A louça de segunda, canções de Odair e a danada da filoginia.

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“O cara quer ter um filho, quer ser pai, ele não tem este direito? Devagar com a micareta que o trio é de papel, quem o cabeludo acha que é pra suplicar o comprimido da moça em cadeia nacional?”

 

*Henrique Maynart

Lavar a louça acumulada do final de semana é uma saída e tanto pra driblar a preguiça de segunda. Bucha, bombril e água corrente pra tapear a ressaca nas beiradas do tédio. Aproveito o ensejo pra estrear a coletânea do Odair José que adquiri no camelô mais sacado da Coroa do Meio, detergente e sofrimento borbulhando amor pela pia atolada.

Revisitar a pieguice que transborda no peito, entre a colher de feijão e a frigideira pregada na farofa, trás à tona a grande sensibilidade contida nas canções de Odair. O trovador das domésticas, babás e prostitutas teve boa parte de suas canções barradas pelo moralismo civil-militar da censura, como “Revista proibida”, “Deixe essa vergonha de lado”, “Cadê você”, dentre uma penca de belezuras musicais que ensaboou minha cozinha de paixão. Diferente do que aponta o senso comum, o brega questionou e subverteu muitos “valores familiares”como a obrigatoriedade do casamento, a virgindade e a condenação moral da prostituição.

Eis que a vitrolinha capenga roda o clássico “Uma vida só!”, mais conhecida como “Pare de tomar a pílula”.

Os talheres se entreolham cismados pela própria natureza, a torneira engasga um jato fino de água da DESO. Porra Odair… A canção conta a história de um cara apaixonado, atormentado com a decisão da amada em adiar o filho do casal. Já viu tudo, zé fini e passa a régua.

Mas qual o problema em pedir, suplicar, fazer promessa à Nossa Senhora da Luta de Classes, tudo o que puder pra que a danada da esposa pare de tomar a porra do anti-concepcional? O cara quer ter um filho, quer ser pai, ele não tem este direito? Devagar com a micareta que o trio é de papel, quem o cabeludo acha que é pra suplicar o comprimido da moça em cadeia nacional?

O engraçado é que esta música, pasmem, foi censurada lá pelas bandas de década de 60. Sabem por que? Simplesmente porque a multinacional de contraceptivos Benfam, havia acabado de firmar um puta acordo com o Ministério da Saúde a fim de promover uma política de redução da natalidade nos “bairros carentes”. Prestem bem atenção: Redução de natalidade é laqueadura de trompa involuntária, não é planejamento familiar, a autonomia das mulheres não era respeitada nestes procedimentos que visam a higienização do povo mais pobre desse país.

Minha coroa me comentou ainda hoje sobre essa época, dos tempos de enfermeira lá na Soledade. Voltando ao que interessa, o governo brasileiro não queria uma música que convencesse boa parte das mulheres da perifa a encerrar o anticoncepcional ou evitar a gravidez de qualquer maneira, e a censura proibiu esta canção por anos. Como a Benfam havia firmado contratos na Argentina e no Chile , a música de Odair também foi proibida por lá.

Pausa pra enxugar os pratos: O que a desgraça da censura, da laqueadura involuntária e o pedido de Odair José têm em comum? Todos estão cagando e andando para a decisão e o direito das mulheres sobre o seu corpo e as suas vidas.

Quem vai carregar a criança na barriga, interromper ou comprometer a vida profissional, quem vai passar por uma série de alterações em seus corpos? Não são elas? Pois então, quem decide isso são as moças, senhoras, senhoritas, damas e vadias sobre o quê e como serão suas vidas, né camarão?

O CD chega ao final e outras tarefas da vida clamam por atenção. Entre um copo e outro na empilhadeira, a toalha, embebida de água e certeza, dá o tom na nota final: Romantizar, respeitar e cultivar todas as formas de amor são fundamentais, enxergar homens e mulheres na ponta densa do carinho e do torpor sem qualquer estigma opressor pode e deve ser estimulado entre as pilhas e poesias da rua. Porém, este olhar sensível e humano não nos dá o direito, em qualquer hipótese, de ditar como as mulheres devem seguir suas vidas, seu prazer, seus amores e seus corpos.

Odair, você é o cara e eu pago pau pra você, mas nessa você vacilou bonito. Enxugar a pia e partir pra labuta que por hoje já deu..

*Henrique Maynart é jornalista

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