Informação em primeira pessoa ou um pedido de desculpas

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“Pelo constante exercício do distanciamento, muitos jornalistas tornaram-se afônicos. Suas palavras deixaram de falar por si para falar meramente do outro e pelo outro. Como se a função de contar a história suprimisse do jornalista a possibilidade de também ser personagem.”

*Por Nayara Arêdes

Do mais indiferente dos leigos até o mais erudito dos acadêmicos, todo mundo sabe a regra: jornalismo bom e sério é jornalismo objetivo e imparcial. Como acontece com outros tantos produtos, esta máxima foi comprada dos Estados Unidos por um preço salgado e engolida pelo Brasil sem pausa pra deglutição. Para ser digno de confiança – e de receber o salário no fim do mês –, o repórter que labuta na pauta diária deve observar e relatar, sem tomar parte na história.

Na terra onde o Tio Sam perdeu suas lustrosas botas, o culto à objetividade jornalística foi instituído nas primeiras décadas do século XX. Quem conta a história é um velho conhecido das aulas de Introdução ao Jornalismo, Nelson Traquina, baseado em outro veterano da área: Michael Schudson. Dizem eles que a experiência da propaganda na Primeira Guerra e o nascimento da profissão de Relações Públicas foram os responsáveis por instalar a paranoia.

De um lado, os jornalistas estavam mobilizados para convencer a opinião pública da necessidade de participação dos Estados Unidos na Guerra ao lado dos Aliados. Do outro, uma nova corrente liderada por um jovem de idoneidade duvidosa se utilizava dos veículos jornalísticos para atuar como advogada do diabo em nome de grandes impérios empresariais. Nesse cenário, a instituição jornalística perdeu a credibilidade do público, e até mesmo os fatos passaram a ser vistos como recortes de manipulação.

A objetividade e a imparcialidade, desta forma, tornaram-se as barricadas dos jornalistas. Muitas aspas, escrita formatada em terceira pessoa, abandono do uso de adjetivos e um desfile de fontes “credíveis” foram utilizados por quem produzia os relatos noticiosos para recuperar a fé do público. Mesmo anos mais tarde, poucos elementos desta cena foram alterados.

À parte o blá-blá-blá acadêmico de tempos idos e do lado de cá deste território chamado América, finquemos os pés na terra do Cacique. Por aqui, onde alguns poucos gatos pingados da classe jornalística se rebolam para burlar o atraso e o amadorismo, o sistema estadunidense continua dando as cartas. Salvo uma ou outra ovelha negra e desgarrada, escreve-se, pronuncia-se, gesticula-se e lê-se sempre da mesma forma pré-fabricada. Tudo sob a batuta de um modelo comunicacional coronelista – que o diga Cristian Góes –, no qual o jornalista que desafina tem que voltar para a coxia.

Se estar na cena é ruim, pior é ficar fora dela. Empregar-se na área é privilégio, jornalista ganha pouco (em Sergipe, pior ainda) e dinheiro não dá para dispensar. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o piso salarial do profissional em Sergipe ocupa o 15º lugar no ranking nacional. O número já não é dos melhores, e a situação se agrava com o acréscimo do seguinte dado: dentre as 27 unidades federativas, sete não tem piso salarial definido e cinco ainda mantém o biênio 2011-2012 como base da estimativa. Em outras palavras: entre os Estados que estão no jogo, Sergipe é o lanterninha no páreo do piso salarial do jornalista brasileiro.

Rodeado deste cenário pouco pomposo, encontrei por estes dias um texto perdido na enxurrada da cobertura da morte de Marcelo Déda. Dispenso aqui, logicamente, qualquer apresentação ou explanação sobre o assunto. Este texto não chamou minha atenção pelas homenagens ao ilustre falecido – outros tantos alcançaram esta finalidade –, e sim pela declaração de sua autora nas linhas finais. Ipsis litteris: “(desculpe está (sic) falando na primeira pessoa)”.

A frase acima foi publicada na coluna da jornalista Rita Oliveira, na edição de 4 de dezembro do Jornal do Dia. Ora, Rita, tão pertinente a associação feita por você entre Cleomar Brandi e Marcelo Déda ao longo do texto. Tão válida a expressão de sua emoção e da experiência de quem fala do que conhece, e não do que ouviu falar. Suas desculpas não se fazem necessárias, por que o uso da primeira pessoa em nada prejudica a credibilidade do seu texto. Ainda mais em se tratando de uma coluna que leva seu nome, um espaço socialmente legitimado para a manifestação de sua opinião.

Pelo constante exercício do distanciamento, muitos jornalistas tornaram-se afônicos. Suas palavras deixaram de falar por si para falar meramente do outro e pelo outro. Como se a função de contar a história suprimisse do jornalista a possibilidade de também ser personagem. Como se o jornalista perdesse seu caráter de povo e não fosse diretamente atingido pelos mandos e desmandos daqueles que denuncia. Como se qualquer traço de subjetividade do jornalista desqualificasse a informação.

O cânone da objetividade fez com que tantos perdessem de vista uma das maiores premissas do jornalismo: o direito-dever de criticar. Não me refiro aqui à crítica vazia, pelo simples prazer de ser “do contra”. Esta, aliás, tem gente de sobra fazendo – e embolsando muito por isso. Falo da crítica que vem da observação in loco, do somar dois e dois e perceber que algo não bate na conta dos relatos oficiais.

Na esteira desta ausência, os cursos de comunicação passaram a preparar jornalistas-papagaios, técnicos contentes em reproduzir falas. Tomando notas em seus blocos, desatentos aos trejeitos e tons dos entrevistados e indiferentes ao clima do ambiente, estes novos profissionais alimentam suas matérias à custa do botão de play do gravador. Se o diabo mora nos detalhes, o jornalismo destes tempos anda para lá de angelical.

Perdoe os maus modos, mas eu mantenho – e prefiro manter – a crença de que jornalismo ainda é coisa de gente “de humanas”, e que por isso não tem a obrigação de ser exato nem precisa de fórmulas. Discordo da ideia de que o jornalista tem o simples papel de servir de ponte entre os fatos e o público. Não acredito que jornalismo e subjetividade sejam incompatíveis, nem que a escrita em tom pessoal desinforme o público. Pelo contrário. Desculpe, Rita, mas eu não quero pedir desculpas.

*Nayara Arêdes é concludente do curso de Jornalismo e muito provavelmente não será empregada em nenhum veículo “decente” após a publicação deste texto.

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