Francisco C. Teixeira: Parte 2 – História do Tempo Presente

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Na segunda parte da entrevista exclusiva à REVER, Francisco Carlos Teixeira fala do que consiste o estudo do tempo presente, qual a sua função social, e quais são as dificuldades metodológicas e epistemológicas do exercício desta modalidade.

 

*por Irlan Simões

**entrevistadores convidados:
Cleidsom Carlos e Anike Lamoso

 

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Antes de ler confira o texto introdutório: REVER Entrevista: Francisco Carlos Teixeira

Parte 1 – Movimentos de Junho, Polícia Brasileira e Justiça de Transição

 

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REVER: Como surgiu a História do Tempo Presente, e qual a sua função social?

Francisco Carlos Teixeira: Em primeiro lugar a história do tempo presente surgiu como uma reação a silêncios contemporâneos, a silêncios da atualidade. Dois países foram centrais para a gênese dessa modalidade.. Na França havia o mito de Charles De  Gaulle de que toda a França  foi combatente que ninguém apoiou os alemães, ninguém colaborou etc. Então a descoberta daquele imenso processo de colaboração e de aceitação do nazismo e de confraternização de variadas formas com o nazismo, foi a reação contra esse silencio, principalmente a colaboração da policia francesa com o holocausto, com a perseguição e o assassinato de judeus.

Na Alemanha principalmente a partir dos anos 70 com o impacto do Movimento de 68, o silêncio sobre o holocausto e a mítica criada principalmente pelo refundador da Alemanha moderna, Konrad Adenauer, de que a Alemanha foi uma vitima de Hitler e consequentemente foi libertada pelos aliados, como se ela própria não tivesse sido autora do que ocorreu por lá. É interessante notar que muito rapidamente, na França já em 1945 e 1946 e na Alemanha entre 1948 e 1954 se criam míticas que tornam opacas a história que estava acontecendo.  A criação do instituto “Historia do Tempo Presente” pelo professor François Bédarida e o Centro de Pesquisa Antissemita em Berlin, pelo professor Wolfgang Benz são essa reação ao processo.

REVER: E no Brasil…

FCT: Eu tinha ficado na França e na Alemanha, voltei e percebi que aqui também havia silêncios intensos. Getulio Vargas, por exemplo, durante o Estado Novo aparece como herói nacional, como fundador de um Brasil Moderno. As torturas, a maldade e a supressão da liberdade não apareciam. Você via samba enredo a favor de Getúlio e um silêncio sobre a repressão. Depois sobre 64. E um 64 que foi logo dado como superado e já estabelecido um acordo assim: “Vocês todos que lutaram contra o golpe, vocês são heróis, fantásticos, não vamos implantar nenhuma questão contra vocês, mas vocês também não vão perguntar de maneira alguma quem apoiou nada”. Então, logo no primeiro governo, de Tancredo Neves, que acaba não acontecendo, não só o presidente efetivo era o líder do partido da ditadura, como vários ministros eram aqueles que acolheram, silenciaram e apoiaram a tortura. O próprio Tancredo Neves dizia “estamos reconciliados com o passado”. De certa forma a História do Tempo Presente é uma ruptura com a conciliação.

REVER: Existe uma temporalidade que determine o que é a História do Tempo Presente?

FCT: Isso é uma questão em aberto, estamos puxando um seminário daqui a um ano, nós queremos ter um livro pronto para esse seminário, onde queremos discutir o problema da periodização. As pessoas copiaram a mesma data da França, da Alemanha e do Japão, e colocaram como marco o ano de 1945. Eu particularmente, não acho que 45 seja uma data de ruptura, tão notável para a gente hoje.

Alguns colegas, no seminário do GET, colocaram 1964, o que eu digo é o seguinte: se eu for escolher 45 ou 64, eu vou tá repetindo uma regra da história política administrativa. A História do Tempo Presente não possui esse caráter. Eu acredito muito mais em “processos”. Eu vejo um processo que se acelera, a partir de 1958-59 que muda o Brasil, principalmente com a urbanização e a industrialização do Brasil.  A emergência do proletariado, que era ator político no Brasil e foi fundamental, vai até, por exemplo da unificação do futebol brasileiro. Sendo de caráter mais social do que personalista. Em 59 existe a gravação da música “Chega de Saudade”, a Bossa Nova vai surgir nesse momento, o Cinema Novo, com o Cangaço, as peças de Nelson Rodrigues. Então é um processo muito mais amplo, não aceito a ideia de que a história do tempo presente, é uma história política, muitas pessoas falam isso, se remetem a René Rémond. Não vejo dessa forma.

REVER: Quais são as problemáticas da história do tempo presente?

FCT: A História do Tempo Presente é uma história de uma ambição muito grande e talvez esse seja o principal problema: ela propõe a ser uma história síntese. Um problema enorme, por exemplo é o problema da capacidade de apreensão simultânea de vários processos concomitantes e muitas vezes com os sinais trocados. Eu não posso falar da História do Tempo Presente se eu não falar, por exemplo, da arquitetura brasileira, no urbanismo brasileiro, na Bossa Nova, no João Gilberto, no Bahia ganhando a Taça Brasl, mas também do processo político.  Outro aspecto problemático é o historiador se transformar em um técnico, você se fecha em um período em uma abordagem, você conhece a música, o teatro e por que isso não entra? É por que a gente se foca apenas na história política e econômica, sendo meros técnicos da história.

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REVER: Marc Bloch (fundador da primeira geração da escola dos Anales) influenciou na História do Tempo Presente?

FCT: Sem duvida nenhuma. Todos cultuam Marc Bloch como o originário. A primeira grande obra do tempo presente é a de Marc Bloch como “O Medievalista” e “A Estranha Derrota”. Esse ultimo, por exemplo, escreve para explicar por que a França foi derrotada na Segunda Guerra mundial, sendo que ele escreveu um ano depois da derrota, e meses antes dele ser fuzilado. Então ele próprio, uma figura especializada em teoria da história e medievalista, se consegue apreender o processo que ainda não é terminado. Esse é o grande problema.

REVER: Que teóricos do social tem inspirado a feitura do tempo presente?

FCT: É uma grande síntese, nesse momento Marx está presente, não poderia deixar de citar, principalmente na sua compreensão do processo social. Mas não o Marx economista, isso sem dúvida nenhuma não podemos compreender a sociedade como decorrência de qualquer nível de sociedade. Não é mais possível aceitar um nível de determinação ou coisa parecida. Nesse sentido temos se voltado muito mais para os escritos econômicos e filosóficos de 1844, e as obras enquanto sociólogo político, o “18 Brumário de Luis Bonaparte”, “A Luta de Classes em França”, que são obras verdadeiramente importantes para a história.

Marx Weber tem entrado com as categorias sociais, com o conceito de burocracia, como se constitui esse processo. Por que a clínica e a escola são burocracias do estado. Então sem Marx Weber não vamos compreender nada.

Existem dois textos de Freud que tem entrado muito fortemente e fundamentais para a história do tempo presente. Uma é “Mal Estar na Civilização” e o outro “A Psicologia de Massas” e a “Análise do Eu”. Se você não ler essa ultima obra você não vai compreender nada do que está acontecendo nas ruas, nesta obra há uma explicação fantasticamente importante.

Foucault teve uma importância na construção de temáticas, a ideia de uma análise das instituições, a clínica, é fundamental em Foucault. Mas este autor deixou um problema enorme para a gente, porque de uma certa forma ele acusa a própria narrativa histórica, de ser uma expressão de poder. A denúncia contra o poder acabou sendo o próprio poder.  Então isso precisa ser entendido por que o contrário ao entendermos isso poderia ser uma inércia libertária de abandono que me parece muito complicada. Então eu recolho muito mais a uma herança temática do que metodológica. Eu vejo repetições em vez de criações foucaultianas no Brasil.

REVER: Nós temos no século XX um conjunto de decifradores do presente. Os clássicos comunicólogos têm servido para o estudo do tempo presente?

FCT: Nós temos acolhido os frankfurtianos – e o renascimento dos frankfurtianos, na crise do marxismo – extremamente importantes. Adorno por exemplo tem sido lido principalmente com o debate de indústria cultural. O próprio Antônio Gramsci tem sido um pensador do Séc. XX fundamental. Existe um pequeno ensaio dele chamado “fordismo e americanismo” que é central para a compreensão do fascismo, em pequeno grau, o chamado micro-fascismo.

Além desses existe Marshall McLuhan. Existe um debate vivo entre McLuhan e Manuel Castells. Este ultimo está procurando desmentir McLuhan no livro sobre os protestos. Ele diz, “os meios não são as mensagens”,  por que essa confusão de transformar o facebook na Ágora não é verdadeira, por que a Ágora está lá fora e o fato político só ocorre quando o demos se manifesta nela. Não há demos no facebook, e muito menos Ágora [risos]. Por tanto não há fato político ali, a quantidade de pessoas que confirmam via facebook a ide nas manifestações é imensamente maior do que as que realmente vão.

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*Fim da Segunda Parte da Entrevista Exclusiva de Francisco Carlos Teixeira para REVER

2 comentários sobre “Francisco C. Teixeira: Parte 2 – História do Tempo Presente

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