Breves Impressões: Clandestino #6

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“Quantos de vocês nunca sonharam ou pretendem ou desejam ou não tiveram coragem de colocar um par de amplificadores e uma bateria em espaço público ou pular dentro de uma Kombi e viajar algumas centenas de quilômetros Brasil afora apenas para plugar e tocar com o nome de Wagner José e Seu Bando?”

*por Igor Bacelar

Plug and Play! Foi assim que aconteceu aos pés do imponente “Farol da Unit” com seus 25 metros de altura (segundo matéria publicada pelo Cinform sobre o nascimento dos bairros em Aracaju) e localizado no bairro da Farolândia batizado em homenagem à existência do mesmo que construído em 1854 servia para orientar os navegantes em relação à barra de Aracaju.

 O “antigo farol”, como também é chamado, foi desativado imediatamente após a criação do farol da Coroa do Meio, em 1991, que atendia com mais precisão às necessidades do transporte marítimo e fluvial devido ao surgimento de prédios que obstruíam as luzes da lanterna nas imediações do primogênito. O monumento foi tombado em 1995 e revitalizado por volta de 2009 depois de anos de abandono.

Plug and Play! Ali diante de uma construção de meados do século XIX. Sob os seus cuidados, sob a sua influência maternal, acolhendo os seus filhos mais questionadores e rebeldes naquela noite visceral da zona sul em bairro e horário nobre Aracajuano.

Acordes frenéticos, performance contagiante… O timbre doce e suave da violência que reside em cada um de nós estava ali exibido para todos em carne viva. Ecoava por toda a extensão daquela praça circular como um loop desabrochando sentidos a cada vez que nos atinge em nossas cavidades auriculares acústicas.

Quantos de vocês nunca sonharam ou pretendem ou desejam ou não tiveram coragem de colocar um par de amplificadores e uma bateria em espaço público ou pular dentro de uma Kombi e viajar algumas centenas de quilômetros Brasil afora apenas para plugar e tocar com o nome de Wagner José e Seu Bando?

Saudosismos à parte, lá pros anos 80 a Karne Krua e mais um bando de pessoas que Precisavam falar alguma coisa se fincaram nas ruas da cidade com suas bandeiras rasgadas e um sentimento de inquietude autênticos em uma sociedade perigosamente repressora e preconceituosa. Hoje, 20 e tantos anos depois as figurinhas do álbum mudaram, mas o tema e a essência da coisa toda permanece dentro desse famigerado status quo. O coronelismo, as máfias, o modus operandi dessa lógica de mercado cantarolam as mesmas perversidades em seus banhos esponjosos.

Eu vi a autenticidade em olhos claros e de fala tímida diante do microfone. Estão fincando outras bandeiras em retalhos em cada novo lugar que anunciam com poucos dias de antecedência para aquelas mesmas caras familiares, porém não menos importantes. Fincando possibilidades, inspiração, destilando emoções sobre o concreto estuprado por milhares de patas dolorosamente erguidas e compenetradas em sua marcha diária.

E por ser apenas e somente plug and play, plugar e tocar, pogar e cantar… Por ser simplesmente e ordinariamente isso… É muito mais do que isso! É uma história romântica subterrânea entre um gerador movido a gasolina e um farol no meio de uma praça. Um objeto inanimado que gera arte crua e despejada em 80 a 100 watts de genuíno calor humano e outro há décadas privado de sua função natal.

Um ornamento solitário e carente de contato íntimo e sensível que depois de muito tempo veio a presenciar com seus olhos surdos e ouvidos mudos algo bastante relevante nas vibrações provocadas na pequenice daqueles indivíduos ali embaixo; os parafusos aluídos. O mais afoito voyeurismo que vi sendo praticado nos últimos tempos.

*Igor Bacelar é músico, estudante de jornalismo, contista, artista marcial fracassado e foi convidado para o posto de louco na Rever.

**’Breves Impressões’ é o nome que levará a série de crônicas escritas pelo autor.

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