O gargalo econômico de São Cristóvão

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Localizada na região mais rica de Sergipe, a histórica São Cristóvão sofre com o atraso e indicadores econômicos alarmantes. Economista da UFS aponta erros antigos e recentes que trouxeram a antiga capital à atual situação.

*por Irlan Simões

Um visitante desavisado em Sergipe poderia achar que a cidade de São Cristóvão é um dos grandes pólos econômicos locais, por estar localizada na Microrregião de Aracaju, a mais rica e com quase metade da população do Estado. Mas basta visitar o município com cerca de 440km² para perceber as precárias condições de vida da sua população. Ao analisar os dados e indicadores que ilustram o panorama econômico de São Cristóvão, fica clara uma situação alarmante para uma das cidades mais antigas do país.

Com 423 anos de fundação e conhecida pelo seu patrimônio histórico, a cidade que já foi capital de Sergipe vive hoje problemas sociais de cidades de grande porte. Uma população muito pobre, concentrada em regiões sem estrutura e carente de serviços públicos de qualidade. “São Cristóvão é uma cidade que está no seu limite”, afirmou em entrevista Elmer Nascimento Matos, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe, que realizou pesquisa intitulada “Impasses do desenvolvimento estadual: guerra fiscal em Sergipe e seus desdobramentos econômicos”, concluída em 2012.

Indicadores alarmantes

Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros e São Cristóvão compõem o grupo das cidades que hospedam 40% da população do Estado, na Microrregião de Aracaju. São elas as responsáveis por 51% do Produto Interno Bruto (PIB) sergipano. Em que pese, São Cristóvão está longe delas se considerarmos os indicadores socioeconômicos.

“O setor terciário corresponde a 70% da economia local. Isso significa que não há muitas opções de produção e consequentemente de empregos para sua população. Não há um setor industrial, por exemplo”, explica Elmer Matos, mostrando como São Cristóvão praticamente não tem capacidade produtiva.

Enquanto a cidade tem 78 mil habitantes com um PIB de R$ 414 milhões, a vizinha Socorro tem população estimada em 160 mil, mas seu PIB ultrapassa R$ 1 bilhão. Em termos médios, o PIB per capita de São Cristóvão está em R$ 5.579,71, enquanto o da cidade vizinha é de R$ 6 688,98 por pessoa. Em termos de índices de pobreza essa marca é ainda mais preocupante: 57% da sua população de São Cristóvão é considerada “empobrecida”, enquanto em Aracaju esse índice fica em 27%.

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Questões históricas que geraram atrasos

O economista Elmer Nascimento Matos pontua que é necessário recorrer a alguns eventos históricos para compreender o atraso de São Cristóvão com relação às outras cidades da região. Para isso ele remonta à década de 1980, quando uma crise financeira teve impactos violentos na economia nacional.

“Com a necessidade de honrar os compromissos financeiros, por conta dos empréstimos adquiridos (com taxas cada vez mais caras, principalmente com os Estados Unidos), o Brasil perde um ideal de ‘projeto-nação’. Com isso você tem um período no qual o país abandona a proposta de desenvolvimento em nome de uma busca pelo controle da inflação”, explica o professor.

Esse momento histórico – de restabelecimento de uma dependência financeira – desencadeia na década de 1990, numa série de acordos e normativas internacionais com inspiração neoliberal. Na busca de superar a crise, a “receita macroeconômica”, como ficou conhecida à época, apontava que era necessário impedir a intervenção do Estado na economia. Elmer explica o impacto: “Há uma mudança muito grande, porque então você tem aí toda uma mudança patrimonial com as privatizações, e não tem mais essa capacidade do Estado em articular políticas desenvolvimentistas ou políticas de crescimento”.

Em sequência, os efeitos das medidas “não-intervencionistas” teriam desdobramentos nos países e nas regiões mais empobrecidas do planeta. No Brasil, a resposta dada, inclusive na Constituição Federal, foi a adoção da “guerra fiscal”, estratégia de desenvolvimento econômico através da concessão de benefícios fiscais, que colocou as unidades federativas em conflito na busca de investimentos privados.

Sergipe, um estado pequeno de economia mais frágil, não tinha condições de disputar espaço com outros estados vizinhos. “Sergipe sofre um grande revés nesse período, principalmente porque tinha uma dependência muito grande de recursos oriundos de empresas estatais como Petrobras e também do setor mineral”, explicou Elmer Matos.

Economia insustentável

A pouca capacidade de atrair investidores privados, aliada à retirada quase total da participação do Estado na economia, fizeram de Sergipe um estado com poucas saídas para o seu desenvolvimento. De lá para cá, quando muito, o estado tinha um crescimento apenas próximo da média nacional.

Em 1991, quando a gestão de Antônio Carlos Valadares lançou mão do Plano Sergipano de Desenvolvimento Industrial, o Estado de Sergipe teve seu primeiro grande programa de atração fiscal. Mesmo naquele período, uma série de disparidades e desequilíbrios teriam contribuído com o atual estágio econômico de São Cristóvão. A começar pelos números.

“Na ocasião foram 206 empresas beneficiadas: 53 em Aracaju, 52 em Nossa Senhora do Socorro e apenas 6 em São Cristóvão. Isso mostra um momento histórico perdido por São Cristóvão”, afirma Elmer. Apesar de ser uma cidade que vivenciou formações sociais muito parecidas com a vizinha, a análise dos indicadores de Socorro mostram como São Cristóvão praticamente parou no tempo. Absolutamente nenhum setor da economia de São Cristóvão tem grande relevância no Estado. Pior: esses setores, juntos, correspondem a menos de 20% da arrecadação do município. “Praticamente metade dos recursos de São Cristóvão são oriundos de verbas da União. Outros 14,9% vêm do Estado”, explica o professor.

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Questões sociais

Outro grande problema na cidade é o crescimento desordenado da sua região urbana. Nesse sentido, aparecem com destaque os conjuntos Eduardo Gomes, Luiz Alves e Rosa Elze. São três grandes bairros localizados na periferia do município, mas próximos de Aracaju, e amplamente desassistidos.

Elmer volta a explicar as origens dessas contradições em opções políticas tomadas em períodos passados. “Em 40 anos a população de São Cristóvão cresceu de 20 mil para 80 mil habitantes. Isso não ocorreu pelo crescimento da população local, mas do transbordamento da população de Aracaju, deslocada através de políticas de habitação desses bairros”, explica o professor.

Dados do IBGE apontam que a população de São Cristóvão em 1980 era de 12.431 habitantes na zona rural, enquanto na zona urbana esse número era 11.703 habitantes. Em 11 anos, na pesquisa mais recente do IBGE, os números apontam um salto da população urbana para 46.233 habitantes, enquanto a zona rural passou a ser ocupada apenas por 1.325 habitantes.

O professor da UFS – que também convive com essa realidade, já que a instituição de ensino é localizada nesta região – pontua que muitos trabalhadores que residem nesses bairros têm seus empregos na capital. “Há um trânsito muito grande, e mesmo que não tenhamos um estudo mais aprofundado dos microdados do IBGE de 2010 para afirmar com precisão qual o seu perfil de ocupação, é certo que São Cristóvão não dá opções para sua população”.

A principal via de trânsito desses trabalhadores é a Avenida Tancredo Neves, e basta uma rápida observação em algum horário de pico para perceber o grande contingente de trabalhadores em bicicletas ou utilizando transportes públicos. Mas não só por conta do trabalho esse tipo de deslocamento ocorre. Elmer Matos lembra que houve o equívoco da não garantia de serviços básicos nessas localidades, demandas que até hoje não foram cumpridas. A população desses bairros recorre às estruturas de educação e saúde, por exemplo, de Aracaju.

O professor também fala como o conjunto Marcos Freire, em Socorro, também foi desenvolvido em um projeto muito semelhante, mas que foi inserido numa dinâmica econômica da qual São Cristóvão não se apropriou. “Você tem hoje o único varejo moderno fora da capital que fica em Socorro. Mas não só isso, você tem, nos bairros mais periféricos, um terceiro setor mais consolidado e presente”, finaliza Elmer.

*Irlan Simões é jornalista e membro da diretoria da REVER

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