Ensaio Sobre a Cegueira Cultural

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“’Rapentistas’ como Zé Brow e Rapadura, que poderiam ser classificados como importadores de lixo norte americano, são grandes responsáveis pela aproximação da juventude com cultura popular tão defendida pelo apresentador em questão”

*por Marcio Souza

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas,
já éramos cegos no momento em que cegamos,
o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos,
Quem está a falar, perguntou o médico,
Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.”

(Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago)

Não consigo entender como em plenos avanços culturais e tecnológicos algumas pessoas ainda se mantenham fechadas a novas linguagens. Um certo sábado enquanto ouvia o programa Violas da Nossa Terra de apresentação de Abílio Barroso, na Aperipê FM, me chocou o nível de intolerância cultural por parte do mesmo. Na ocasião o senhor Abílio recebia nos estúdios o presidente da Associação Abraço (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária), que tinha por intuito apresentar como funciona a legislação em relação à organização e regulamentação de rádios comunitárias trazendo informações importantíssimas, porém o condutor do programa focou a entrevista em ataques a ramificações culturais que o mesmo considera nocivas.

Disparando uma rajada de “conceitos pré-concebidos” chegando até a chamar o RAP de lixo norte americano importado em containers, com músicas apologéticas ao crime. Alguns de seus argumentos são até de dignos de reflexão, mas, alguns pontos defendidos demonstram uma total falta de conhecimento ao objeto selecionado para o ataque.

Em um dado ponto da entrevista Abílio faz questão de separar de maneira incisiva o RAP do Repente ao dizer que “repente não é RAP!”, vetando através deste discurso qualquer forma de aproximação entre as duas culturas. Pode até ser, o RAP pode não ser repente, mas o que ele não pode ignorar é grande semelhança que existe entre as duas manifestações artísticas, a arte do improviso e a rima estão presentes tanto em um quanto no outro.

Talvez o senhor Abílio, este purista da cultura popular não saiba, mas, “rapentistas” como Zé Brow e Rapadura que segundo a linha de pensamento de Barroso, poderiam ser classificados como importadores de lixo norte americano são grandes responsáveis pela aproximação da juventude com cultura popular tão defendida pelo apresentador.

Acho importante o empenho deste senhor em defesa da cultura brasileira, porém sem partir para a intolerância cultural.

Quero justificar aqui o porquê repudio a atitude do senhor Abílio. Reconheço o esforço do mesmo em relação a sua luta para abrir espaço para cultura popular, mas precisamente o repente e a moda de viola na rádio difusão. Acredito que seja um marco na história do rádio sergipano. Mas isso não lhe dá o direito de rotular de lixo manifestações de culturas emergentes como o é o RAP, descartando este elemento como parte da identidade de muitos jovens dos dias de hoje.

Para defender a cultura brasileira, primeiro se faz necessário entender o que ela é. E o que é afinal a cultura brasileira? Ouso dizer que nossa cultura nada mais, nada menos, é uma cultura ANTROPOFÁGICA. Uma cultura que se alimenta de outras culturas, e isso vem desde o iniciou da nossa formação enquanto povo.

O nosso ilustríssimo apresentador como defensor ferrenho da nossa cultura deve apreciar uma boa quadrilha junina, que como todos sabem foi herdada da Europa, sendo assim uma dança presente em todas as festividades da nobreza, e trazida ao Brasil no século XIX, com a vinda da Corte Real portuguesa.

E o nosso forró tão amplamente conhecido, qual sua origem mesmo? Ah, é… Também é europeia. Daí alguns podem pensar: “mas e a farinha? a farinha é nossa, é a estrela da cultura nordestina.” Pois é, mas sua origem não é brasileira, até porque os povos indígenas que produziram e ensinaram os processos para obtenção de tal iguaria até então não eram considerados brasileiros, e às vezes acredito que até hoje não o são.

A lista de elementos culturais que são apresentados como brasileiros é gigantesca, porém, com um olhar mais aprofundado percebemos que todos passaram por um processo de apropriação e resignificação. É por isso que não coaduno com o pensamento do apresentador, e digo que ele peca como se mostra preconceituoso quando se coloca nesta posição, ignorando a origem e riqueza de nossa cultura cada vez mais miscigenada, unindo o popular e o erudito, o moderno e o tradicional.

Dessa forma, o que posso dizer é que este medo do novo é inconcebível, uma vez que na atual conjuntura cultural, os elementos se entrelaçam o tradicional apresentando-se ao novo, e o novo incorporando o tradicional.

Para encerrar, gostaria de dizer que não sou rapper, nem muito adepto do tipo de música que eles produzem, mas respeito o valor cultural deste elemento do Hip Hop e a forma como ele dá voz aos marginalizados, onde valendo-se deste mesmo contexto também se enquadram os repentistas, cordelistas e entre outros representantes de manifestações culturais não só do nosso Estado, mas de toda região nordeste.

 

*Marcio Souza é cronista da REVISTA REVER, morador do Coqueiral e uma voz em construção. 

2 comentários sobre “Ensaio Sobre a Cegueira Cultural

  1. É uma reflexão oportuna esta que foi levantada em seu texto, Márcio.O purismo cultural geralmente leva à intolerância em relação a outras culturas e culmina com o etnocentrismo.A cultura popular deve ser popularizada, mesmo que seja uma redundância.Unir as diferentes manifestações culturais que seguem com um mesmo objetivo,ser a linguagem dos que não tem voz nessa sociedade capitalista.Concordo com você que o rap é uma expressão popular das novas gerações de oprimidos e deve ser considerado sua importância.Suas raízes estão nos seus ancestrais afro, na Jamaica, nas favelas e periferias do mundo capitalista assim como o repente.Raízes devem ser consideradas, a partir da consciência de classe, unir para fortalecer a cultura popular de oprimidos e oprimidas, isso sim, vale a pena.

  2. Faço questão de comentar.

    Simplesmente uma crônica com “C” MAIÚSCULO de CRÍTICA. E uma crítica inteligente, fundamentada, articulada. Márcio, não estou surpreso. Eu já esperava algo grande vindo de você.

    A forma como você constrói o texto e tece os prós e os contras (sem rechaçar o locutor, porém deixando clara a tua opinião a respeito) mostra um nível de maturidade muito grande quanto a questão cultural. Aliás, a sua definição de “cultura antropofágica”, para mim, é algo genial. É algo em que acredito.

    Não só na música, mas na arte, na pintura, na literatura. O Brasil é, essencialmente, uma mistura canibal, visceral, de tudo. E não há nada de puro nisso. Mas também não é algo profano. De tanta mistura, algo novo surge. E essa novidade, ganha novos contornos, novas ideias.

    E uma ideia, deve sempre ser respeitada. E cultivada, claro!

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