Desculpe o modo de dizer, mas a luta é um dever

foto: Portal Infonet
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Relato de jornalista que presenciou truculência da reintegração de posse na Ocupação Nossa Senhora do Carmo, pela Tropa de Choque, em pleno dia da Consciência Negra 

*por Bárbara Nascimento

Madrugada intensa, assembleia cheia e muito trabalho. Cada um e cada uma ao seu modo contribuía para a construção da resistência à reintegração de posse da Ocupação Nossa Senhora do Carmo, que aconteceria ao amanhecer do dia da consciência negra, no povoado Aguada, localizado a poucos minutos da cidade de Carmópolis.

 Eram as negras e negros conscientes do seu papel na história que ali se organizavam. E embora o episódio seja repleto de tristeza, esse espírito coletivo é sempre caminho.

 Logo cedo, quando os ocupantes ainda tomavam o café da manhã coletivo e se reversavam na fiscalização das barricadas erguidas durante a noite, a polícia militar chegou. Pouco diálogo e uma única missão: fazer valer a ordem. Mas quem faz a vida de suor e de sonhos não arreda o pé. Decidiu-se resistir.

 A resistência era acompanhada também de um árduo trabalho da comissão de negociação da ocupação, do advogado Igor Lima e dos defensores Alfredo Nikolaus e Miguel Cerqueira. Não bastou. A truculência prevaleceu. Tiros de balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo foram disparados contra crianças, gestantes, idosos, sem um pingo de respeito à dignidade humana.

 Não satisfeitos com a repressão coletiva daqueles que lutavam por direito à moradia, a polícia orquestrou uma série de prisões arbitrárias. Até mesmo um morador do povoado que passava pela rua foi detido e conduzido para a delegacia, perdendo o seu dia de trabalho e sendo humilhado.

 No total, onze presos. Se já cantaram em outros tempos que ‘todo camburão tem um pouco de navio negreiro’, podemos dizer, com toda certeza, que a cela onde ficaram os presos acusados de desacato e resistência refletia exatamente essa mesma sentença.

 Hoje prevaleceu a arbitrariedade, a negação de direitos e o despejo de 350 famílias, mas amanhã vai ser outro dia. Desculpa o modo de dizer, mas ocupar é direito e a regra nunca será ceder. Ao povo pobre, preto e favelado nosso apoio e solidariedade.

 *Bárbara Nascimento é jornalista e acompanhou a ação de reintegração de posse da Tropa de Choque no povoado Aguada.

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