Regueiros gostam de reggae e os magnatas de dinheiro

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“Não que os organizadores do Reggae-SE “não façam nada pelo reggae” como diz na música, mas entendem mais dinheiro do que de reggae, entendem muito mais de querer ganhar dinheiro do que do público ao qual se direciona”

*por Rafa Aragão

O Reggae, ritmo criado na Jamaica no fim dos anos 60 e que tomou de assalto o resto do mundo a partir dos anos 70 , demorou pra deslanchar aqui no Brasil. Dizem  que a primeira vez que se ouviu falar em reggae no Brasil foi na música ‘Nine Out Of Ten’ de Caetano Veloso no disco Transa em 1972. Diferente de outros ritmos que eram impulsionados pela indústria fonográfica, o reggae no Brasil teve que superar a marginalização e o preconceito e só deslancharia no fim dos anos 80.

Aracaju sempre foi uma cidade que abraçou o reggae. Se aqui não existe uma relação cultural e histórica com reggae como no Maranhão ou Salvador, a cidade pode ser um exemplo desse processo em que o reggae, outrora marginalizado, hoje é um grande chamariz de eventos e shows. Um desses eventos é o Reggae-SE Festival, que fez sua terceira edição na última sexta-feira, dia 08.

Estive na primeira edição do Festival, que mostrou já naquela época sua vontade de ser um grande evento, nos moldes de outros festivais do gênero. Mas havia grandes diferenças daquele ano (2011), para esse de 2013. Diferenças essas que me fizeram lembrar a música Magnatas e Regueiros da banda Tribo de Jah. “Regueiros gostam de reggae e os magnatas gostam de dinheiro”.

Primeiro pela programação. Se o primeiro Reggae-SE tinha apenas duas atrações nacionais e três locais, nesse você tinha quatro atrações nacionais, uma internacional e apenas uma local.  Depois de uma chiadeira houve um encaixe de outras bandas daqui para tocar dentro camarote (?!). E aí eu entro em outra discussão que rolou forte sobre o festival.

No primeiro Reggae-SE também havia camarote. Muita gente questiona o fato de haver camarote em show de reggae. De fato, se formos levar ao pé da letra o que bandas e artistas estão cantando e pregando no palco é no mínimo estranho. Mas não sou contra, acho que o espaço do camarote num grande festival acaba fazendo sentindo, pois podem haver cadeirantes, mulheres grávidas, idosos entre outras pessoas que queiram ou precisem assistir ao show de forma confortável. Ok, alguém pode vim com um papo de “rei do camarote” e estragar tudo.

 Agora será que era necessária a criação de uma “área vip” em frente ao palco?

Não sei quem ou quando se inventou essa coisa de “área vip”, que se tornou quase obrigatório em festivais e shows. Diferente do camarote, sou contra a área vip em qualquer tipo de show.

Primeiro porque os ingressos já não são baratos e tornar ainda mais caro para ficar próximo do palco é um absurdo. Todo fã que se esforça para ver seu ídolo precisa ser bem tratado e o mínimo que ele quer é chegar perto palco e poder ter a sensação de proximidade com seu ídolo.

Quando cheguei ao festival e vi aquela área enorme sendo ocupada por um numero minúsculo de pessoas, já me fez satisfeito, pois mostrava o fracasso da idéia. Mas nada como uma ocupação, no melhor estilo show do RATM no SWU pra acabar de vez com área vip.

Por isso evoquei a música da Tribo de Jah. Não que os organizadores do Reggae-SE “não façam nada pelo reggae” como diz na música, mas entendem mais dinheiro do que de reggae, entendem muito mais de querer ganhar dinheiro do que do público ao qual se direciona. Sabem que aqui há um público forte e tentaram dá um salto maior que as pernas.

Outro ponto negativo as constantes brigas no público, uma delas inclusive parando o show da Israel Vibration na passagem de som (!!! ). A segurança do evento se mostrou falha e pequena para quantidade de pessoas no local.

Talvez a falha tenha acontecido por acreditar na premissa de que reggae é “paz e amor”. Por pouco o Reggae-SE não teve o mesmo triste fim do Republica do Reggae em Salvador no dia seguinte. E por fim o preço absurdo cobrado no bar do evento. Só um exemplo: a cerveja “piriguete” (aquelas de 200 e poucos ml) custando 4 reais. Fiquei na dúvida se o preço era alguma ação da lei seca.

O Reggae-SE Festival é um evento altamente viável, o público compareceu em massa, existe uma galera que quer o evento. É de fato surpreendente que Aracaju consiga ter um festival de grande porte de um ritmo que nem é midiático, pouco tocado nas rádios e na TV.

No entanto os organizadores não conseguem ter o tato de conhecer melhor o público e pensar nele. Da mesma forma que o público quer ver grandes atrações, quer ver as bandas locais sendo valorizadas, tocando no mesmo palco, ou mesmo que seja um palco alternativo e não num espaço restrito. O público quer ficar perto do seu ídolo, mas não pode ser obrigado a pagar mais caro por isso. Regueiros gostam de reggae, e é isso que os move.

 *Rafa Aragão é jornalista, regueiro, e membro de A MOSCA – O Jornal que pintou para lhe abusar

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