Um legado de Marcelo Déda ou Notas miúdas para uma reflexão livre

foto: Marcio Dantas
foto: Marcio Dantas

“No momento da sua morte o seu partido vinha de uma luta interna sem quase nenhum disputa ideológica das boas, e muita disputa de cargos e poder, vazia de conteúdo e com uma grande leva de “militantes pagos” e de bajuladores a perder de vista”

*por Romero Venancio

“O PT paga o preço da conciliação. Desorganizado e impotente é incapaz de reagir aos ataques do STF, que assume o papel de articulador ideológico do ódio de classe da burguesia.”
(José Arbex Junior. In: Revista Caros Amigos, Dezembro de 2013)

Uma morte, de modo geral é para ser lamentada. A família e as pessoas mais próximas do falecido tem o direito de lamentar e fazer sua reflexão. Obviamente que sendo o morto um ilustre, os elogios passam da conta. Mas, sabe-se que o distanciamento do acontecimento fatal é nosso melhor conselheiro.

Um julgamento ainda com o “caixão aberto” corre-se o risco da ausência do tempo necessário para uma maturada reflexão. As notas que seguem tem o interesse de sair de um mero elogio familiar ou de amigos do governador de Sergipe que morreu no início do mês de Dezembro de 2013.

O governador de Sergipe era talentoso com as palavras e um exímio articulador político. Vindo do movimento estudantil soube, como poucos em seu Estado, tirar proveito para além das causas estudantis. Foi um marco em sua geração e ainda tem participação decisiva na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em Sergipe.

Orador como poucos e de improviso, o que é ainda mais raro, num país em que quando um político fala percebe-se o deserto de ideias e as palavras vazias de conteúdo. Disso ninguém pode acusar o governador Deda de seguir tal caminho. Sabia, como poucos, trabalhar sob os holofotes das câmaras e com um microfone nas mãos, era um habilidoso agitador. Tornou-se exemplo para uma geração em Sergipe e para boa parte dos políticos – alguns conseguem apenas macaquear, deixando uma artificialidade tola no ar e sem carisma algum. Paciência.

Talvez a palavra que melhor explique o politico Deda seja a palavra “Carisma”, em seu sentido Weberiano. Havia algo mais do que apenas ser um politico profissional, tinha um talento próprio com as palavras que o faziam carismático em qualquer espaço que frequentasse. Público e notório, no parlamento, na prefeitura ou do governo do Estado.

Olhando de maneira rápida a “mídia” sergipana e as notas ditas oficiais, basicamente só se destacam isso, ou seja, o óbvio de sempre. Minhas notas pretendem ir além dos elogios e tentar fazer uma breve reflexão sobre o legado politico neste exato momento da politica brasileira.

Grande parte do que é hoje o PT tem a colaboração direta de Marcelo Deda. Sempre foi do núcleo majoritário central do PT e fez parte dessa grande mudança que viveu o PT nos últimos anos e nos diversos governos que administra. O tipo de campanha eleitoral viciada em caixa dois (Marcos Valério é uma conquista importante nesse processo e prova cabal dele como um todo), a guinada pragmática para administrar com alianças terríveis, a exemplo do apoio do Governador à família Amorim, que veio de mala e cuia para o PT/governo e trouxe o seu cabedal econômico de quebra, e a forma de distribuir os cargos devido as alianças mostraram os limites de não fazer o que se prometem em palanque.

Com esses minguados exemplos fica bem claro o quanto o PT em Sergipe e no Brasil tornou-se um partido que, na sua forma de fazer politica, tornou-se igual á maneira de fazer politica das velhas oligarquias que tanto criticava na sua origem. Inclusive, pelo próprio Deda. O vi bradando que a politica de Sergipe teria que deixar de ser refém de Albano Franco ou João Alves e de seus aliados.

A história está aí para provar o que de fato aconteceu e nem perco meu tempo em mostrar o que esta a olho nu para ser visto. No momento da morte do governador Deda, o seu partido vinha de uma luta interna sem quase nenhum disputa ideológica das boas, daquelas que viu o ilustre governador quando fundou o PT, e muita disputa de cargos e poder, vazia de conteúdo e com uma grande leva de “militantes pagos” e de bajuladores a perder de vista.

Ninguém pode ser responsabilizado sozinho por mudanças radicais num partido como um todo. Mas não se pode perder de vista o papel pessoal de quadros valorosos em qualquer instituição politica e, principalmente, se for uma liderança inconteste, como o foi Deda.

O governador Deda morre num momento difícil de seu governo e do seu partido. O deixa quase refém de formas oligárquicas de poder difícil de livrar-se e deixa um governo integralmente nas mãos de um “PMDB de aluguel”, ávido por poder e de populismo raso e pragmático.

Do meu ponto de vista, Marcelo Deda deixa um triste legado e que ofusca sua brilhante capacidade de articulador politico e de orador incomum. Mas deixemos a história seguir e fazer sua parte naquilo que os seres humanos podem ou as vezes nem tanto.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

6 comentários sobre “Um legado de Marcelo Déda ou Notas miúdas para uma reflexão livre

  1. Ouvi dizer que Déda deixou um patrimônio econômico bastante condizente com seu cargo público, ou seja, como político de carreira (na vida pública há décadas) não enriqueceu ilicitamente, vejo isso como um grande legado. No Brasil, política é sinônimo de esquecimento/aumento de patrimônio se há um político que não segue esta cartilha, temos aí um “grande exemplo”, não?

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s