Pré-Sal: riqueza fictícia, disputa irreal

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O petróleo ainda deve embalar os sonhos dos movimentos sociais? Leomir C. Hilário aponta como, ao invés de contestar o jogo especulativo por trás do Pré-Sal, estamos pensando em como repartir uma riqueza fictícia.

 

*por Leomir C. Hilário.

 

Nos últimos anos, o chamado “pré-sal” se tornou uma das mais rentáveis plataformas políticas do Brasil. Nas inúmeras propagandas do governo, faz-se questão de mostrar o espírito para frente, na velha fórmula do Brasil como país do futuro. No entanto, pouca gente parou para pensar que, na verdade, chegamos, como sempre, atrasados ao bonde da História.

Já existe a hipótese, relativamente consolidada, de que atingimos o chamado Peakoil, isto é, o pico do petróleo ou o Pico de Hubbert, que denota o pico da produção de petróleo mundial, sendo que tal produção tende a decrescer paulatinamente. A atual crise estrutural do capitalismo é também sua crise energética [A este respeito, ver “O combustível da máquina mundial” de Robert Kurz].

Estaríamos nós chegando de maneira atrasada novamente, como detentores de uma cartela enfim preenchida de um bingo que já se encerrou? Ou, para perguntar de outro modo, teríamos em mãos um bilhete cujo prêmio foi retirado pelas outras potências mundiais há mais ou menos 50 anos atrás?

O declínio da OGX e da fortuna de Eike Batista parece ter sido o prenúncio do grande desastre que se avizinha e que levará, desta vez, não uma fortuna abstrata, mas boa parte da finança nacional brasileira. Recapitulando: Eike Batista jogou no mercado uma previsão (embasada, científica, incontestável): suas empresas conseguiriam extrair de 15 a 20 mil barris de petróleo por dia, mais do que o dobro do que a Petrobrás de então. Em dois anos, Eike Batista figurou entre os mais ricos do planeta.

No entanto, em junho de 2012 a realidade bateu à porta: suas empresas tiravam somente 5 mil barris por dia. Em novembro de 2013, alguns de seus poços não produziram nenhum barril em dois meses e a previsão, agora, é de que há poços que podem parar de produzir definitivamente em 2014.

Porém, ao contrário das tentativas atuais de fazê-lo parecer “desesperado”, Eike Batista se mantém, transformando seu dinheiro abstrato-financeiro investido em outras formas de investimento em seus vários ramos. Se deu errado, é a velha estratégia da Holotúria: basta desfazer-se de uma parte de si para continuar a viver. Viável para um indivíduo e um conjunto de investidores, mas impossível para uma Nação continental como o Brasil.

 A história da OGX já está próxima do fim, com direito a calotes e o espaço cada vez maior para tratar a jogada de Eike Batista como simples blefe. Paulatinamente fica claro como se tratou de uma excelente jogada no interior do capitalismo-cassino, fictício. Ganhou quem tinha que ganhar, os acionistas; e perdeu quem sempre perde, os trabalhadores.

 Recentemente foi o Brasil, enquanto nação, que se aventurou no capitalismo-cassino querendo leiloar o que não tem, num jogo de blefe patético e decadente. É bom lembrar, de passagem, que o BNDES emprestou 10 bilhões a OGX. Mas, para o atual presidente do BNDES, o senhor Luciano Coutinho, o colapso da OGX foi um “acidente”. Teria o ilustre senhor a coragem de dizer isso aos trabalhadores desempregados por causa de tal acidente?

 Voltemos. Destinar 100% dos royalties para educação já anunciava o fracasso porvir. O governo dava seu primeiro passo em direção ao reconhecimento dessa ficção tornada real que se tornou o pré-sal, tentando sanar o prejuízo insano transformando-o em política social. Fracassadamente, para variar, uma vez que os royalties não cobrem nem os 10% do PIB para a educação.

Sem problematizar a ficção real que o capitalismo contemporâneo se tornou, toda a esquerda partidária que ainda vale a pena prestar alguma atenção (PSTU, PSOL e PCB) acreditou, sem contestação alguma, nos números surreais como três trilhões no Campo de Libra. Na argumentação desta esquerda partidária, o Brasil procuraria vender tal campo por 15 bilhões.

 Os números são tão surreais que não dá para acreditar mais em privatização, nenhum governo, por mais maluco que fosse, abriria mão dessa quantia, se ela fosse real, mas ela é puramente especulativa, ainda que se apresente sob a forma de comprovações científicas, como as previsões feitas pela OGX.

 O governo do Brasil estaria disposto a perder tanto dinheiro assim? Ou se trata, na verdade, de uma última tentativa desesperada de fazer rentável um negócio completamente descabido e falido? Se o negócio era tão rentável, por que apenas um consórcio apareceu no Leilão, que durou cerca de 15 minutos para terminar e com claros sinais de um pré-acordo? A conta não fecha… E esse consórcio foi, na verdade, um acordo entre algumas empresas, dentre elas a… Petrobrás!

 Quando uma empresa como a OGX quebra, mais de 2,6 mil de trabalhadores são demitidos, e quando uma empresa do porte da Petrobrás aposta suas fichas em um negócio tão arriscado, isto é, de investimento tão alto cujo retorno é mais do que duvidoso? Quantos trabalhadores pagarão a conta? É natural e compreensível que o governo brasileiro veja essa oportunidade como grande possibilidade de ganho de dinheiro, por isso ele é neoliberal, mas… à esquerda?

 Ocorreu, evidentemente, um processo de privatização e isto é indiscutível. Porém não é tudo e nem o mais decisivo. E talvez não fosse o ponto a partir do qual a esquerda partidária devesse se ancorar para ir adiante, se o objetivo dela for instaurar uma nova ordem social para além do capital.

 O que está em jogo, mais do que nunca, é todo um modo de produção que agora se move pela especulação, à revelia de qualquer mecanismo de decisão política. Ou seja, não são as necessidades humanas reais que mobilizam a produção, mas sim o jogo abstrato da ficção que impulsiona a produção. Antes de tomar como certo os números absurdos do pré-sal, deveríamos criticar esse processo de produção abstrato, destrutivo e alienado, do qual o petróleo é uma importante peça de engrenagem.

 Os produtos oriundos do pré-sal não deveriam fazer parte do projeto de emancipação da esquerda partidária, pois esse produto é abstrato, irreal, fictício. Além disso, esse processo de extração de petróleo destrói a natureza e pode causar danos imprevisíveis. Trata-se sobretudo de um tipo de trabalho extremamente sofrido e arriscado aos trabalhadores. O trabalho em plataformas realiza uma tendência do capitalismo atual de especialização e automatização da produção, criando pouquíssimos empregos, dentre outros fatores expressamente negativos.

 Um bom exemplo para entender isso (de como o jogo abstrato da ficção que impulsiona a produção) é a cisão que há, hoje, entre a riqueza real e a fictícia. Enquanto a primeira, que é a soma do PIB de todos os países, fica em torno de 50 trilhões de dólares; a segunda, que envolve valor dos títulos públicos e privados, gira em torno de 170 trilhões.

 A riqueza material não suporta o tanto de riqueza fictícia acumulada. Quando a esquerda partidária quer fazer parte dessa riqueza fictícia, o que ela faz é desenvolver mais o capitalismo, o que significa mais destruição da natureza, mais desemprego estrutural e mais derrotas a ela própria.

A esquerda partidária, novamente, luta por “redistribuição das riquezas”. Silencia em relação às mazelas do modo de produção capitalista e de qual é o tipo de riqueza que ele produz. Não há mais fatia do bolo a ser retirada. É toda uma estrutura irracional e fictícia que está prestes a desmoronar e vem desmoronando há anos, após duas décadas de suposto crescimento econômico do Brasil.

 Toda essa orientação da produção para a abstração do valor que deve ser criticada, da qual o fenômeno atual do mito do pré-sal é seu exemplo emblemático. Não adianta querer repartir um bolo abstrato de valor fictício que não tem a menor condição de se efetivar nem em mercadorias de consumo, o que dirá enquanto produtos de satisfação social e individual.

Mais uma vez, parece que a esquerda partidária será a última a saber, quando suas palavras-de-ordem e seu programa já não fizerem mais nenhum sentido, ela talvez procure entender a situação. Mas, será tarde demais?

 Desde a primeira guerra mundial (ou desde 1848?), as forças produtivas são forças destrutivas ou forças produtivas do capital, ou seja, não são neutras, não são suportes de produção que bastaria uma gestão de esquerda para darem certo, em si eles carregam destruição e alienação. Sua primeira demonstração foi a mobilização das forças produtivas para, em vez de produzir, matar em massa os trabalhadores no centro do capitalismo.

 Desde então, é mais do que necessário que a esquerda pare de pensar no registro do desenvolvimento do capitalismo. O problema da esquerda não é somente a distribuição, mas também a produção. Porém, isso é conversa para uma outra intervenção.

 

*Leomir C. Hilário é colunista da REVER

 

4 comentários sobre “Pré-Sal: riqueza fictícia, disputa irreal

  1. Adendo do autor do dia 06/12/2013:

    Eike Batista deu o exemplo de fracasso nesse jogo especulativo fictício do petróleo atual, mas, num típico exercício de denegação, a Petrobrás fingiu que não era com ela. A esquerda, por sua vez, esperneou no Leilão de Libra, muito mais por causa dos altos valores em jogo do que qualquer outra coisa. Parece que se foi o tempo onde a esquerda entrava em batalhas para além do dinheiro e do Estado. Exemplo disso foi o último Leilão da ANP, mais um com pouco risco, pouca disputa, porém, como o dinheiro em jogo era pouco (“apenas” R$ 165,2 milhões), não houve muito enfrentamento… acontece.

    A perda de cerca de 10% no valor das ações da Petrobrás tem sido justificada pelo “reajuste de combustíveis”. Na cadência do “me-engana-que-eu-gosto” toda a mídia acompanha essa explicação. Uma desvalorização de 10% significa cerca de R$ 24 bilhões. Esse valor é quase o fluxo de caixa da Petrobrás. Em bom português, trata-se de uma queda alarmante. Já há previsões ruins para o ano de 2014 para a Petrobrás. A saída? Ela aprendeu com Eike Batista: está prometendo um crescimento expressivo em 2014 na produção. O futuro chega para todos, é bom lembrar.

    Mais uma observação: Guido Mantega, além de Ministro da Fazenda, é presidente do conselho de administração da Petrobrás. Sua explicação é a de que as ações flutuam no mercado, a depender do bom ou mau humor dele. Sei. Uma coisa é uma flutuação entre 1% e 6%… mas… em 10%? Aguardemos.

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