‘Tá fácil para alguéns’: resíduos do avanço do fundamentalismo cristão

bancada-evangelica

A onda atual do fundamentalismo cristão se diferencia na sua própria história ao negar direitos civis do corpo preto e homossexual, imbricando racismo e homofobia institucionais

*por Diogo de Oliveira

A invisibilidade e marginalidade social de determinados setores se traduz na política contemporânea do Brasil com um Estado permissivo para o avanço do crescente fundamentalismo cristão, recuado e míope para as demandas de homossexuais.

Um exemplo disso aconteceu ainda em 2012, o Ministério da Saúde lançou a campanha pela prevenção da AIDS no Carnaval protagonizado por um casal de personagens gays que foi veemente recusado por ativistas LGBT’s por vincular a homossexualidade com a contração e disseminação do vírus.

Identificando alvos

Já em 2013 o pastor e deputado Marco Feliciano declarou que o corpo preto é amaldiçoado por práticas homossexuais contidas no texto bíblico. Nessa altura Feliciano estava ao mesmo tempo evidenciado os alvos do fundamentalismo cristão e sincronizando este movimento com o que surgiu nos Estados Unidos na década de 1940.

O fundamentalismo cristão contemporâneo foi produzido no interior de um debate teológico nos Estados Unidos e foi cristalizado numa coletânea de texto chamada de Fundamentals, mas o principal texto cristão que embasa a política desse setor nos últimos três anos é A estratégia – o plano dos homossexuais para transformar a sociedade (Louis P. Shledon). Talvez a síntese do livro tenha sido dada pelo deputado Sargento Isidório (PSB), o parlamentar  que afirmou em entrevista ao site Bahia Notícias, “eles pretendem deflorar criancinhas”, ao se referir sobre a Parada Gay de Salvador

O jogo de poder que se colocou entre as principais demandas da comunidade LGBT’s – a união civil estável entre pessoas do mesmo sexo, o Kit Escola Sem Homofobia e do Projeto de Lei Complementar 122 – escancarou a política reacionária dos grupos que gerem o Estado e trouxe à tona um movimento cristão que não luta por direitos desse setor social, mas que nega direitos de outra parcela da população.

Assim é, quando o Kit-Escola Sem Homofobia foi lançado, a presidente Dilma Rousself afirmou que não é dado ao governo fazer promoção de opções sexuais, a PLC 122 foi pressionada pela bancada evangélica até ser vetada e decisões como a união civil estável entre pessoas do mesmo sexo ganha contornos separatistas em todas as edições.

União Civil estável entre pessoas do mesmo sexo

Em Feira de Santana (BA), o vereador Edvaldo Lima (PP) lançou a o mote político “pela família, contra o casamento de homossexuais” na cerimônia pública e coletiva organizada pela secretaria de promoção da igualdade do município. Em resposta, coletivos LGBT’s foram até á Câmara de vereadores disputar essa política e o resultado encontrado pela secretária foi promover duas cerimônias: uma para casais heterossexuais e outra para casais homossexuais.

 O estado do Rio de Janeiro também organizou o primeiro casamento coletivo e público de homossexuais, ainda assim considerado pela mídia fundamentalista cristã como “uma afronta à família tradicional”.

Não é necessário citar as estatísticas de quantos homossexuais, transexuais e travestis são assassinados de forma violenta no Brasil, o relatório de violência homofóbica já o faz. Como afirma Leandro Colling, militante da causa LGBT: “Governistas: suas lágrimas não me comovem. Há anos estamos denunciando como o fundamentalismo religioso avança, também, com a anuência (quando não estímulo) do próprio governo federal e nada foi feito, de fato, para romper com esse ciclo. O sepultamento do PLC 122 não me surpreende, pelo contrário, era mais do que previsível. E coisas piores ainda virão se as coisas continuarem assim”.

Racismo institucional

Como os alvos já foram evidenciados pelo pastor e deputado Marco Feliciano, a atuação política-fundamentalista-cristã tem tentado atacar a população preta, através do embate religioso. Ainda no ano de 2013, o vereador de Salvador (BA) Marcell Moraes, tentou entrar com um projeto de lei municipal (PL 308/2013) que visava criminalizar os sacrifícios de animais em cultos religiosos.

Com toda carga de cinismo que essa ação racista precisa, a assessora de imprensa do mesmo afirmou que nunca foi contra qualquer religião de matriz africana. Em Salvador essa lei foi por água abaixo graças à organização, articulação e atuação pontual do povo de axé (laroiê!) na Câmara de vereadores.

 Não bastasse, a última ação de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos (CDH) foi a alteração na Lei 7.716/89 –  que define crimes resultantes de raça e de cor, proibindo manifestações contra a permanências de pessoas em desacordo com suas crenças. A justificativa de tal alteração, foi “deve-se a devida atenção ao fato da prática homossexual ser descrita em muitas doutrinas religiosas como uma conduta em desacordo com suas crenças. Em razão disso, pelos fundamentos anteriormente expostos, deve-se assistir a tais organizações religiosas o direito de liberdade de manifestação”. Ao dar vazão a essa alteração  que o Estado impulsiona o fundamentalismo cristão e é racista e homofóbico, ao mesmo tempo exatamente porque permite tais ações e não se posiciona contra elas.

O vídeo do Estado Laico: lesbofobia institucional

Não podemos esquecer do vídeo editado e produzido pela organização do pastor Marco Feliciano em que aprecem um casal de lésbica se beijando numa sessão organizada pelo pastor em uma praça pública e que escandalizou os cristãos por “infringir” a tal liberdade de culto. Em nenhum momento foi questionada a autoridade do pastor, mesmo antes da alteração na Lei 7.716/89, de gerir a polícia local em detrimento da manifestação pública de afeto de um casal de lésbicas.

A Lei, como afirmou Berenice Bento, ainda em 2012, é apenas uma síntese da correlação de força de determinado contexto histórico. O que temos aqui, muito provavelmente, não é apenas a presença de representantes de fundamentalistas cristão através de partidos políticos atuando contra minorias políticas históricas com a omissão do Estado. É a síntese jurídica, política e cultural de um antagonismo produzido no entorno das demandas LGBT’s, articulado por líderes fundamentalistas cristãos que afeta o corpo preto e homossexual nas dinâmicas macro e micro sociais, traduzindo mais racismo e mais homofobias.

O que significa, necessariamente, que a saída do pastor e deputado Marco Feliciano não é uma vitória. O fundamentalismo cristão avançou nos rigores da lei, e também da cultura. Está disseminado o empoderamento de um amplo setor da população brasileira que ora pode ser rearticulado, reimpulsionado pondo a máquina de fazer microguerras em ação.

 

*Diogo Oliveira é jornalista e correspondente de REVER em Salvador

Um comentário sobre “‘Tá fácil para alguéns’: resíduos do avanço do fundamentalismo cristão

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s