3º Sarau Debaixo: neste pedaço negro do mundo (parte 2)

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foto: Janaína Vasconcelos

“O que cabe a Sergipe se não entender-se como o verdadeiro epicentro de todo esse caldo cultural afrodescendente? Uma realidade que não se resume ao plano geográfico, mas na materialidade do que se produz simbolicamente aqui”

*por Irlan Simões

Parte 1: 3º Sarau Debaixo: Alguém imponha limites!

Sergipe é um estado de dimensões territoriais pequenas. Dentre dois traçados de água, o Rio São Francisco ao norte, e o Rio Real ao sul, o pedaço de terra que nos acolhe esconde mais segredos do que aparenta.

Vale considerar: é, nada menos, que o ponto central entre as duas regiões mais representativas ao povo negro fora de sua terra de origem. Nas bandas de baixo temos o Recôncavo Baiano como o espaço com a maior concentração negra fora da Mama África, nas bandas de cima temos o estado de Alagoas como herdeiro de um verdadeiro Reino Negro em terras brasileiras: o Quilombo dos Palmares.

O que cabe a Sergipe se não entender-se como o verdadeiro epicentro de todo esse caldo cultural afrodescendente? Uma realidade que não se resume ao plano geográfico, mas na materialidade do que se produz simbolicamente aqui. Diante do que se encontra em Sergipe, os frondosos rios, Real e São Francisco, são meros afluentes.

A Terceira Edição do Sarau Debaixo trouxe esse compromisso. No dia da Consciência Negra o mundo preto se viu representado das mais variadas formas sob o cimento do Viaduto do D.I.A.

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foto: Janaína Vasconcelos

A Mussuca e o Samba de Pareia de Dona Nadir

O peso da atração que teria início, já por volta das 21h, na Terceira Edição do Sarau Debaixo pode ser medido nas palavras de um dos músicos jovens da atualidade mais comprometidos com a música negra em Aracaju.

Elvis Boamorte pediu licença para apresentar o grupo de Samba de Pareia do Povoado da Mussuca, do município de Laranjeiras, distante cerca de 20 km da capital sergipana. “Sem o Samba de Pareia da Mussuca eu não saberia o que é musica, não saberia o que é poesia”.

A existência do povoado da Mussuca é antiga. Citações de registros oficias ainda por volta do ano de 1870 já apontavam uma concentração populacional razoável na região. Conta-se que sua ocupação foi iniciada com os primeiros escravos, que viviam da caça, da pesca e da colheita a região. Em suma: um refúgio do sofrido povo negro que começava a ser entregue ao novo mundo dos “homens livres”.

Estima-se que a Mussuca tenha uma população de cerca de 2.500 habitantes. Um desses merece destaque especial: Dona Nadir, uma liderança incansável do Samba de Pareia. É ela quem comanda as ações da roda que gira ao som do batuque do atabaque, da onça e de uma espécie de alfaia, tocados pelos homens, enquanto cerca de 20 mulheres batem seus tamancos em duplas, as famosas “pareias”.

Da voz de Dona Nadir que sai o grito de orgulho dos presentes. “Na Mussuca eu nasci / na Mussuca eu me criei / com o Samba de Pareia na Mussuca morrerei”. Em depoimento, em estado de euforia, Dona Nadir não escondeu o encanto com a energia que sentiu no Sarau Debaixo.

Quando perguntei sobre a relação do Novembro, ela foi precisa: “É um mês muito especial, porque a gente é da cultura negra. A gente se sente muito feliz do por ter esse privilegio do público aplaudindo a gente, de conciliar a cor da gente. O pessoal gosta da gente. Toda cultura popular brasileira vem da cultura negra”.

O Samba de Pareia é acionado para o festejo toda vez que nasce uma criança na Mussuca, ainda que sua origem seja relacionada ao dia 23 de julho, de algum ano desconhecido da história da comunidade. Afinal, pouco importa o calendário do branco.

O Povoado da Mussuca é desassistido pelo poder público, carente dos serviços básicos de educação e saúde e suas crianças sofrem com a poluição provocada pela produção de cimento. Ainda assim são servidos de uma imensa riqueza cultural, e o mais importante: a compreensão o domínio da sua história e o orgulho do seu passado de resistência.

A presença do Samba de Pareia do Povoado da Mussuca no Sarau Debaixo não terminou em si. Foi uma representação de cada comunidade remanescente de Quilombo no Estado de Sergipe: Maloca, Brejão dos Negros, Mucambo, Terra Dura, Piragy, Patioba, Alagamar, e tantos outros conhecidos, desconhecidos, reconhecidos e não-reconhecidos.

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Dona Nadir, do Samba de Pareia da Mussuca / foto: Fernando Correia

Quilombo é resistência

Das 196 comunidades Quilombolas reconhecidas em todo o Brasil, 19 são sergipanas. Um número que, pelo que apontam os movimentos sociais, poderia ser muito maior: apenas 6% das comunidades quilombolas do país tiveram suas terras tituladas desde a promulgação da Constituição de 1988, que garante esse direito.

A Comissão Pró-Indio, uma das organizações que acompanha de perto o tema, aponta que os principais entraves para a titulação de novos territórios quilombolas está na estrutura defasada do corpo técnico do Incra, além dos sucessivos ataques, através de decretos de leis e mesmo de ações judiciais, movidas por setores conservadores da política brasileira.

Esses setores estão localizados especialmente na base do Governo Federal. As gestões do Partido dos Trabalhadores, tanto sob o comando de Lula, quanto de Dilma Rousseff, bateu recordes negativos: apenas 16 titulações em 10 anos. Dos processos em curso no Incra na ayualidade 88% não passou ao menos da fase de protocolo.

O povoado da Mussuca, por exemplo, titulado em 2006 com certificado da Fundação Cultural Palmares, ainda aguarda o processo de desapropriação de algumas terras. A tensão política que envolve os quilombolas e os fazendeiros e latifundiários da região é grande, e o processo, a depender da vontade política mostrada até aqui pelo poder público, ainda deve perdurar.

foto: Fernando Correia
foto: Fernando Correia

Ontem senzala, hoje favela

É possível dizer que Aracaju é uma cidade formada por comunidades negras engolidas pelo “progresso”. Da mesma forma que foram e continuam sendo combatidas fisicamente pela força do Estado, sofrem com a criminosa resignificação das suas origens. A começar pelos seus nomes.

Não nos enganemos. Os bairros de “Santa Maria e “Getulio Vargas” são duas peças armadas pelo homem branco. No coração dessas comunidades estão dois quilombos que devem ser devidamente reconhecidos: a Terra Dura e a Maloca, respectivamente. Reafirmar isso diariamente também é parte de uma ação política.

Dois pontos aparentemente distintos se cruzaram no Sarau Debaixo. Ambos representam de forma autêntica a energia da cultura negra em ambiente urbano, mais precisamente vindas dos becos e vielas da periferia sergipana.

O primeiro a ser destacado é o surgimento, ou a renovação, de uma nova cena do Hip Hop sergipano, tão bem representados no Sarau Debaixo por rimadores e MCs de primeira linha. Saídos de diversos bairros desprivilegiados da cidade, jovens negros de pele – e outros negros de espírito – fazem a ponte da música preta universal, falada em forma de protesto, com a realidade aracajuana: idêntica, se falarmos da opressão e extermínio promovidos pelo poder.

O segundo ponto que é preciso ser destacado é o renascimento do MangueaBeat, um som global, mas autenticamente nordestino, que ganha em Sergipe um representante de muita responsabilidade. Os pés na lama dos mangues aterrados e sufocados de Aracaju, e a mente na imensidão.

É a sonzeira da Kilodinhame, que mesmo depois de 3h intensas de arte e poesia no Sarau, assumiu os microfones e o batuque e não permitiu que uma única alma se desse ao luxo de parar quieto.

A Afrociberdelia, que Chico Science fundou e definiu como “a mistura do maracatu, cibernética e psicodelia” está mais viva que nunca no ritmo da Kilodinhame. Uma banda consciente do papel que cumpre ao se fundir com um movimento cultural como o que se consolida a cada Sarau Debaixo.

foto: Janaína Vasconcelos
foto: Janaína Vasconcelos

Zumbi é o senhor das demandas

Superada a meia noite, chegava quarta-feira e dava as boas vindas ao dia 20 de Novembro. Dia de saudação da morte do guerreiro e líder do Quilombo dos Palmares, o negro Zumbi, aquele que não se entregou.

Sua figura era tão poderosa que nem mesmo a tentativa do poder de humilhá-lo foi suficiente. Após a traição, foi capturado, quando cortaram sua cabeça e lhe colocaram o pênis dentro da boca, para expor em praça pública. A ideia era torná-lo um “mortal” e retirar a áurea de “deus” que, supostamente, os negros escravos teriam de sua liderança.

Não entendiam os poderosos que Zumbi, tal qual todo aquele que devota a sua vida pela libertação de seu povo, se torna imortal pelas suas ideias e pelos seus feitos. O povo negro do Brasil mantém acesa a chama de um líder que não se rendeu, batalhou até o fim, e segue sendo um farol, um exemplo, e um símbolo da luta do povo negro.

O Sarau Debaixo e todos os grupos e indivíduos que o compõem o saudaram. Seguiremos saudando.

 

*Irlan Simões é jornalista e membro da diretoria da REVER

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