Ora IêIê Ô – A lavagem em louvação ao Orixá das águas doces

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O 8 de Dezembro marca o dia de festividades em reverência ao orixá Oxum. Entenda a curiosa história desse evento que acontece há 31 anos, num artigo de Lumara Martins para a REVER.

 

*por Lumara Martins

 

“Ora IêIê Ô!”. Esta é uma das saudações mais proferida no dia oito de dezembro pelo povo de santo sergipano. É assim que os adeptos dos cultos afrobrasileiros reverenciam o orixá Oxum, clamando em voz muito alta para saldá-la. Podemos presenciar esse fato em eventos organizados por esse segmento religioso no Estado de Sergipe e nas casas de culto de religiões de matrizes africanas espalhadas pelo Brasil.

Segundo a mitologia do candomblé, Oxum é um orixá do rio do mesmo nome situado na África Ocidental. Seu culto foi introduzido no Brasil pelos escravos de origem ijexá. O domínio natural de Oxum são as águas doces, influenciando os rios, riachos e mananciais, comandando toda a água que brota da terra. Sua representação é de uma sereia, mas também é representada pelo peixe, este simboliza a fecundidade, a fartura.

Foi a partir da crença em Oxum e em Nossa Senhora da Conceição que se inicia em 1982 a Lavagem da Conceição em Aracaju. Expressando-se como uma manifestação cultural de caráter híbrido que combina práticas e símbolos das religiões afro-brasileiras e do catolicismo. Esta festa surge através de uma promessa feita por um grupo de oito estudantes do Curso Pré-Vestibular Visão que iam realizar seleções para entrar em cursos universitários. Assim, prometeram lavar as escadarias da catedral de Aracaju, por ser a igreja de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da cidade.

Apesar de ser uma tradição das religiões de matrizes africanas do estado de Sergipe e mais precisamente da capital metropolitana, a Festa da Lavagem foi construída com base no modelo festivo da Lavagem do Senhor do Bonfim que acontece em Salvador, Bahia. Essa influência se deu através do professor e artista plástico Otávio Luiz, que juntamente com os seus amigos enfrentaram o preconceito, agressões (verbais e físicas) para agradecerem a aprovação alcançada.

É somente na segunda edição que a festa agrega os adeptos do candomblé e da umbanda. Pois, com a mobilização de alguns terreiros que almejavam dar continuidade ao rito, os estudantes conseguiram manter a festa após se afastarem da sua organização. Um dos terreiros que está à frente da realização da festividade é o Centro Espírita de Umbanda Paraíso dos Orixás, o qual tem como liderança religiosa a yalorixá Angélica de Oliveira. Este centro vem coordenando e organizando a Lavagem.

Mesmo com as existentes complicações, inclusive de negociação com a polícia para a sua efetivação, a festa ocorreu todos os anos tornando-se um marco no calendário dos seus participantes. Além de sempre pautar o diálogo com a igreja. É com esse entendimento que no ano de 2001 ocorre a mudança do pároco da igreja e se estreita a conversa em uma compreensão do ato da lavagem como representação do ecumenismo religioso.

Por conseguinte a lavagem chega a um momento emblemático. Este se configura na permissão do cortejo entrar no interior da igreja para saldar a imagem da santa, geralmente com flores. Dessa forma, no interior da igreja os adeptos do candomblé e da umbanda entravam entoando os seus cânticos, saldando Nossa Senhora e Oxum.

No entanto, no ano de 2010, solicita-se a organização da festa que não haja a entrada no templo católico. Os representantes da igreja não permitiram a realização de rituais não-cristãos em um dos seus santuários. No mesmo ano, consegue-se pautar na agenda municipal mais uma data para visibilidade dessas religiões, instituindo o dia 08 de dezembro como o Dia Municipal da Mulher Afrorreligiosa. Contudo, essa manifestação fica sem poder entrar na igreja e isso acaba refletindo uma perda de espaço em suas lutas.

No dia 08 de dezembro vem sendo comemoradas as festividades para Oxum com a realização da Festa da Lavagem que está seguindo para a 31º edição, no próximo domingo. Ela consiste em um cortejo que tem a sua concentração na Colina do Santo Antônio e segue para a Parque Teófilo Dantas passando pela Avenida João Ribeiro, pela Avenida Simião Sobral e pela Avenida Rio Branco. Nesse trajeto os aspectos religiosos são retratados nas vestimentas dos adeptos, nas representações dos orixás, nos símbolos como os espelhos (insígnia de Oxum) e as quartinhas com água de cheiro que percorrem as ruas dando visibilidade para os cultos de matrizes africanas.

 

*Lumara Martins é mestranda em Ciências Sociais.

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