“O carater invernal de uma Igreja enferma”: notas sobre o livro de Hans Küng

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Apesar de o teólogo ser um tanto otimista na possibilidade de mudanças mais profundas na Igreja Católica, a nós, parece que uma “conversão desse catolicismo poderoso” parece um sonho remoto

*por Romero Venancio

Para algumas pessoas menos interessadas em questões religiosas, as Igrejas seriam instituições fechadas e onde mudança não é palavra de ordem. Na aparência das práticas religiosas de maior visibilidade social, esta “tese” faz sentido. Mas só na aparência. Desde os pioneiros estudos da teoria social moderna praticada por Weber, Marx, Durkheim, Eliade o par mudança/ordem ou conservador/progressista é uma perspectiva interessante de ver o fenômeno religioso.

Para os “clássicos da sociologia moderna” o processo de mudança, por mais lenta que seja, faz parte do universo religioso onde quer que ele apareça. Qualificar melhor esse processo de mudança nas práticas religiosas tem sido um aspecto importante na compreensão da dinâmica social. Religião e Sociedade estão em processo de intercâmbio sempre. Afirmamos isto para apontar de maneira superficial alguns aspectos críticos porque passa o catolicismo contemporâneo tendo como referência a obra do teólogo Hans Küng: A Igreja tem salvação? (Editora Paulus, 2012).

Esse teólogo nascido na Suíça é bastante conhecido nos meios católicos e protestante e um pouco menos visto nas academias brasileiras, salvo por intelectuais mais informados sobre os rumos do catolicismo nos dias atuais. Trata-se de um teólogo já clássico no ambiente religioso do século XX e XXI. É professor emérito de teologia ecumênica da universidade de Tübingen e presidente da Fundação Ética Mundial, autor de várias obras de teologia e de temáticas éticas e econômicas. Nas duas últimas décadas tem sistematicamente escrito sobre os rumos da Igreja católica e a sua relação com o Concílio Vaticano II.

Em obras como “Por que ainda ser Cristão hoje”, “Igreja Católica”, “No que acredito” e “A Igreja tem salvação?”, percebemos o caráter de balanço da situação da Igreja católica no mundo e de algumas implicações das práticas católicas nos rumos planeta. Sendo mais sintético, é no mais recente livro que Küng faz um resumo da sua visão do destino do catolicismo nos dias atuais.

O livro esta dividido em seis partes, precedido de uma nota pessoal em tom de confissão, intitulada: “De como me vi obrigado a escrever”. Diria que esta confissão pública do teólogo indica o rumo da posição dele. Inicia com a frase: “Eu preferiria não ter escrito este livro” (p.11). Tom aparentemente melancólico diante dos fatos que serão arrolados e analisados no livro como um todo, nos faz entrar na seriedade com que ele tratará de criticas fortes a sua Igreja.

No primeiro capitulo temos já no titulo o caráter avaliativo e metodológico da obra: “Uma Igreja doente, e doente terminal?”. Faz um diagnóstico da crise porque passa o catolicismo contemporâneo mesmo que os “teólogos oficiais” e os “movimentos conservadores” digam o contrário. A Igreja católica vive uma “crise agônica”. Perde fiéis, se torna cada vez mais moralista, vive uma “febre pentecostal” delirante, o governo eclesial é de um autoritarismo sem tamanho, as mulheres são cada vez mais excluídas do poder e os temas prioritários da Cúria Romana e das dioceses são temas conservadores e sem impacto diante de um capitalismo cada vez mais selvagem.

A Igreja volta a aquela velha visão paternalista de pobre, esvaziando seu potencial crítico do sistema produtor de mercadorias. No segundo e no terceiro capítulos, diagnostica a situação interna da Igreja tendo como referência a história do poder na Igreja desde o “primeiro Papa”. Uma abordagem histórico-política da instituição e que nos coloca por dentro de um problema crucial da prática cristã na história do Cristianismo. Nos capítulos quatro e cinco temos uma reflexão sobre a Igreja Católica e o mundo moderno. As controvérsias com o Liberalismo e comunismo e as posições centralizadoras de Papas como Pio IX e Pio XII (este já do século XX).

O último capitulo tem a marca do teólogo convicto de sua fé, mas atento a situação trágica da sua Igreja no mundo atual. Passa uma sensação de viver numa Igreja completamente anacrônica em relação aos acontecimentos dos últimos 30 anos. O capitulo é ironicamente intitulado: “Terapia ecumênica. Medidas de salvação”.

Irônico por ser a Igreja “lugar de salvação” e não ela ser digna de ser salva. Problematiza os pontos de estrangulamento do catolicismo atual: poder Papal, exclusão das mulheres do sacerdócio, a centralização cada vez maior das dioceses nas mãos dos Bispos, um clero desorientado e mal formado teologicamente, os escândalos de pedofilia, o estreito ecumenismo. Como bem afirma: “Não é o caso de destruir a Cúria Romana, mas de reforma-la segundo o Evangelho”. O sentimento particular que fica é o de que seria mais fácil destruí-la do que ela (a Cúria Romana) ter um comportamento evangélico.

Apesar de o teólogo ser um tanto otimista na possibilidade de mudanças mais profundas na Igreja Católica, a nós, parece que uma “conversão desse catolicismo poderoso” parece um sonho remoto. Ser evangélica não faz parte das orientações dos prelados que detém o poder do catolicismo de hoje. Estão muito mais preocupados com a estrutura e sua continuidade do que com uma prática evangélica profética, como foi a de Jesus.

Livro magnifico, escrito por um homem de fé. Um grande intelectual que hoje viver marginalizado na Igreja em que teima em não deixar. Um cristão consciente do seu papel. Um teólogo livre e coerente.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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