Praia de Aruanda: O elitismo normativo como vício de linguagem

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“A alteração que mais me inquietou – a deduzir pelo título – foi a boa, velha e barrenta praia de Aruana. O destino de milhares de sergipanos durante os festejos de final de ano trocou de alcunha e nem deu tempo de pedir a primeira cerveja, agora é Aruanda e fato, vírgulas e ponto e zé fini”

*por Henrique Maynart

Nem o legislativo aracajuano desvia do chicote afiado da gramática normativa. Cipó de Aroeira no lombo de quem “escreve errado” para apagar de vez as luzes de 2013, nem o feitor do “Lambe-sujo” teria tanta sagacidade. Apois, por indicação do vereador Dr Emerson a CMA alterou o nome de cinco pontos da capital sergipana. Jabotiana vira Jabutiana, a avenida Beira Mar fica orfã do hífem e o D.I.A perde a guarda dos pontos – o bonde do Sarau Bebaixo vai acionar o conselho tutelar, tenho certeza – Orla de Atalaia troca o “e” pelo “a”. Uma caralhada de alteração pra enfiar o “bom português” goela acima, coisas do progresso dos homens de terno.

A alteração que mais me inquietou – a deduzir pelo título – foi a boa, velha e barrenta praia de Aruana. O destino de milhares de sergipanos durante os festejos de final de ano trocou de alcunha e nem deu tempo de pedir a primeira cerveja, agora é Aruanda e fato, vírgulas e ponto e zé fini. Volto pra casa e peço ajuda a São Google, fatalmente torrado de sol e empanado na brisa de janeiro. A matéria de 7 de dezembro aponta que a mudança ocorreu em virtude de Aruanda ser ” uma palavra indígena e significa lugar místico, paraíso.” Meu pai Odé…

O termo Aruanda está diretamente ligado à nossa africanidade, tido como lar do povo preto antes da escravidão, égide da liberdade, uma alusão direta à Luanda, ponto de saída de povos escravizados. Pra gente ver o quão atravessado é o elitismo dos defensores da gramática, assolam parte significativa da formação social brasileira mesmo quando ensaiam qualquer acerto. “Sons e palavras são navalhas”, Belchior dando a linha mais uma vez, quem quiser que cante como convém.

Estou mais preocupado com o aterro criminoso da Beira Mar que com a perda de um hífem insignificante. Muito me preocupa a especulação imobiliária que avança sobre a praia de Aruana que a adição de um solitário “d”, estou mais preocupado com a mobilidade urbana do DIA que o chute em dois pontinhos inocentes. Parece bobagem, mas o vício de linguagem traduz outros vícios da política.

“Se vocês entendem de política como entendem de estética, estamos perdidos”, mais de cinquenta anos e esta porra continua atual. Se a estética que dita e impõe, democraticamente de cima para baixo, o falar brasileiro e sergipano estão acima do projeto usurpador de cidade escondido por baixo das nomenclaturas, eu prefiro falar tudo do jeito antigo e normativamente condenável. Aruanda só se for pra saudar meu pai Odé, e tenho dito.

 

*Henrique Maynart é jornalista

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