A busca de identidade do Hip Hop aracajuano

foto: Victor Balde / SNAPIC
foto: Fernando Correia

Ritmo criado nos EUA se proliferou pelo mundo. Em Aracaju, ele vem se renovando na pegada das ruas, com uma geração que deseja propagar a cena e explodir as velhas formas de conceber a cultura do hip hop.

*por Geilson Gomes

Transformar a violência insensata em arte. Esta foi uma das principais perspectivas que influenciou o surgimento do Hip Hop – ritmo criado no bairro do Bronx, Nova York, em 1970 – impulsionado por Kool Herc, um jamaicano muito criativo que embalava milhares de pessoas no soundsystem em seu país de origem. A criatividade, sem dúvida, é a chave mestra deste estilo musical que encontrou nas periferias brasileiras um espaço de aceitação e identificação.

Segundo Afrika Bambaataa, um dos percussores do hip hop e fundador do Zulu Nation, o ideal inicial do ritmo criado era reverter o negativismo das gangues do bairro do Bronx em energias positivas. Tal abordagem se contextualizava com a realidade desse gueto americano, considerado o mais violento do país. Contudo, as gangues do Bronx representava uma resposta às mazelas sociais sofridas pela sua população, como a falta de emprego, educação e problemas com a criminalidade.

É importante salientar que os jovens que se envolviam nas gangues, muita vezes de forma cognitiva, buscavam uma saída da ebulição em que a transformação urbana violenta efetivara, a exemplo dos constantes incêndios que aconteciam no bairro, praticados pelo poder da especulação imobiliária. Com a crescente desvalorização do bairro, proprietários tocavam fogo nas casas para arrumar indenizações.

Com isso Bambaataa almejava dar uma alternativa para que os jovens saíssem da violência destrutiva. Agora, o embate se materializava na disputa da criatividade, não com armas, mas uma batalha de diferentes estilos, com letras que trazem reflexão acerca da verdade que os circundavam. Na década de 80, o ritmo já rendia bons frutos para uma geração de jovens do Bronx. Os nomes acima citados tornaram-se referências no estilo musical e muitos novos ícones surgiram com a diáspora dos jovens das gangues para o Hip Hop.

Para o Hip Hop se espalhar pelo resto mundo não demorou muito. Em 83 ele desembarca no Brasil, mas precisamente na cidade de São Paulo. O insurgente Hip Hop brasileiro tinha relativas características com o Hip Hop americano, com letras que revelam o dia-a-dia do rapper – falta de emprego, escola, lazer e más condições de moradia. Do outro lado, o Hip Hop tupiniquim se difere em vários aspectos. Cabe aqui uma reflexão do DJ e escritor Toni C:

“Mas quem é o Hip Hop brasileiro? – É um cara que, antes de escrever o primeiro Rap, já era gestado no repente e a embolada com pandeiro. Antes de se atrever a entrar na primeira roda de break já era chacoalhado nas rodas de umbigada, da congada, do jongo. Antes do primeiro footwork já era formado no passista de frevo, na dança chula gaúcha. Antes do primeiro traço com spray já estava misturado na tinta das pichações políticas contra a ditadura, na forma rústica da xilogravura nas capas dos livros de literatura de Cordel”.

Daí pra se espalhar para o resto do Brasil foi um tapa, ou melhor, um soco. Um soco também foi o que o Hip Hop deu na cara da produção comercializada da indústria cultural brasileira, financiada e estimulada pela burguesia e os grandes meios de comunicação.

Em Aracaju, o estilo musical encontrou um berço a ser explorado, ainda de forma incipiente. Conforme o DJ e pesquisador musical, Rafa Aragão, a cena Hip Hop em Sergipe ainda não se consolidou de fato. “Acredito que nunca houve uma cena de verdade do Hip Hop. Houve um período que surgiu alguns grupos, mas meu entendimento por cena, que é você desenvolver grupos, shows, criar um público que acompanha, que consome, que ouve e assiste, nunca houve. E tal vez por isso a gente tenha poucos grupos lembrados quando se fala em Hip Hop em Sergipe”, destaca.

Ademais, o DJ acrescenta que o Hip Hop em Aracaju ainda busca uma identidade e tem uma forte influencia do Hip Hop paulistano, mais crítico e voltado para as questões sociais. “A diferença de outras capitais pra cá, fica mais no desenvolvimento mesmo. Acho que em outros estados o Hip Hop conseguiu se desenvolver melhor, ou teve grupos/cantores que souberam se desenvolver saindo um pouco dos estereótipos”.

É fugindo deste comportamento desprovido de originalidade que a nova geração de rimadores do grupo Alquimia Solar desenvolvem sua contribuição para o Hip Hop aracajuano. De acordo com Saulo Darthayan, integrante do conjunto, a música gestada pelo grupo vai além do protesto. “A nova escola do hip hop nasce fruto de uma miscigenação que vem acontecendo ao longo do tempo, porque o hip hop está saindo da periferia e vai abrangendo outros espaços, se fundindo com outras músicas, deixando de ser só a cultura de samplear e cortar loop de sons. E o protesto acontece de diversas formas hoje em dia, a gente não se prende ao protesto social em nossas letras, remetemos também ao protesto político e a divisão de classes que se configura na sociedade”.

Sobre o repertório, Renato Mocamo afirma que a letra do Hip Hop para muita gente pesa. “Afirmam que as letras possuem muitos palavrões, gírias e frases violentas, mas ela representa o nosso cotidiano e nossa vivência. Esta visão é deturpada. Tirar essa viseira é a missão para nós porque a gente vive tudo e deve falar de tudo. E dessa forma abrir a mente de um modo geral e ver a mudança, e a mudança com certeza é em prol do bem”, argumenta o poeta.

Em relação ao crescimento da cena, Mocamo é enfático em dizer que a produção do hip hop atualmente em Aracaju é de forma independente. “A gente mesmo que dá os nossos corres, vamos atrás de som, de microfone, tudo que for. Procuramos um espaço em que a sociedade toda veja que algo de bom no que fazemos. É difícil porque a cena ainda é pequena, então, tem que resumir ao independente”, aborda o músico, ressaltando que a divulgação é feita majoritariamente na internet.

Já Darthayan relata que o cenário musical para o hip hop tende a crescer depois da criação de vários espaços abertos na cidade ultimamente. “Tem as rodas de rima na pista de skate, debaixo da ponte do bairro industrial e na praça na Zilda Arns, além de outros eventos como o Boom Boom Clap e as batalhas de free style que acontecem durante o ano. Outro ponto cultural importante é o Sarau Debaixo. A gente se juntou com o pessoal do coletivo Sarau Debaixo. Fizemos uma junção do Hip Hop com a poesia e levamos a cultura para os espaços públicos, fora das catracas”.

Destarte, os rimadores apontam um crescimento cultural e político em Aracaju, protagonizada não somente pela cultura hip hop, mas por outros atores sociais. Saulo finaliza destacando que o ano de 2014 vai ser o ano da colheita, pois são vários movimentos que vem acontecendo de uma vez só na cidade. “Tem o jazz no Bar do Turco, o festival Legaliza-se, Sarau Debaixo e o movimento Não Pago. São vários movimentos que nos foram tirados e agora nós estamos ocupando”.

Mocamo é mais pé na porta ao concretizar o debate. “O pavio tá curto e a bomba está prestes a explodir. Como tudo que começa a tendência é crescer. E é essa cena de Sergipe tende a evoluir”.

Música: Saudação
Letra: Renato Mocamo (Alquimia Solar)

Acreditam enganados que o MKM está aprisionado,
Mal sabem eles que sou o Zumbi
pronto para acabar com o capitão do mato,
Smarthphone, SBT, Ipad,
Tática de guerra inimiga, objetivo? Manter o controle da plebe
Escravistas liberam o álcool e proíbem o beck
Mulher fruta é puta e a lei é injustiça nas terras de sinhá Rousseff
Senzala mundana, idade contemporânea
Ao pensar que é Disneylândia enganado está, pois é Babilônia
Se assustaram ao ver o gigante tomar a cúpula dos crápulas
Contra esses crápulas, minha mente é meu patuá
Alquimista dignificado instigado armado com o poder do rap
Transformando em ouro seu valor mental assim vosmicê não me esquece

 

*Geilson Gomes é jornalista e coordenador da REVER

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