20 de novembro e a resistência negra em Carmópolis

povoado aguada

“O racismo é tão histórico, quanto atual. É componente essencial do projeto de dominação. Se hoje os principais atingidos pela ausência de direitos sociais são negros, é porque as raízes e os traços de racismo continuam presentes”

*por Alexis Pedrão

Dia da consciência negra. Não poderia existir melhor data para simbolizar o processo de resistência popular no povoado Aguada em Carmópolis. Há alguns meses, centenas de famílias ocupam corajosamente um conjunto habitacional de casas construídas pela prefeitura.

Pessoas pobres que não possuem o mínimo para viver com dignidade: um teto para morar. A maioria delas, como não poderia deixar de ser, negras. Assim como no Brasil, em Sergipe a classe trabalhadora tem cor. A exclusão social caminha lado a lado com a exclusão racial. É por esta fundamentação que algumas visões consideram que as ocupações são uma forma de quilombo.

Com esse método de ocupação, a população põe em discussão um pedido mais do que razoável e objetivo, afinal o direito à moradia é garantido constitucionalmente. Direito esse conquistado com bastante luta ao longo da história. É inadmissível que a especulação imobiliária cresça em índices altíssimos, com prédios e condomínios fechados de alto valor, enquanto milhares de sergipanos tem os seus direitos básicos negados. É somente mais um exemplo do alto nível de desigualdade social.

A fatura desta incalculável conta social e histórica deve ser cobrada do estado e da classe dominante. Não parece forçoso ou de difícil entendimento que a luta por moradia numa pequena comunidade de Carmópolis é a mesma luta dos escravos contra os senhores há séculos atrás. Hoje sob outra forma, os papéis se repetem. O racismo é tão histórico, quanto atual. É componente essencial do projeto de dominação. Se hoje os principais atingidos pela ausência de direitos sociais são negros, é porque as raízes e os traços de racismo continuam presentes.

Embora não assuste mais ninguém, não custa lembrar. O PT está no comando do governo federal, estadual e municipal, mas há muito deixou de praticar uma política de fato voltada para os trabalhadores. A resposta da prefeita Esmeralda e do governador em exercício Jackson Barreto vai ser arrancar a balas e pontapés aqueles trabalhadores, crianças e idosos, famílias inteiras? Esta será a opção política? O braço armado será mais prioritário do que uma política social de moradia? Quis o destino que a decisão de reintegração fosse marcada justamente para o dia 20 de novembro. O dia histórico de luta do movimento negro contra o racismo promete fortalecer a história da resistência negra e popular em Carmópolis.

As assembléias, a organização de base e as intervenções junto aos meios de comunicação e cobranças ao poder público estão em andamento. Não há desejo de confronto. Há um sonho verdadeiro de conquistar uma casa. E por isso a luta será pela suspensão da reintegração de posse e pela garantia da moradia. Mas a população que não tem para onde ir, já está ciente. Se a intransigência e o desrespeito prevalecerem, os moradores estarão prontos para resistir. O dia 20 de novembro será exatamente como deve ser. Um dia de resistência e luta negra.

Os tempos mudaram. Mas o que antes era senzala, hoje é favela.

*Alexis Pedrão é bacharel em Direito, funcionário público e colunista da Revista Rever

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