foto 15: Obra quase concluída
Foto tirada em março de 2013

Chega então o mar tão esperado para dar vazão as águas da chuvas, como também para oxigenar o mangue que há muito não via a água salgada, sem falar que também muitas espécies deixaram de completar parte do ciclo natural, a exemplo de peixes e alguns crustáceos

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Foto 16: Foz aberta
Foto tirada em março de 2013

Esse tempo de água parada trouxe algumas consequências: caranguejos mortos, muitos caranguejos atordoados na beira da praia, encontrei muitas fêmeas caminhando perdidas e fracas, pois fazia um bom tempo que o mar não entrava no rio e o caranguejo acompanha o ciclo das águas e da lua. O manguezal estava coberto de barro, não parecia ter tanta vida, tava muito feio e diferente daquele que tinha visto em novembro com o vereador. Tinha criado um tipo de camada amarela no solo e nas árvores, esse barro foi escoado para dentro dele pela chuva, o barro é proveniente de uma pista antiga que fazia a ligação entre Atalaia Nova e Barra dos Coqueiros.

Foto 17: Pés de manguezal cobertas de barro Foto tirada em março de 2013
Foto 17: Pés de manguezal cobertas de barro
Foto tirada em março de 2013
Foto 18: Caranguejo fêmea caminhando nas margens do rio Sergipe. Foto tirada em março de 2013
Foto 18: Caranguejo morto coberto pelo barro
Foto tirada em março de 2013
Foto 19: Caranguejo fêmea caminhando nas margens do rio Sergipe. Foto tirada em março de 2013
Foto 19: Caranguejo fêmea caminhando nas margens do rio Sergipe.
Foto tirada em março de 2013

Quase ia esquecendo, o mangue em questão desemborca em frente a praia formosa, ai eu pergunto; será mesmo que a equipe do prefeito João Alves fez o estudo de impacto ambiental? Essa ocupação irregular do rio Sergipe vale apena? Quanto vale um mangue? Quanto as consequências futuras, quais vão ser os danos pela morte desse mangue?

Eu sei de muita gente que iria adorar a morte dele, os empreendedores da especulação imobiliária  iam cair mantando e agregando valor a bem comum, Atalaia Nova iria se tornar uma nova 13 de Julho ou novo bairro Jardins, bairros construídos sobre o mangue com a conivência dos governos municipal e estadual.

Abertura da entrada do mangue aconteceu no incio deste ano, estamos no final dele, será que continua a mesma coisa? Será que o fluxo do rio existe ? Como anda a boca desse rio?

Bom, estive lá no inicio desse mês para ver como tava a boca do rio, notei que ele mudou o percurso e que estava se fechando aos poucos. A intenção do vereador foi boa, mas parece que não resolveu o problema a longo prazo. Acho que o mar está recusando o mangue.

Foto 20: Boca do rio que irriga o mangue Foto tirada em novembro de 2013
Foto 20: Boca do rio que irriga o mangue
Foto tirada em novembro de 2013

As obras de invasão do rio Sergipe vão começar nesta segunda-feira, 11 de novembro de 2013.
Pedras foram colocadas, agora é só esperar as consequências desse empreendimento politiqueiro.

Proposta da obra no ano de 2012

O novo ponto turístico terá ciclovia, calçadão, pier, lago com túnel d´água e deque, equipamentos de ginástica específicos para idosos, pergolados, ponto de ônibus, redários, quiosques, paisagismo, iluminação, acessibilidade, estacionamento e sinalização. Além das amplas áreas de vivência (com mesas e bancos), de contemplação, de recreação infantil com castelo encantado e esportiva com calçadão. (28/09/2012) “E-aju

Foto 21: Pedras sobre a avenida Beira Mar, bairro 13 de Julho Aracaju Foto tirada em novembro de 2013
Foto 21: Pedras sobre a avenida Beira Mar, bairro 13 de Julho Aracaju
Foto tirada em novembro de 2013

*Rafael Barbosa é estatístico, cicloativista e estudante de engenharia de pesca. O texto acima foi reproduzido no seu blog pessoal: http://rafaelbarbosaracaju.blogspot.com.br

Um comentário sobre “O Rio Sergipe também passa na Barra dos Coqueiros

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