Do Maio de 68 à Marcha das Vadias: afinal, somos contemporâneas?

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Inaugurando o espaço dedicado ao fundamental debate feminista na REVER, Claudia Kathyuscia faz breve histórico das lutas das mulheres e suas principais influências até os dias de hoje

*por Claudia Kathyuscia

Em tempos de rememoração dos 45 anos do efervescente contexto político de maio de 68 e de suas controvérsias implicações para o rumo da política, vale destacar seus efeitos sobre o movimento feminista.

O maio de 68 foi marcado por um período de sucessivas manifestações políticas em vários países (França, Itália, Alemanha, Estados Unidos, Brasil…) sob o prisma das reivindicações de liberdade individual e por uma nova cultura política, marcando assim um divisor de águas para os movimentos políticos posteriores. É nesse contexto que o movimento feminista firmou-se e se desenvolveu. Na pauta estava reivindicações de liberdade individual, sobretudo, a sexual.

Há quem afirme que o movimento feminista só surgiu a partir do maio de 68. Entretanto, voltando um pouco no tempo, é possível perceber que desde a revolução francesa já se apresentava os primeiros sinais do movimento feminista, através das reivindicações da igualdade e liberdade, na qual se incluía a luta pelo direito ao voto feminino.

Embora essas primeiras reivindicações das mulheres estivesse cunhadas por ideais liberais, foi a partir do século XIX que começou a surgir os movimentos reivindicatórios e revolucionários por parte das mulheres sob a influência da perspectiva anarquista e, sobretudo, comunista; mediante um cenário de fortes greves operárias, em que as mulheres foram as principais protagonistas, bem como as vítimas da repressão (o que deu origem ao dia 08 de Março como o Dia Internacional da Mulher).

Vale ressaltar, que a partir da conquista do direito ao voto, da inserção das mulheres tanto no âmbito das instituições escolares como no mercado de trabalho, o movimento feminista passou por um processo de refluxo, destacando ainda que, a conjuntura política influenciou para desmobilização do movimento. Em vários países vigoravam regimes autoritários (aqui no Brasil passávamos pela Era do Estado Novo). Nesse sentido, podemos afirmar que o movimento feminista é contemporâneo também desse momento histórico.

Fomos contemporâneas das discussões sobre a condição feminina e das relações de gênero, que precedeu o maio de 68, por meio da impactante obra da Simone de Beauvoir, o Segundo Sexo (1949). Esta influenciou de forma decisiva o movimento feminista, ao denunciar as raízes socioculturais da desigualdade sexual. Explorada e oprimida, a mulher esteve numa posição de desigualdade em relação ao homem. No entanto essa submissão é resultante de uma construção social, em que a mulher não ocupou espaços sociais enquanto protagonista ao longo da história humana, “os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições” afirmou a aludida autora.

Deste modo, é possível concluir que, as contribuições de Beauvoir foram de grande relevância na formulação da teoria feminista, e que mais tarde adentrou no próprio movimento libertário de Maio de 68.

Assim, a partir da década de 60, o movimento feminista ganhou nova roupagem ao adicionar em seus princípios − consequentemente nas suas frentes de luta − a necessidade de questionamento e desconstrução das raízes culturais da desigualdade entre os sexos.

Colocando em xeque a ideologia machista dominante do ‘eterno feminino’, na qual afirmava que mulher está destinada ao lar e a família, por ser o sexo frágil e inferior ao homem. Deste modo, o movimento feminista pautou por mudanças nos costumes e na quebra dessa assimetria que justifica a dominação masculina. Portanto, a bandeira reivindicatória era de que não bastava ter útero: era preciso tornar- se mulher.

Além disso, é importante destacar que os anos 60 também se caracterizaram pela amplitude no debate político, a partir das compreensões de que as contradições sociais não estavam somente no âmbito das estruturas econômicas, mas também em outras esferas que exercem relações de poder e de dominação.

Demonstrou que o indivíduo não está somente impregnado por relações sociais de produção, mas também por relações de sexo, de etnias que também afloram as opressões. A partir disso, é que os movimentos da época trouxeram a público, debates que estavam confinados à esfera privada; e, o individual para o campo do político, tornando-o assim, coletivo. Uma vez que, concebia- se o ser social não somente limitado a suas estruturas sociais de classe, mas também havia estrutura subjetiva em voga.

Em suma, o novo movimento feminista demonstrou que a condição de mulher não é resultado de fator biológico, pelo contrário, é fruto de um processo histórico de relações sociais, e que se utiliza de uma ideologia pra legitimar tal diferença de papéis sociais, para camuflar uma relação de poder entre gêneros. Sendo, então, a condição feminina uma construção histórica, e não uma natureza imutável. Portanto, a identidade de gênero masculina ou feminina (e o espectro de possibilidades entre esse binarismo) está sendo constantemente (re) construída socialmente.

Se remontarmos o movimento feminista de hoje com o de maio de 68, é notório que são suas contemporâneas, mesmo entendendo a evolução histórica do movimento. Desde 2011, vem ocorrendo  a Marcha das Vadias em várias capitais brasileiras como expressão reivindicatória do direito a liberdade social e sexual, bandeiras que também foram erguidas em Maio de 68, sob o lema das novas relações amorosas, da emancipação da homoafetividade, e das novas identidades de gênero (transsexuais; transgêneros), enfim, do direito à liberdade.

Em Aracaju não seria diferente, pela segunda vez, na capital sergipana, as mulheres foram às ruas. Marcharam hasteando a bandeira do combate à cultura machista, construída socialmente ao longo dos tempos, na qual concebe a mulher como sendo propriedade social e sexual do homem, logo, podendo justificar qualquer tipo de violência sobre ela.Essa dominação masculina é reforçada pelo patriarcado, pelo fundamentalismo religioso e, sobretudo, pela ideologia dominante de opressão e exploração capitalista.

A violência doméstica, por exemplo, é produto do machismo, quando determina o direito de posse do homem sobre a mulher, naturalizando, justificando e banalizando o uso da violência contra a mulher como sendo uma ação corretiva. É por isso que nos deparamos com dados alarmantes de violência doméstica: no Brasil a cada 15 segundos uma mulher é agredida, ocupando assim o 7º lugar em homicídio de mulheres. O estado de Sergipe ocupa a 17º posição no ranking nacional de feminicídio, sendo que em apenas cinco meses deste ano de 2013 já foram registrados nas delegacias cerca de 400 casos de violência contra a mulher, isso os que chegam a serem registrados.

É importante destacar que, além da banalização da violência doméstica a mulher violentada fica aquém das precárias condições de assistência que o Estado dispõe a exemplo da não existência de uma delegacia de mulheres que funcione 24 horas; da falta tanto de profissionais humanizados como de casas- abrigos. É por decorrência desse cenário que ocorreu pela segunda vez em Aracaju a Marcha das Vadias. A marcha que se propõe a combater uma cultura machista de sociedade, de que o modo de trajar da mulher justifica a violência sobre ela.

Por fim, percebe-se uma resignificação dos ideais levantados por uma juventude transgressora (de Maio de 68) que ousou em querer desconstruir valores conservadores e pautar novas concepções de amor, de cinema, de cultura, de fazer política, isto é, de um novo modo de vida societário. E é sobre esse horizonte que o movimento feminista de hoje se norteia.

Uma vez que, conquistar a libertação das mulheres e homens de toda e qualquer forma de dominação, subordinação, opressão, seja ela de gênero, etnia ou orientação sexual, se essa luta for acima de tudo de classe. E que essa conquista deve ser no sentido de transformações objetivas e subjetivas que garantam a todas e a todos as diferenças, sem que estas se traduzam em dominação e subordinação de um pelo outro.

*Claudia Kathyuscia é cientista social e militante feminista

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