Roteiro Para Entender o Futebol Nordestino: Parte 3: Copa do Nordeste (II)

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Sampaio Correia chegou à Série B, mas clubes do Piauí e Maranhão ainda estão fora da Copa do Nordeste (foto: Francisco Silva)

Terceira parte da série reserva comentários para além da Copa do Nordeste: a ausência dos clubes do Maranhão e do Piauí, a relação disso com a Copa Verde e as falhas cometidas na primeira edição da “Lampions”

*por Irlan Simões

Antes de ler confira a Parte 1: Introdução, e também a Parte 2: Copa do Nordeste (I) da série “Roteiro Para Entender o Futebol Nordestino”

Na segunda parte da série “Roteiro Para Entender o Futebol Nordestino” iniciamos a discussão sobre a Copa do Nordeste, do seu impacto nos clubes locais, a sua história e os motivos da sua interrupção. Aqui retornamos problematizando a mesma competição a partir de outros aspectos.

Piaui e Maranhão não são do Nordeste?

A pergunta do subtítulo acima é sempre lançada por torcedores de fora do Nordeste. Desde sua primeira edição a Copa do Nordeste nunca inseriu os clubes de Piauí e Maranhão. Uma discussão que até hoje corre.

Há diversas formas de justificar essa ausência. Historicamente, e basta recorrer aos documentos que mostram isso, no mapa da CBF esses dois estados eram considerados do “Norte”. A proximidade geográfica do Pará fez com que nas primeiras edições do primeiro torneio de calibre “nacional” – a saber, a Taça Brasil – fossem identificados de tal forma.

Por questões estruturais óbvias do sistema de transporte dos anos 60, o torneio era disputado em “Zonais”. Dessa forma os clubes faziam viagens mais curtas e os melhores classificados de cada “zona” passavam para fases nas quais disputariam com clubes de outas regiões. Dessa forma Maranhão e Piauí eram “norte”, ao lado do Pará, ao invés de Nordeste, ao lado de Ceará e Rio Grande do Norte.

Ainda hoje alguns clubes reivindicam o “título” de melhor classificado dos Zonais, ainda que esses fossem apenas fases preliminares de um torneio nacional. Coisas do futebol e da sua necessidade de criar mitos e eternas polêmicas.

Explicada a parte “justificável” do imbroglio, vale colocar que financeiramente nunca soou muito interessante, desde os primórdios, a participação de piauienses e maranhenses nos torneios encabeçados financeiramente por baianos e pernambucanos.

Essa sim, é a parte pouco nobre da discussão. Estariam em jogo viagens muito longas, com adversários desestruturados, sem perspectivas de títulos e sem apelo comercial. Coisas do futebol e da sua mercantilização excludente.

Tudo isso, em tese. A verdade é que em 2014 o estado do Maranhão terá o Sampaio Correia como representante na Série B, enquanto Sergipe, Alagoas e Paraíba – terra do atual campeão Campinense – não terão nenhum.

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Copa Verde e as “placas tectônicas” da política

Maranhenses e Piauienses provavelmente disputarão a recém nascida Copa Verde, caso não haja a inserção desses clubes na Copa do Nordeste. O torneio foi criado pela CBF numa lógica que também explica a “permissão” da entidade ao torneio nordestino.

A lógica é muito simples: com a saída do todo poderoso Ricardo Teixeira a CBF se tornou uma entidade em disputa. Todos se articularam das formas possíveis e quem está no comando hoje busca apoio da forma que lhe convém. José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, dupla que comanda a CBF e busca manter o controle das ações, sabem da importancia de manter os estados mais desestruturados por perto.

A Liga do Nordeste dava sinais de unidade, e por isso era inevitável sair do caminho dos 7 estados que a compõem. Mas no caso da Copa Verde se idealizou um torneio frankstein, que vai juntar nada menos que todos os estados do Norte, mais os estados do Centro-Oeste (com exceção de Goiás) e o Espírito Santo.

Em suma: todos aqueles estados que não tem representantes na Serie A ou B, tirando aqui a Luverdense, mas que simbolizam um imenso colégio eleitoral de 13 federações. A aposta é muito clara: o torneio vai ter pouca atratividade e será abandonado pelos principais clubes.

Futebol sergipano é outro em uma eterna crise. Confiança e Sergipe se enfrentarão na primeira fase da "Lampions 2014" (foto: Filippe Araujo)
Futebol sergipano é outro em uma eterna crise. Confiança e Sergipe se enfrentarão na primeira fase da “Lampions 2014” (foto: Filippe Araujo)

Falhas corrigíveis e princípios intocáveis

O mesmo Campinense, campeão de 2013, foi penalizado por não chegar na final do estadual paraibano. Na lógica que rege qualquer torneio de clubes em formato de Copa, a classificação seria automática. Uma falha, mas podem acontecer piores.

Pernambuco e Bahia, em que pesem as potências que são, vivem realidades diferentes. Não há motivos claros que justifiquem que a Bahia tenha três vagas quando seus únicos clubes de massa são Vitória e Bahia. A “terceira vaga” desses dois estados poderia ser disputada como um pré-Nordestão, a exemplo do que ocorre na própria Libertadores.

Isso permitiria que um clube bem estruturado, como Fortaleza, ASA ou ABC, fora do certame por uma desclassificação na semifinal dos seus estaduais, disputassem uma vaga com o Vitória da Conquista, clube que foi saco de pancadas da Serie D de 2013.

Na edição de 2014, agora valendo vaga na Copa Sulamericana, o regulamento foi alterado, com datas mais espalhadas. Na primeira edição todas as 12 datas ocorriam em sequencia, em meio e fim de semana. Agora as fases finais, em mata-mata, serão intercaladas com o início dos torneios estaduais. O que pode ser considerado um acerto: não atrapalha os clubes “de fora” e dá mais animação aos jogos decisivos, permitindo estádios mais cheios, inclusive de torcedores visitantes, algo que sempre embeleza as partidas.

Os primeiros passos foram dados, e a tomar pelo investimento feito pela TV Esporte Interativo até 2022, a força política dos clubes do Nordeste impedirá uma nova “sabotagem”. À medida que o torneio se consolida, no entanto, será preciso reforçar determinados princípios que são caros ao futebol nordestino.

Não bastará um calendário consolidado, ou estádios lotados, ou grandes aportes financeiros através dos anunciantes se o Nordestão já se iniciar com vencedores antecipados. É preciso permitir que os recursos sejam suficientes para todos, e que sirvam – eis aqui o ponto principal de tudo – para o crescimento dos clubes nos certames nacionais.

A Copa do Nordeste é a principal, e talvez a única saída, para clubes de estados como Sergipe, Alagoas, Paraíba e mesmo do Rio Grande do Norte, tão carentes de investimentos e principalmente de organização.

É na consolidação de um torneio atrativo que exemplos supostamente ocasionais acontecem. Basta imaginar aquele craque formado nas bases dos clubes locais que opta por jogar em pequenos clube-empresas do interior paulista, visando um ínfimo acréscimo salarial e uma ilusória “vitrine”, que nunca se consolida.

Com uma Copa do Nordeste forte essa lógica será alterada, os bons “pés” serão mantidos, e o torcedor local voltará a orgulhar das características principais do futebol nordestino: veloz, ofensivo, pegado e com massas fantásticas de torcedores agitando as arquibancadas mais belas e cheias do Brasil.

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