Aracaju: ‘Ninguém sabe, ninguém ouve, ninguém vê’

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“Privado é aquilo que acontece em casa, entre amigos e parentes, que às vezes discordam, mas só raramente se devoram. Alguém duvida que seja isso que acontece na Câmara?”

*por André de Souza

Quero trazer ao público uma noção que peguei emprestado de uma amiga filósofa quente, a noção da palavra “público”. Público é aquilo que aparece, aquilo que é ou pode ser ouvido e visto por todos e que é amplamente divulgado. É esse sentido que usamos quando dizemos que fulano de tal é uma figura pública.

Essa figura aparece, está à vista de todos. Nesse sentido, o que é público se opõe ao que é privado, àquilo que acontece privadamente, em sua casa ou em qualquer lugar que não possua o caráter de estar sendo visto e ouvido por todos: um show na praça é público, uma roda de violão em sua casa é privada.

Dizem que o que nos garante a realidade do mundo é justamente o fato de poder comunicar a experiência da realidade com outros. Como quando a gente pergunta: você viu aquilo passando? Você viu fulano? Você ouviu sicrano? Você viu a merda que a prefeitura tá fazendo lá na Beira-Mar?

É assim, nos comunicando sobre o ocorrido, o visto, o sentido, que chegamos a uma espécie de compreensão recíproca e seguimos felizes e contentes, convencidos de que não somos loucos. Talvez bem seja por esse caráter público da realidade do mundo que quem alucina é taxado de “louco”: sua realidade é privada, não pode ser comunicada, pelo ou menos não como se quer que seja (a não ser quando é ordenada ou transposta ou recriada em alguma imagem ou sentido, como uma obra de arte).

Bom, vocês devem estar se perguntando por que porra eu to falando do que é ou não é público. A resposta é simples, pra falar do assunto que mais adoramos e mais odiamos, ao mesmo tempo, como numa espiral reversa sem fim: política!

Se “ninguém sabe, ninguém ouve, ninguém vê”, como algo pode ser real? Se ninguém sabe o que nosso eleito está fazendo a respeito das promessas que fez na última eleição, como isso pode ser tratado publicamente, se tornando presente, à vista, e por isso real, palpável, comunicável? Se ninguém sabe os motivos ocultos pelos quais a prefeitura gasta o dinheiro do contribuinte (imaginar é um ótimo exercício de crítica), como eles podem ser questionados, se nem existem em um mundo que seja comum a todos?

É assim, longe de todas as vistas, que a vida política, que deveria ser pública, acontece de forma privada. A partir do momento que vocês votam em um candidato, a vida política se torna privada. E duvido que o político se sinta na OBRIGAÇÃO de dar satisfações públicas sobre suas ações. A ação política é tão privada que ninguém vê na TV nada parecido (quando muito em momentos de crise). Ninguém vê João Alves na TV explicando detalhadamente os motivos pelos quais as obras que ele adora fazer estão sendo feitas.

Mas não, alguns vão dizer que existe a casa do povo, a Câmara Municipal de Aracaju. Esse templo sagrado que “abarca e está aberto a toda a população de Aracaju”; pois bem, esse templo é uma mentira. Nada lá é do povo.

A câmara municipal de Aracaju tem mais cadeiras para os vereadores e seus assessores que para o cidadão já destituído de autoridade política. Nós, meros seres sem importância, temos que sentar longe dos vereadores, numa bancada separada do altar dos nossos nobres representantes. Além de sentarmos longe e segregados, podemos gritar a vontade que eles fingem que não ouvem (a não ser, é claro, quando gritamos tão alto que magicamente aparecem paredes pixadas, vidros quebrados, processos judiciais, denúncias públicas…).

O voto do legislador, do vereador, é secreto, ou seja, ninguém sabe quem votou em quem, quem votou em quê, ninguém sabe quem veste ou tira a carapuça. Ninguém sabe, ninguém ouve, ninguém vê. Mais ainda, o procedimento comum é o de que o que irá aparecer na audiência do dia já foi pensado, mastigado, reunido, criado, acertado, acordado, bem antes de a audiência acontecer.

Privado é aquilo que acontece em casa, entre amigos e parentes, que às vezes discordam, mas só raramente se devoram. Alguém duvida que seja isso que acontece na Câmara? Pois mesmo que haja uma disputa e que vidros sejam quebrados e abajures sejam jogados, só quem fica sabendo é a vizinhança, quem está próximo, quem circunda o território. Só quem ouve a fofoca são os privilegiados ou quem gosta de ficar de butuca (que geralmente são pessoas mal vistas, são chatos, insatisfeitos, mas na verdade são verdadeiros heróis anônimos).

Ano passado foi sancionada a lei de transparência pública, que basicamente regulamenta o direito cidadão de exigir informações sobre qualquer assunto que se dê em qualquer órgão político.

Sabendo disso, eu e um amigo fomos até a prefeitura exigir nosso direito cidadão de ver as contas do Forró Caju. Fizemos um ofício, tudo bonitinho, com e-mail, nome, etc. Surpresa? Jamais. Nunca recebemos informação nenhuma. Nem com a lei por trás exigindo o direito de sabermos quanto gastaram com Calcinha Preta, Calypso, etc.

É assim que a vida política, que deveria ser pública, na verdade é um joguete privado. A maioria sobra, é assim que acontece.

*André de Souza, curioso, quer ser livre, mas tá osso.

**A frase é emprestada e serve de homenagem à banda Reação.

2 comentários sobre “Aracaju: ‘Ninguém sabe, ninguém ouve, ninguém vê’

  1. boquito : *

    esses dias, anteontem, fui na câmara aqui em pirambu:

    – nunes, da mercearia, recebeu título de cidadão pirambuense
    – a rua do estação verão vai levar o nome do falecido dono do restaurante
    – emendas de lei foram votadas
    – a fundação pro-tamar recebeu o título de utilidade pública
    – cinco de julho será o dia do evangélico aqui — feriado municipal

    e muito mais. em duas horinhas, muito mais.

    quem foram?

    eu, nunes e a viúva do falecido silva, dono do restaurante.

    somente nós três e agregados deles — ninguém estava por outro motivo para além de títulos e ruas.

    eu? prometo uma vez por mês assistir a uma sessão. pelo menos.

    porque pelo menos aqui a gente pode sentar pertinho da bancada — a não ser que me tirem.

    :*

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