Roteiro Para Entender o Futebol Nordestino: Parte 2 – Copa do Nordeste (I)

Gustavo Lucchesi
Os pernambucanos Náutico e Sport formam um dos duelo de gigantes nordestinos (foto: Gustavo Lucchesi)

Na segunda parte da série o tema central é a Copa do Nordeste. A história, os avanços, retrocessos e problemas do único torneio regional de grande relevância do futebol brasileiro.

*por Irlan Simões

Antes de ler confira a Parte 1: Introdução, da série “Roteiro Para Entender o Futebol Nordestino”

A Copa do Nordeste é o único torneio de âmbito regional , dentre tantos lançados nas últimas décadas, que teve sucesso de público, reconhecimento dos torcedores e resultado financeiro positivo. Muitos fatores explicam essa particularidade, como a semelhança cultural, a proximidade geográfica e também a grande possibilidade de conquista de um torneio de “grife”.

A história do ‘Nordestão’ explica muito bem a estrutura política do futebol brasileiro, seus vícios, sua desorganização e o papel que cumprem os clubes do Nordeste dentro de todo esse sistema.

O aspecto mais importante a se colocar é que a competição que reúne os melhores colocados  de cada campeonato estadual da região já teve impactos importantes na dinâmica geral do futebol nordestino. Principalmente quando falamos da postura adotada pelas diretorias de cada clube de massa da região. Seus planejamentos, suas prioridades e até a forma como se colocam publicamente provam o interesse no Nordestão.

Era dos regionais

A primeira edição de uma “Copa do Nordeste” aconteceu em 1994, em Maceió, na carona dos chamados torneios “caça-níqueis”, de caráter amistoso. Foi de tiro curto, disputado com equipes mistas de cada clube.

Deu certo e foi retomada em 1997, quando pipocaram no Brasil as chamadas “Ligas”, organizações jurídicamente legais, que serviam como aditivo no cabo-de-guerra que travavam os clubes e a dupla CBF+Globo.

Além da Copa do Nordeste, também foi criada (ou refundada) a Copa Rio-São Paulo, e a Copa Norte. Era um tempo de grande instabilidade política no futebol brasileiro, período marcado por mudanças bruscas nos formatos do torneio nacional. Mais tarde, em 1999 os clubes do Centro-Oeste e do Sul formariam suas respectivas ligas. Nessa última seria inserido o estado de Minas Gerais no ano seguinte, formando a Copa Sul-Minas.

Vale destacar que, após a extinção dessas Ligas, o termo “torneios regionais” foi lançada mão pela Globo para identificar os campeonatos estaduais, que ocupavam a primeira metade do calendário do futebol, ainda que não fossem torneios interestaduais.

No ano de 2000 seria criada a Copa dos Campeões, que reuniria os vencedores regionais num torneio curto que valia vaga para a Copa Libertadores da América. Durou até 2002, quando se deu um marco histórico do futebol brasileiro.

Kid Junior
O Fortaleza não estará presente na edição de 2014 do Nordestão, mas forma com o Ceará um dos principais clássicos locais (foto: Kid Junior)

Mudança nacional, impactos locais

Em 2003, após o pentacampeonato mundial da Seleção,a CBF se sentiu pressionada a realizar mudanças estruturais no certame local, como sempre ocorre em anos de destaque internacional do futebol brasileiro. Naquele ano o Brasileirão foi remodelado, saindo do formato de mata-mata para o de pontos corridos.

Diversos setores da imprensa nacional exigiam essas mudanças, inspirados no modelo europeu, com numero de participantes, rebaixamentos, acessos, datas e confrontos bem definidos antes do início do torneio. Uma matéria de capa da revista Placar, já em 2002, dizia que o futebol brasileiro parecia alienígena aos olhos de um estrangeiro, questionando como o oitavo colocado na fase classificatoria poderia ser campeão.

O que aconteceu foi que o “pontos corridos”, logo em sua primeira edição, inchada com 24 equipes, com nada menos que 46 rodadas, exigiu a extinção dos torneios regionais, e consequentemente das Ligas que haviam sido formadas pelos clubes.

A correlação de forças fez com que a CBF nem ao menos propusesse a redução de datas dos longos campeonatos estaduais, que já àquela época eram deficitários, para agradar as Federaçoes Estaduais. Um fator que expõe os conflitos que davam o tom das mudanças à época.

Como a Copa do Nordeste era o único regional que realmente funcionava, também foi o único que ofereceu certa resistência. Para manter boas relações com o, hoje extinto, Clube dos 13, a maioria dos clubes abandonou a batalha, enquanto restou ao Vitória – presidido por Paulo Carneiro, principal articulador do torneio – Ceará, paraibanos, potiguares, sergipanos e alagoanos segurar as pontas e realizar, de forma independente, a edição de 2003.

abcfc site
No Rio Grande do Norte, o título nordestino de 1998 é motivo de orgulho dos torcedores do América. O seu arquirrival ABC tem um vice (foto: ABCFC.com)

Década perdida e a edição “xumbrenga” de 2010

Com pouca atenção midiática e compreensão dos torcedores, sem o reconhecimento oficial da CBF e a ausência de clubes do porte de Bahia, Sport, Santa Cruz e Náutico, o torneio serviu apenas para cumprir tabela e  não simbolizou nada na tentativa de resgatar o Nordestão. A competição foi oficialmente extinta.

O caso se transformou numa batalha jurídica de dimensões colossais, sendo a CBF obrigada a pagar uma multa aos clubes. Segundo o próprio Paulo Carneiro o valor chegava próximo de 50 milhões de reais. O acordo feito em 2010 previa o perdão da dívida em troca do retorno da realização do torneio, agora com reconhecimento oficial da entidade – questão fundamental para fins comerciais – e a realização pela renovada Liga do Nordeste.

Realizada em paralelo à Copa do Mundo de 2010, na Alemanha, e com um sistema de disputa entre todos apenas em jogos de ida e posteriores semifinais e finais, o torneio não vingou. Os clubes mais fortes usaram seus elencos mistos, enquanto os menores preferiram se “resguardar” para as suas respectivas Serie C e Serie D.

A verdade é que o impacto do fim da Copa do Nordeste em 2003 foi imenso, quebrando uma sequência de torneios de sucesso, de renda crescente e com aceitação imensa dos torcedores. Isso reverberou no campo, marcando uma época de longos fracassos para os clubes nordestinos. Em 2006 a dupla BAVI caiu abraçada pra Serie C. Em 2009 o Santa Cruz foi parar na Serie D.

Definitivamente uma década inteira perdida, que pode agora ser recomeçada. Basta aos clubes locais tomar de uma vez por todas as rédeas das decisões através da Liga do Nordeste, evitando as interferências retrógradas das Federações, exigindo a redução dos estaduais, e garantindo condições equilibradas de disputa, engrandecendo o torneio, e não os seus caciques políticos.

 

2 comentários sobre “Roteiro Para Entender o Futebol Nordestino: Parte 2 – Copa do Nordeste (I)

  1. Checar algumas informações referente a edição de 2010 (aconteceu um BAVI que foi vencido pelo Vitória por 5×1 e a reportagem informa que o Bahia não participou desta edição) e houve também uma edição nos anos 70 que teve o Vitória como campeão e que foi reconhecida pela CBF, assim como a Taça Brasil e foi reconhecida como Campeonato Brasileiro.

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